Meirelles e suas contradições: “conselhos para a China e EUA”
Não é novidade a cada vez mais delicada situação daqueles que defendem o “livre mercado” ou a “ação da mão invisível”. Ainda mais quando o próprio presidente norte-americano não conseguiu emplacar uma regulação do sistema financeiro norte-americano e o nosso presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso lido por Celso Amorim semana passada em Davos, dá sua opinião contra o desvio de energias e recursos da produção para o sistema financeiro. Na verdade, os grandes centros financeiros entendem o recado. E a reação é encontrar bodes expiatórios contra as crises futuras. Vale até conselhos para os governos dos Estados Unidos e da China.
Foi exatamente desta forma que reagiu o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, em entrevista última ao O Globo (Temor de crise com desequilíbrio de China e Estados Unidos), onde para desacreditar a execução de reformas que levem a uma nova regulamentação do sistema financeiro internacional, apelou para ensinar os EUA — e, principalmente, a China — a alterar suas políticas monetária e fiscal. Além, é claro, de colocar que a melhor forma de preparar o Brasil para novas turbulências da economia mundial seria, por incrível que pareça, “manter a atual política macroeconômica”.
Qual o fundo, a essência do argumento de Meirelles, tanto para aconselhar os EUA e a China, quanto para ditar a necessidade da atual política macroeconômica? O argumento de sua “cruzada” velada contra a reforma do sistema financeiro internacional é o de demonstrar que o atual desequilíbrio econômico internacional não tem centro nos bancos e sim na atual política cambial chinesa, mantida – por entre outros meios – pelo consumo norte-americano. Aliás, esse argumento não é novo: já foi usado pelo ex-presidente dos EUA Ronald Reagan contra o Japão na década de 1980. Assim, como Reagan, o presidente do BC atola-se em contradições.
Se o problema da economia internacional não são as várias operações de carry trade e as operações com efeito cascata dos chamados derivativos e sim o desequilíbrio da balança comercial entre EUA e China, o presidente do BC deveria responder até que ponto o capital investido, pelos chineses, na compra de títulos norte-americanos tem parcela de culpa na crise. Evidente que ele não vai responder isso, pois o blecaute financeiro recente nada tem a ver com as operações chinesas no mercado de títulos dos Estados Unidos. Pelo que se sabe os chineses não tem ativos no mercado imobiliário do império e compra de títulos do tesouro é uma via de financiamento de, entre outras coisas, do próprio déficit norte-americano para com a China. A relação é de outra ordem.
Por outro lado, subjetivamente ele propõe – para a “salvação do mundo” – um alavancamento do consumo na China através da mobilização de sua poupança congelada sob forma de depósitos em bancos chineses. Talvez ele não saiba que o governo chinês está executando uma grande reforma do sistema previdenciário que já consumiu, entre 2003 e 2008, quase US$ 300 bilhões, o que tem servido de garantia a amplas parcelas da população chinesa o acesso a um moderno sistema previdenciário e de saúde, que por seu turno, está liberando boa parte desta poupança retida nos bancos e financiando o consumo e o investimento. Isso (que os chineses já estão executando), segundo seu raciocínio, afrouxaria os laços comerciais de dependência chinesa do mercado norte-americano, levando assim a mudanças na política cambial chinesa.
Meirelles, indiretamente e contraditoriamente, propõe isso ao mesmo tempo em que, segundo membros de sua equipe, um dos grandes problemas brasileiros são os “gastos” com previdência, pois é um entrave à “formação de poupança interna”. Já sobre a mudança da política cambial chinesa com o aumento da variável “consumo” na composição do PIB chinês, seu argumento é falso, pois a mudança da política cambial chinesa só ocorrerá nos marcos de um aumento de competitividade de suas empresas e não diretamente por conta do alargamento do mercado interno. Caso Meirelles tivesse razão, a política cambial chinesa mudaria a cada ano, pois o crescimento dos salários tem média anual, desde 1998, de 12% ao ano e bem acima da inflação no período.
Por fim, mais contraditório ainda. Se para os chineses ele “propõe” uma política consumista, para o Brasil ele propõe a manutenção de uma política “anticonsumo”, pela manutenção da atual política macroeconômica de juros inibidores ao consumo e investimento. É contraditório na medida em que o mundo amorteceu os efeitos da crise com uma gestão expansiva dos gastos públicos; expansão dos gastos esta aconselhada inclusive pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). No Brasil, ao que se percebe, nenhuma política expansionista teve apoio pela ação do presidente do Banco Central. Quem lastreou nossa sobrevivência foi a rápida política de aumento de liquidez dos bancos públicos, de corte de impostos sobre a linha branca, de aumentos anuais do salário mínimo e o PAC. Nada que tivesse o dedo de Meirelles. Muito pelo contrário.

Comentários