O samba do tucano doido
Tucanos de alta plumagem não se bicam em São Paulo. A última é a do Serra, fugindo de FHC como o diabo da cruz. Mas o ex-presidente, do alto de suas tamancas, não se conforma em ficar no limbo da polÃtica e vira advogado de si próprio.
O presidente de honra do PSDB, ao defender as alegadas virtudes de seu impopular governo, polariza o debate e joga água no moinho da eleição plebiscitária, tudo o que os tucanos, desde sempre, querem evitar.
Para Serra, colocar FHC no proscênio eleitoral é arapuca fatal. Mas, convencer o ex-presidente a sair de cena, quem há-de? A fogueira das vaidades, nestas horas, fala mais alto.
Em outro front, a guerra fraticida dos serristas com a patota do Geraldo Alckmin pega fogo nos bastidores. Por trás dos sorrisos amarelos, há uma virulenta disputa para dividir o butim entre os diversos grupos do tucanato.
Garras afiadas e penas voando emolduram a rinha mais chique de São Paulo. Quem conhece, sabe:  o maior pesadelo dos serristas é a hipótese, nada improvável, de o governador paulista levar uma surra nas presidenciais e, de quebra, ver o rival Alckimin governador…
Serra se vê sitiado pelo fogo amigo. Fora de São Paulo, Aécio pode deixá-lo na orfandade. FHC é o corregilionário incômodo. Com Alckmin e sua troupe o problema é outro: eles guardam no fundo d’alma um amargo desejo de vendetta, prato que, como se sabe, se serve frio.
O samba-enredo tucano, na sua versão coreográfica paulista, pode fazer feio no sambódromo eleitoral.  Nota zero no quesito harmonia! E não é só: para deleite da patuleia, esse bloco desengonçado pode amargar mais um Carnaval no grupo de acesso.
Marcio Pochmann: Brasil será das mulheres!
O professor e pesquisador Márcio Pochmann (Unicamp/Instituto de Economia/Centro de Estudos Sindicais de Economia do Trabalho) atualmente é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
No Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, ele fez uma palestra baseada no seu novo livro – Desenvolvimento e Perspectivas Novas para o Brasil – Cortez Editora, 2010. O livro trata, como o próprio tÃtulo sugere,  da problemática do desenvolvimento no Brasil.
Em 191 páginas, Pochmann analisa a sociedade agrária no Brasil, a transição para a sociedade urbano-industrial, o ciclo da financeirização e polarização social, a emergência do social-desenvolvimentismo e o desenvolvimento no limiar do século 21.Li o livro e recomendo sua leitura.
Márcio Pochmann fala das mudanças em curso na organização do trabalho e na demografia em nosso paÃs. Disse que a base material do direito do trabalho foi construÃda para regular o local da atividade laboral.
 Ocorre que, em perspectiva, o local de trabalho pode ser qualquer lugar. Essa mudança não é regulada pela legislação, e isso já provoca implicações na ação (ou falta dela) do movimento sindical.
Paralelamente à mudança do local de trabalho, sempre segundo Pochmann, há uma diminuição na taxa de fecundidade das mulheres e o envelhecimento da população. A partir de 2030, segundo ele, a população brasileira começará a diminuir (mulheres terão, em média, 0,7 filho cada uma).
Dois problemas imediatos surgirão: escassez de mão-de-obra no Brasil e problemas previdenciários. A falta de braços deve atrair imigrantes de paÃses como BolÃvia, Chile, Paraguai para suprir a demanda.
A proteção da velhice demandará a ampliação da ação do Estado e mudanças no atual sistema previdenciário brasileiro. As famÃlias, ao contrário do que ocorre hoje, não terão condições de arcar com o ônus de segurar a barra dos seus parentes idosos, que não serão poucos. Em 2030, por exemplo, o Brasil terá cerca de 30 milhões de pessoas com mais de 80 anos!
Outro fenômeno em curso é o vigoroso papel das mulheres no mercado de trabalho. O professor Pochmann lembra que da última metade do século passado até hoje tivemos três revoluções sexuais.
A primeira separou o sexo da reprodução (contraceptivos), a segunda separou o sexo do casamento (novo perfil da mulher moderna) e a terceira, em andamento, separa a reprodução do sexo. A mulher vai escolher quando e como terá filhos!
Fruto dessas três revoluções, somado com a maior escolaridade feminina, o mercado de trabalho será extremamente competitivo do ponto de vista de gênero… e as mulheres vencerão!
O nosso professor acredita que, em breve, as mulheres ocuparão os melhores cargos e, em consequência, os mais remunerados, invertendo o papel dos provedores domésticos.
 Nessa linha, ele prevê, as mulheres trabalharão fora e boa parte dos homens terá responsabilidade maior na manutenção da casa e dos filhos… “Lava a louça todo dia, que agonia…”, cantarão, insatisfeitos, os marmanjos.
Desenvolvimento e Perspectivas Novas para o Brasil apresenta uma imensa quantidade de indicadores econômicos e sociais que ajudam a compreender as transformações progresssitas no Brasil de Lula.
Ampliou-se consideravelmente a rede de proteção social, depois das décadas perdidas (80 e 90 do século passado) o Brasil retoma a mobilidade social ascedente, e, ao contrário das outras grandes crises do capitalismo, nesta última o Brasil sofreu impacto pequeno no emprego e na renda.
Fico por aqui, não sem antes lembrar que o texto de Pochmann guarda muita coincidência com as formulações programáticas aprovadas pelo PCdoB em seu último congresso.l
A CTB e o Forum Social Mundial/RS
O Forum Social Mundial (FSM), realizado na Grande Porto Alegre de 25 a 29 de janeiro, fez um balanço das dez edições do evento e traçou perspectivas para o futuro a partir do lema “Um Outro Mundo é PossÃvel”.
A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) teve participação destacada nestas atividades. Além da presença em mesas da Federação dos Farmacêuticos, Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp e lançamento da “Campanha pela Paz”, organizada pela Cebrapaz, vale destacar:
1. Passeata da CTB com cerca de 500 sindicalistas, indo da sede da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (FETAGRS) até o Mercado Municipal, no centro.
2. Marcha de Abertura do Fórum, do Mercado até a Usina do Gasômetro;
3. Debates promovidos pela FECOSUL (Federação dos Trabalhadores no Comércio do Rio Grande do Sul) sobre polÃtica de relações internacionais do Brasil, sindicalismo na atualidade e regulamentação da profissão de comerciário;
4. Debate sobre desenvolvimento e sustentabilidade sócioambiental, na sede da FETAGRS, com a presença da Secretaria do Meio Ambiente, Ministério Público e outras autoridades.
5. Presença no ato com o Presidente Lula.
6.Dois seminários sobre o mundo do trabalho (perspectivas do sindicalismo e combate às práticas antissindicais), com o fórum das centrais sindicais;
7. Assembleia dos movimentos sociais, último evento do FSM.
Nestas e nas outras atividades, a CTB participou de forma organizada, com bandeiras, faixas, camisetas,distribuição de material e militância organizada.
De forma geral, pode-se dizer que o FSM construiu uma grande unidade contra o neoliberalismo e apresenta, pela diversidade de sua composição, um leque variado de visões e concepções sobre o futuro.
Sem se preocupar, agora, em fazer um balanço mais geral, cabe destacar a consolidação da unidade das centrais e a reafirmação da importãncia da Conferência Nacional da Classe Trabalhadora, a realizar-se no dia 1º de junho, em São Paulo.
A Coordenação dos Movimentos Sociais, por sua vez, realizou concorrida atividade, com cerca de mil participantes.  Aprovou um documento polÃtico e convocou uma grande Assembleia Popular para o dia 31 de maio.
Esses dois momentos marcarão o protagonismo do sindicalismo e dos movimentos sociais na defesa de uma plataforma que sirva de fio condutor na luta pela manutenção e aprofundamento dos avanços progressistas no Brasil e para barrar o retrocesso neoliberal.
EUA: Haiti, 51º estado?
Um grupo de intelectuais haitianos, um dos quais professor em Harvard, diz que só uma superpotência pode reconstruir o estado e recomeçar a vida no devastado Haiti.
Para eles, em artigo publicado neste domingo na Folha de São Paulo, potências regionais (o Brasil?) não reúnem todas as condições para enfrentar e vencer os dramas atuais daquele paÃs.
A difusão desse tipo de opinião, associada à  ocupação militar promovida pelos EUA (aid humanitariun, como eles dizem) pode indicar que o Big Brother do Norte esteja preparando as condições para cravar suas garras naquela região, constituindo ali o 51º estado estadunidense de facto.
Hoje se encontram no Haiti 12 mil soldados americanos, equivalentes, pela população do paÃs,  à s tropas americanas no Afeganistão. Há também 48 helicópteros militares e outros quinze para ações civis.
Para além da ocupação militar, os EUA enviaram ao Haiti o portentoso navio-hospital “USNS Comfort”, com 600 médicos e enfermeiros, mil camas, doze salas de cirurgia e unidades de terapia intensiva.
A estratégia de ocupação combina ações militares e de ajuda civil, tudo para dar legitimidade ao novo status quo pretendido no paÃs.  As demonstrações concretas de “solidariedade”, no entanto, não podem prescindir do aval dos próprios “interessados” na anexação.
Nesse rumo, nada melhor do que haitianos ilustres para demandar a coordenação dos EUA para a nova fase do Haiti. Em um paÃs destruÃdo, sem que se consiga enxergar luz no fim do túnel, todas as hipóteses passam a ser plausÃveis.
Cuba pode ganhar, ao sul, bem pertinho de suas fronteiras, um novo e incômodo vizinho, o mesmo que ocupa a BaÃa de Guantânamo…
Enchentes paulistanas
O Rio Tietê é uma espécie de ralo de São Paulo. Com baixa declividade, assoreado e com ocupação desregrada de suas margens, o Tietê recebe, direta ou indiretamente,  as águas de praticamente todos os rios e córregos da cidade.
Por causa disso, o ex-governador paulista, Geraldo Alckmin, disse que a maior obra de sua gestão seria o “Projeto Tietê”. Este custoso empreendimento, prometia a propaganda,  acabaria definitivamente com as enchentes na marginal do Tietê.
Foi propaganda enganosa. Logo após a inauguração, São Paulo sofreu uma das maiores enchentes e o epicentro, para variar, foi a famosa marginal. Rapidamente foram retiradas as vistosas placas “enchentes nunca mais!”.
Apesar de não ter acabado com as enchentes, a obra teve alguns aspectos defensáveis: rebaixou a calha e, com isso, aumentou a declividade e a velocidade do rio, fatores importantes para evitar transbordamentos.
A construção de taludes para evitar erosão das margens também foi positiva, assim como a plantação de centenas de árvores ao longo da Marginal serviu para melhorar o visual da área.
Mas com os tucanos no governo dá sempre para piorar um pouco mais. Não satisfeito, o governador Serra e seu parceiro, o prefeito Kassab, resolveram desfazer tudo e promover mais um ataque ao Tietê.
Com muito alarido publicitário, os tucanos promovem uma nova e desastrada intervenção no local. Derrubam árvores e aumentam a impermeabilização do solo para construir mais uma faixa de tráfego no local.
Condenada por dez entre dez especialistas em macrodrenagem urbana, a obra já apresenta seus primeiros resultados: agravamento das enchentes e degradação urbanÃstica. E os congestionamentos só vão mudar de lugar.
De olho nas eleições e vendo São Paulo passar o verão debaixo d’água, o governador José Serra tira o seu da reta, desaparece e passa todo o abacaxi para o subserviente prefeito paulistano.
Chega a ser vexatória a situação do alcaide. A cada nova enchente, ele aparece na televisão para dizer que as autoridades não têm culpa de nada. A responsabilidade é exclusiva de São Pedro e do excesso de chuvas.
Com isso, claro, sua popularidade naufraga e o governador Serra perde mais uma âncora de sua combalida obsessão pela presidência. E quem paga o pato são os moradores da cidade, que contabilizam grandes prejuÃzos materiais, doenças e perdas de vidas humanas.
1º de junho: Conferência Nacional da Classe Trabalhadora
Seis centrais sindicais aprovaram, nesta quinta-feira, 21, a realização da Conferência Nacional da Classe Trabalhadora. O evento será realizado no dia 1º de junho, em São Paulo, com a meta de reunir cerca de dez mil sindicalistas.
O roteiro, aprovado por consenso, prevê a realização de encontros preparatórios em todos os estados e, na plenária final,  elaboração de proposta de um projeto nacional de desenvolvimento com valorização do trabalho e distribuição de renda.
Segundo Wagner Gomes (foto), presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), os sindicalistas presentes à Conferência definirão o apoio à candidatura presidencial cujo perfil se enquadre com as resoluções a serem aprovadas.
Uma grande notÃcia!
A direita mostra os dentes
1. Ao que tudo indica, os EUA aproveitam as dramáticas consequências do  terremoto (*) para ocupar militarmente o Haiti e liderar o processo de ‘reconstrução” do paÃs. Desta vez, a ação seria coberta pelo manto da ajuda humanitária, mas os objetivos são sempre os mesmos: subjugar o paÃs e torná-lo satélite de seus interesses imperialistas.
2.A vitória da coligação direitista no Chile foi discretamente comemorada pelos seus iguais brasileiros. O jornal Folha de São Paulo disse que o resultado comprova a maturidade da democracia chilena e que a alternância de partidos no poder é salutar. Tudo a ver com a campanha presidencial brasileira, onde o jornal apoia descaradamente o candidato tucano e quer, por analogia, insinuar que a popularidade de Lula é individual e instransferÃvel.
3.Em Honduras o golpe alcançou seus objetivos. Conservadores defenestraram  Manuel Zelaya (golpe já faz sete meses!), realizaram uma eleição fajuta e agora o presidente “eleito”, PorfÃrio Lobo,  diz que vai governar com um Conselho Assessor formado de ex-presidentes, incluindo na lista o próprio Zelaya, ainda confinado na embaixada brasileira, e o golpista Roberto Micheletti, governo de facto do paÃs.
 Malandragem pura para legitimar a espúria eleição.
(*) No texto inicial, por engano, escrevi furação, mas me alertaram…
André Singer e o “lulismo”
Há trinta e quatro anos, convivi alguns meses com o hoje professor André Singer. Era o perÃodo da campanha eleitoral de 1976. Aos sábados e domingos, ele e um colega vinham até a Vila Brasilândia participar da campanha à vereança do Benedito Cintra.
Estudantes de Ciências Sociais da USP, para eles a campanha tinha duas motivações básicas: contribuir com uma candidatura popular de oposição à  ditadura e manter um contato direto com o povão da periferia.
Recentemente, troquei mensagens eletrônicas com o André Singer e, entre outros assuntos,  ele me disse que aquele perÃodo de militância com os moradores da Brasilândia foi uma das experiências mais ricas e marcantes de sua  vida.
 A recÃproca também é verdadeira. Isolados no fundão da periferia, em pleno regime militar, compartilhar militância e debates polÃticos com o efervescente movimento estudantil da época, do qual o André era um quadro, contribuiu bastante para nossa formação.
Esse prolegômeno todo é apenas para meter a colher no debate proposto pelo Walter Sorrentino em seu blog, a respeito de um artigo do André - ”RaÃzes Sociais e Ideológicas do Lulismo”.
Dois pontos, no artigo,  são relavantes: o deslocamento do subproletariado e, com ele, do  seu “conservadorismo popular”,  para as bases do presidente Lula,  e a perda de centralidade dos estratos médios, até então considerado os principais formadores de opinião no paÃs.
O André chega a essas conclusões a partir de diversas pesquisas e da análise comparativa dos votos de Lula em 2002 e 2006. Para ele, as pesquisas e as análises atestam essa alegada mudança de base social do Lula.
Com isso, sempre segundo as respeitáveis opiniões do autor do texto, há um embaralhamento na tradicional dicotomia entre esquerda e direita no paÃs. A “classe média” de esquerda fica órfã e sem discurso, e a direita, em contrapartida, perde o subproletariado, seu eleitorado tradicional.
Pela lógica do estudo, publicado em revista da USP,   os partidos polÃticos, principalmente os de esquerda, passam a ter papel subalterno. No vácuo, surge ” o lulismo”, espécie de representação polÃtica das massas, acima da luta de classes e das polarizações ideológicas.
Ocorre que na Venezuela, na BolÃvia, no Equador, na Nicarágua e na própria Argentina,  para citar alguns exemplos na América Latina, as bases sociais dos governos progressistas se aproximam muito das bases do “lulismo”.
Na BolÃvia, os departamentos mais ricos pregam o separatismo, em Caracas a oposição ganhou as eleições e em Buenos Aires os Kirchners sempre perdem as eleições. Â
Nesses paÃses também os partidos polÃticos têm peso relativamente menor do que o “Estado-provedor”, mesmo considerando-se os tradicionais MAS, na BolÃvia, os sandinistas, na Nicarágua e o complexo peronismo na Argentina.
Emerge um problema de razoáveis proporções. As mudanças progressistas na América Latina sofrem forte bombardeio da mÃdia direitista. O impacto é neutralizado no povão, beneficiários diretos  dos programas sociais.
Mas os tais estratos médios acham que pagam a conta, via impostos, desses benefÃcios que não os atinge. Além disso, são mais vulneráveis aos discursos moralistas e/ou terroristas da mÃdia, que martelam sempre na tecla da corrupção ou do perigo de esses governos desembocarem em uma “ditadura” de esquerda.
O estilo conciliador do governo Lula e seu imenso prestÃgio nacional e internacional jogam água no chope da direita. Quanto mais batem no governo, mais ele cresce. Aqui há particularidades que merecem reflexão.
Ademais, há que se considerar que o governo Lula, para além de sua heterogênea base parlamentar, tem amplo apoio entre setores organizados que não se enquadram na categoria de subproletários.
Destaco o apoio das seis principais sindicais brasileiras, fato inédito na história polÃtica recente do paÃs, e de boa parte do movimento estudantil, comunitário, de mulheres, negros etc. Isso sem falar em setores econômicos que vão bem, obrigado, com a atual polÃtica.
Os subproletarários podem ser considerados inorgânicos do ponto de vista da representação. Já os militantes dos partidos polÃticos de esquerda e das organizações sociais que apoiam o governo Lula integram, em boa parte, os estratos médios.
Essa gelatinosa “classe média”, sempre se divide: uma parte abastece a direita, outra flutua no centro, e um setor compõe, sem dúvida, um dos pilares chaves da esquerda. Sempre foi assim. Houve uma revolução no pensamento polÃtico desse estrato?
A resposta não é simples. A fratura entre o governo Lula e certos setores médios não foi ampla, geral e irrestrita. Podem ter migrado por várias razões e para várias direções.
Segmentos despolitizados, que formam opinião lendo Veja, Folha ou assistindo a Globo, podem ter recuado para a direita, tucanado. Outros, se deslocaram para o esquerdismo (PSOL, PSTU e adjacências).
É razoável trabalhar com um relativo realinhamento de bases sociais. Esse movimento  pode até ter atingido o Ãmpeto militante de frações de esquerda que se mantém alinhadas com o governo Lula.
Tudo somado, acho temerária a conclusão de que houve mudanças das próprias  placas tectônicas que sustentam o edifÃcio polÃtico e ideológico da esquerda. Não chega a ser um tsunami polÃtico, mas é pouco dizer que se trata apenas de marola.
Não se deve esquecer que nunca antes na história deste paÃs a esquerda conseguiu  chegar ao governo, mantê-lo na reeleição e prosseguir com grandes possibilidades para uma terceira vitória do ciclo progressista. A regra geral,recorde-se, era a derrota nas polarizações.
Para obter a maioria polÃtica e social, não se pode creditar o fenômeno apenas à chancela polÃtica do subproletariado. Incorporar essa massa de dezenas de milhões ao nosso projeto polÃtico terá sido  uma vitória estratégica para o nosso campo.
 Tudo isso, no entanto, precisa estar umbilicalmente ligado aos setores social e politicamente mais organizados. O grande desafio, talvez, seja recuperar parte dessas ovelhas desgarradas, sem novas perdas.
Não apenas com discursos, mas principalmente com um aprofundamento das mudanças progressistas que resgate as convicções libertárias da maioria dos brasileiros. São opiniões preliminares de um debate fecundo. Aceita-se de bom grado contraditas.
Lula, o filho do Brasil
Nestas duas últimas semanas, curtindo um perÃodo de baixa temporada em São Paulo, eu assisti a cinco filmes. Comparei as crÃticas e avaliações em um jornalão paulista.
“Paris” recebeu três estrelas (bom), , “Nova Iorque, Eu te Amo” duas estrelas (regular),  ”Ervas Daninhas” quatro estrelas (ótimo), “Bastardos Inglórios” quatro estrelas (ótimo) e, o ponto fora da curva,  ”Lula, o Filho do Brasil” uma estrela (ruim).
Os filmes estrangeiros, cada um a seu modo, tratam das vicissitudes contemporâneas da pequena burguesia.  Crises amorosas, conjugais, existenciais ou profissionais e, no caso de “Bastardos Inglórios”,  feridas não cicatrizadas da II Guerra.
Para esses filmes não se economizam adjetivos. Alain Resnais é o gênio da raça, Quentin Tarantino não perde o pique, e por aà vai. Para mentes prisioneiras do colonialismo cultural, seria out falar mal e in louvar esses filmes.
Não que cada um deles não tenha suas qualidades. Tem. Mas quando se fala de “Lula, o Filho do Brasil”, de Fábio Barreto, a saga do mais ilustre retirante nordestino, só há crÃticas preconceituosas e elitistas.
Há até uma mal disfaçarda torcida para que o filme não tenha bom público. O que mais incomoda esses “eruditos” senhores é que o filme joga mais água no imenso caudal de popularidade do presidente.
Vá lá que não estamos diante de uma obra-prima. O filme potencializa os aspectos dramáticos da vida de Lula e sua famÃlia, mostra o perfil conciliador do presidente mesmo quando lÃder sindical. Tem um apelo emotivo pesado para atingir o fundo da alma do povão. É do jogo.
Agora, jogar o filme do filho de dona Lindu na lata do lixo é sectarismo em dose cavalar. Quem puder assistir ao filme (os ingressos são salgados para o público-alvo do mesmo) eu aposto: será difÃcil segurar as lágrimas. Isto para quem ainda tem glândulas lacrimais…
O que a propaganda de Serra não diz
Em 2009 o governador José Serra faturou a medalha de ouro nas olimpÃadas dos gastos publicitários. E na guerra propagandÃstica do tucanato, a primeira vÃtima, para não variar, foi a verdade.
Alguns exemplos. A milionária obra de ampliação da Marginal do Rio Tietê, na capital paulista, foi apresentada como importante obra urbanÃstica e ambiental, contrariando a opinião de todos os especialistas.Â
A verdade, porém, trafega em outra direção. Tal obra é uma tragédia em matéria de macrodrenagem urbana. Com ela, há novo aumento da área impermeabilizada em torno do rio e o consequente  agravamento dos riscos de novas e maiores enchentes.
Antes, os tucanos exibiam outdoors por toda a Marginal Tietê com a frase “enchentes nunca mais”. Como a propaganda deu com os burros n’água, Serra abandona as veleidades antienchentes e promete, agora, acabar com os congestionamentos.
Uma vez mais se agride a verdade e a inteligência das pessoas. Toda pessoa que conhece São Paulo sabe que é uma impossibilidade fÃsica enfrentar o problema dos congestionamentos com a simples ampliação da Marginal.
O máximo que se pode conseguir é mudar o congestionamento de lugar, além de encher as burras de futuros financiadores de campanha. Mas a obra tem objetivos (eleitoreiros) de curto prazo, o povo que se exploda.
Outra propaganda enganosa é a que tenta tirar de São Paulo o tÃtulo de  campeão brasileiro de pedágios. As principais rodovias do Estado, sob concessão privada, se transformaram em verdadeiras máquinas de sugar dinheiro dos usuários.
A multiplicação das praças de pedágio e o valor abusivo cobrado tornam o direito de ir e vir letra-morta no Estado. O custo dos pedágios supera os dispêndios com combustÃvel e prejudica, direta ou indiretamente, toda a população.
Mas essa sangria com o bolso do contribuinte não aparece na propaganda oficial. A melhora nas estradas paulistas, paga a peso de ouro, tem como contrapartida a irritação crescente na população.
Não por acaso,  multiplicam-se em São Paulo movimentos (com a participação de empresários, usuários e sociedade em geral) reclamando uma drástica diminuição no valor e no número de praças de pedágio.
InsensÃvel, o governador quer fazer piquenique na sombra dos outros. O concessionário privado faz a obra, o povo paga a conta e o governo se vangloria. Mas o gogó dos tucanos na propaganda tem pernas curtas…