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  ESPECIAL
 Uma epopéia pela liberdade
 
Guerrilha do Araguaia 30 anos
(1972-2002)

::5::

 REPORTAGEM 

Textos de Eumano Silva e Ronaldo Brasiliense
  publicados no Correio Braziliense 

 

Guerra suja na selva

Ronaldo Brasiliense

Com um trabalho de inteligência liderado pelo major Curió, o Exército conseguiu virar o jogo após sucessivas derrotas e aniquilar o foco guerrilheiro implantado pelo PC do B no Araguaia

 

J A Guerrilha do Araguaia, entre 1972 e 1974, colocou em xeque pela primeira vez o poder de reação das Forças Armadas diante de um inimigo que se instalara numa região inóspita, de floresta tropical, entre o sul do Pará e o norte de Goiás (hoje Tocantins). Os guerrilheiros do Partido Comunista do Brasil tentavam implantar um movimento armado com o objetivo de derrubar a ditadura militar que se consolidara no país após a decretação do Ato Institucional nº 5. Numa primeira fase, haviam conseguido importantes vitórias sobre os militares, que decidiram mudar de estratégia. E foi após um demorado trabalho de inteligência que o Centro de Informações do Exército (CIE) conseguiu, à base da tortura em presos, identificar os principais responsáveis pelo foco guerrilheiro instalado pelo PC do B no Araguaia. O chefe militar da guerrilha, segundo documentos militares da época, era o ex-deputado federal comunista Mauricio Grabois, que teria chegado à região ainda em 1967, antes, portanto, da decretação do AI-5. Mauricio Grabois seria, segundo os militares, o superior hierárquico de três comandos distintos: o Comando A, liderado por André Grabois, o "Edgar", filho de Mauricio; o Comando B, dirigido pelo técnico em máquinas e motores Osvaldo da Costa, o "Osvaldão"; e o Comando C, que era liderado pelo economista Paulo Mendes Rodrigues. Os militares admitem, no relatório sobre a Guerrilha do Araguaia ao qual O PARAENSE teve acesso, que os guerrilheiros contavam apenas com armamento precário e estariam à espera de armas que seriam fornecidas pela China comunista. O relatório com o rótulo "secreto" feito pelo tenente-coronel Arnaldo Bastos de Carvalho Braga se encerra na página 1058, contando que naquela data, 9 de novembro de 1972, por decisão do Estado Maior do Exército, sob orientação do ministro Orlando Geisel, as tropas abandonavam as operações regulares de combate à guerrilha. Os militares reconheciam que não haviam eliminado os focos de resistência comunista. O Alto Comando do Exército decidia, segundo o relatório, deixar tropas das polícias militares do Pará, Goiás e Mato Grosso, sob o comando da unidade do Exército sediada em Marabá, executando as operações no Araguaia. Era o início de uma guerra suja que só se encerraria com o extermínio de todos os 69 guerrilheiros do PC do B destacados para a região do Araguaia.

Guerra suja
A guerra suja deixava de ser uma ação ostensiva para cair na clandestinidade, comandada diretamente pelo Centro de Informações do Exército, o CIE. Aparece na história, então, um personagem que se tornaria célebre na região: Sebastião Curió. Major à época, Sebastião Rodrigues de Moura, com curso de especialização no Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), do Comando Militar da Amazônia, ex-lutador de boxe, foi enviado ao Araguaia com o codinome de Marco Antonio Luchini, um engenheiro florestal dos quadros do Instituto Nacional de Colonização e reforma Agrária (Incra), para montar uma operação de inteligência e aniquilar os últimos focos da guerrilha. Curió montou uma rede de informantes em toda a região do Araguaia. Sua estratégia mais bem sucedida foi a montagem de biroscas para o fornecimento de alimentos e munição ao longo do rio Araguaia, onde obtinha valiosas informações dos caboclos. Mais de uma vez os agentes do CIE recrutados por Curió em quartéis da própria Amazônia - pessoas com características físicas da região - venderam munição sabendo que era destinada aos guerrilheiros, para angariar a confiança dos lavradores. Dessa forma, sem pressa, Curió conseguiu identificar um a um todos os acampamentos da guerrilha, que passaram a ser atacados por pelotões especialmente treinados para aquele tipo de ação. Na operação mais destruidora, Curió conseguiu executar de uma só vez dois dos principais líderes da guerrilha: o comandante geral Mauricio Grabois e Paulo Mendes Rodrigues, chefe do Destacamento C. Os dois foram surpreendidos na manhã do dia de Natal de 1973 no acampamento da Gameleira, próximo ao rio Araguaia, junto com Guilherme Lund, arquiteto, e Gilberto Olímpio, técnico industrial, genro de Grabois.
Todos foram mortos. Mauricio Grabois, segundo comentou Sebastião Curió com outros militares que participaram da ação, estava praticamente cego.

O fim 
O último comandante guerrilheiro a ser morto foi Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, um negro com quase dois metros de altura, o mais temido e procurado de todos os guerrilheiros do Araguaia. Foi executado a tiros em abril de 1974. Trombou de frente com uma patrulha do Exército. Levou o primeiro tiro, de uma espingarda calibre 22, disparado por "Mineiro", um mateiro - como eram conhecidos os guias recrutados pelo Exército na região. Baleado na barriga, Osvaldão foi fuzilado pelos demais integrantes da patrulha militar. O corpo de Osvaldão foi embrulhado num saco de lona verde e içado por um helicóptero. Segundo o relato de um dos participantes da ação, a corda se rompeu no ar, a uma altura de 10 metros e, na queda, o corpo de Osvaldão teve o tornozelo esquerdo fraturado. Como os outros combatentes mortos, Osvaldão foi enterrado num cemitério clandestino na própria região. A operação Guerra Suja do CIE, ao final dos combates no Araguaia, quando todos os 69 guerrilheiros do PC do B já haviam sido exterminados, concluiu, em relatório secreto enviado ao Conselho de Segurança Nacional (CSN), que a região continuava potencialmente explosiva, sujeita a novos movimentos guerrilheiros porque faltava assistência governamental à população. O documento militar denunciava a estrutura fundiária injusta, dominada por latifundiários e grileiros. Insistia, também, na implementação urgente de um plano de reforma agrária. O último documento sobre a Guerrilha do Araguaia, assinado pelo próprio Sebastião Curió, alertava que, 15 meses após encerrada a guerrilha, com a morte de todos os militantes do PC do B, apesar de todas as promessas oficiais, a região continuava abandonada pelo governo federal. O que, aliás, até hoje é uma verdade.

Foto: Paulo Santos/Interfoto 1983

Genoíno: De volta à região do Araguaia 11 anos depois da luta armada, o ex-guerrilheiro José Genoíno discursa defendendo a reforma agrária

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Curió e Genoíno em campos opostos

O deputado federal José Genoíno (PT-SP) e o prefeito de Curionópolis, Sebastião Curió Rodrigues de Moura, sempre estiveram em campos opostos. No início dos anos 70, com o codinome de Marco Antonio Luchini, Curió foi o responsável pela prisão de Genoíno, um militante do Partido Comunista do Brasil que havia sido designado para integrar os quadros da guerrilha rural que o PC do B pretendia montar da região do Araguaia, entre os Estados do Pará e Goiás (hoje Tocantins). "Genoíno se entregou sem reagir e entregou seus companheiros", delatou Sebastião Curió, 15 anos depois, quando, ao lado de Genoíno, era um apagado deputado federal, eleito pelo Pará com o apoio maciço dos garimpeiros de Serra Pelada. Segundo Curió, ao ser preso, Genoíno carregava uma pistola escondida num gorro, em sua cabeça, mas em nenhum momento tentou reagir à prisão.

Curió: o prefeito assassino 

Trânsito 
O cearense Genoíno, que fez carreira política em São Paulo, sempre negou ter delatado seus companheiros de guerrilha. Com muita habilidade, Genoíno acabou se transformando num dos parlamentares com maior trânsito no Congresso Nacional, capaz de elogiar velhos adversários, como o coronel Jarbas Passarinho, e fustigar ex-aliados, como o ex-governador Leonel Brizola. É considerado um dos maiores conhecedores do regimento da Câmara. Hoje, quase 30 anos depois de a Guerrilha do Araguaia ter sido aniquilada pelas Forças Armadas, Curió comanda a minúscula prefeitura de Curionópolis, no sul do Pará, e José Genoíno é o virtual candidato do PT ao governo de São Paulo em 2002. Curió elegeu-se pelo PMDB, apoiado pelo ex-senador Jader Barbalho, mas tem contas a acertar com a Justiça. Ele está sendo processado no Distrito Federal pela morte de um rapaz, menor de idade, numa suposta troca de tiros. Sebastião Curió acusa o rapaz assassinado de ter assaltado sua mansão, localizada no Lago Sul, uma das áreas mais privilegiadas da capital federal.

 

  

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