O oásis marxista de Auto Filho
Do jornal O Povo
Antes de entrar na biblioteca de Auto Filho, atual titular da Secretaria da Cultura do Estado, é preciso ler, num mosaico de azulejos, um trecho de uma carta que Maquiavel enviou a um amigo quando estava exilado. “Eu brigo com os autores“, está escrito lá na plaquinha, num texto em que explica a relação que mantém com a própria biblioteca. Não à toa ele está lá. “Faço como Maquiavel. Também brigo com os autores“, conta Auto. E em quatro cores diferentes, sem pudor algum com o objeto supostamente sagrado. O secretário sublinha, escreve, à caneta, “idiota“, “não é bem assim“, nas margens, faz riscos com aquelas canetas de muitas cores, e usa o vermelho, o verde, o azul e o preto, “cada um significando um tipo de marcação“.
A biblioteca foi construída ao lado da morada meio casa, meio sítio que Auto mantém em Caucaia há 25 anos. De fora dá pra se ter uma ideia, mas é quando a porta se abre que se entende todo o poder do lugar. As prateleiras acompanham as três paredes que o visitante observa logo na entrada, tanto no andar de cima quanto no de baixo, enquanto um conjunto de sofá e poltronas, do século XIX, convida para um dedo de prosa. Mas não dá para ficar sentada. É então que Auto começa a mostrar as especificidades dessa espécie de oásis. “Passei cerca de cinco, seis anos na construção da biblioteca. As paredes foram desenhadas especialmente para conter umidade, calor. Tenho problemas desses com a minha casa, mas os livros continuam intactos“, se orgulha.
E não se faz de rogado: continua a descrever, com carinho e brilho nos olhos, o lugar. “Tenho a maior biblioteca comunista do Ceará“. Dela faz parte a obra completa de Vladimir Lênin & “o que duas ou três pessoas têm no Brasil“, tudo o que Leon Trotski escreveu entre 1929 a 1940, e, claro, obras de “(Karl) Marx e (Friedrich) Engels, que estão acolá“, fala enquanto aponta para a direção oposta da sala. O passeio pelas prateleiras é inevitável. Apenas Auto sabe e entende a organização de toda a biblioteca & “e ninguém mais trisca nela, ninguém! Ele não deixa“, reforça Rejane, esposa e muito sabedora da paixão que o professor mantém pela coleção.
“Eu não sou colecionador“, corrige ele. “Eu compro livros para ler. Ao contrário de alguns bibliófilos, que compram volumes raros para montar uma coleção“. Mesmo assim, algumas das obras são bem difíceis de achar. “Como esse dicionário, que é o primeiro da língua portuguesa, feito por um brasileiro: Antônio de Moraes Silva, publicado em 1789“. Ou ainda as duas caixas que ficam sobre a mesa que compõe a sala. Um presente de José Mindlin, que faleceu no dia 28 de fevereiro: Viagem Filosófica, de Alexandre Rodrigues Ferreira, feita entre 1783 e 1792. Nas duas caixas, folhas de um papel mais espesso, com desenhos de diferentes animais. O original era desenhado à mão.
“Sabe o que mais é interessante? Tenho todos os números da revista Tempos Modernos, que Jean Paul Sartre editou“, e sobe numa escada de ferro & de desenho próprio & que auxilia na busca dos livros das prateleiras mais altas, para pegar um dos volumes. Ou a obra completa de Mário Pedrosa, crítico de arte. Ele reitera que usa todos aqueles livros para consulta & e Rejane confirma. Ela conta que, quando Auto era articulista do jornal O POVO, vez por outra recebia uma ligação: “era para procurar, na estante tal, prateleira tal, o volume tal, que na página tal tinha uma passagem que ele queria usar num artigo“, e ri.
Auto não titubeia quando perguntado sobre o valor total da biblioteca. “Não tem quem pague. Naquele dicionário que lhe mostrei, já me ofereceram R$ 20 mil, mas não posso vender, eu uso para consultas de documentos antigos“. E continua firme na opinião de não vender o acervo. “Quero deixar para os meus filhos, mas eles precisam fazer jus a ela, precisam mostrar que vão mantê-la“, aponta uma das opções. Natasha, estudante de direito, “parece que está mais interessada“, enquanto Leon envereda no universo da música, como DJ. Resta saber o quando Natasha se esforçará por ela. “Uma outra ideia é doar para a Universidade Estadual do Ceará, já que eu vim de lá“, cogita. Sem dúvida, um presente e tanto para a instituição.
E-MAIS
> Os livros são reis na biblioteca de Auto Filho. Mas numa prateleira do andar de cima, uma coleção de vídeos sobre boxe muda a paisagem. Boxe é uma das paixões do Secretário de Cultura. “Tenho a maior coleção de luta de boxe em fitas (VHS), e mais de 200 livros sobre o boxe“.
> Merece atenção também todo o mobiliário que compõe a biblioteca. Todos são móveis antigos, artigos coletados durante cinco anos, guardados para quando ela estivesse pronta, há 10 anos. Entre eles, um tinteiro que pertenceu a Castro Alves e uma escrivaninha Thompson, de 120 anos.
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Do Correio Braziliense
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