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Guerrilha do Araguaia, entre 1972 e 1974, colocou em xeque pela
primeira vez o poder de reação das Forças Armadas diante de um
inimigo que se instalara numa região inóspita, de floresta
tropical, entre o sul do Pará e o norte de Goiás (hoje Tocantins).
Os guerrilheiros do Partido Comunista do Brasil tentavam implantar
um movimento armado com o objetivo de derrubar a ditadura militar
que se consolidara no país após a decretação do Ato
Institucional nº 5. Numa primeira fase, haviam conseguido
importantes vitórias sobre os militares, que decidiram mudar de
estratégia. E foi após um demorado trabalho de inteligência que o
Centro de Informações do Exército (CIE) conseguiu, à base da
tortura em presos, identificar os principais responsáveis pelo foco
guerrilheiro instalado pelo PC do B no Araguaia. O chefe militar da
guerrilha, segundo documentos militares da época, era o ex-deputado
federal comunista Mauricio Grabois, que teria chegado à região
ainda em 1967, antes, portanto, da decretação do AI-5. Mauricio
Grabois seria, segundo os militares, o superior hierárquico de
três comandos distintos: o Comando A, liderado por André Grabois,
o "Edgar", filho de Mauricio; o Comando B, dirigido pelo
técnico em máquinas e motores Osvaldo da Costa, o
"Osvaldão"; e o Comando C, que era liderado pelo
economista Paulo Mendes Rodrigues. Os militares admitem, no
relatório sobre a Guerrilha do Araguaia ao qual O PARAENSE teve
acesso, que os guerrilheiros contavam apenas com armamento precário
e estariam à espera de armas que seriam fornecidas pela China
comunista. O relatório com o rótulo "secreto" feito pelo
tenente-coronel Arnaldo Bastos de Carvalho Braga se encerra na
página 1058, contando que naquela data, 9 de novembro de 1972, por
decisão do Estado Maior do Exército, sob orientação do ministro
Orlando Geisel, as tropas abandonavam as operações regulares de
combate à guerrilha. Os militares reconheciam que não haviam
eliminado os focos de resistência comunista. O Alto Comando do
Exército decidia, segundo o relatório, deixar tropas das polícias
militares do Pará, Goiás e Mato Grosso, sob o comando da unidade
do Exército sediada em Marabá, executando as operações no
Araguaia. Era o início de uma guerra suja que só se encerraria com
o extermínio de todos os 69 guerrilheiros do PC do B destacados
para a região do Araguaia.
Guerra suja
A guerra suja deixava de ser uma ação ostensiva para
cair na clandestinidade, comandada diretamente pelo Centro de
Informações do Exército, o CIE. Aparece na história, então, um
personagem que se tornaria célebre na região: Sebastião Curió.
Major à época, Sebastião Rodrigues de Moura, com curso de
especialização no Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS),
do Comando Militar da Amazônia, ex-lutador de boxe, foi enviado ao
Araguaia com o codinome de Marco Antonio Luchini, um engenheiro
florestal dos quadros do Instituto Nacional de Colonização e
reforma Agrária (Incra), para montar uma operação de
inteligência e aniquilar os últimos focos da guerrilha. Curió
montou uma rede de informantes em toda a região do Araguaia. Sua
estratégia mais bem sucedida foi a montagem de biroscas para o
fornecimento de alimentos e munição ao longo do rio Araguaia, onde
obtinha valiosas informações dos caboclos. Mais de uma vez os
agentes do CIE recrutados por Curió em quartéis da própria
Amazônia - pessoas com características físicas da região -
venderam munição sabendo que era destinada aos guerrilheiros, para
angariar a confiança dos lavradores. Dessa forma, sem pressa,
Curió conseguiu identificar um a um todos os acampamentos da
guerrilha, que passaram a ser atacados por pelotões especialmente
treinados para aquele tipo de ação. Na operação mais
destruidora, Curió conseguiu executar de uma só vez dois dos
principais líderes da guerrilha: o comandante geral Mauricio
Grabois e Paulo Mendes Rodrigues, chefe do Destacamento C. Os dois
foram surpreendidos na manhã do dia de Natal de 1973 no acampamento
da Gameleira, próximo ao rio Araguaia, junto com Guilherme Lund,
arquiteto, e Gilberto Olímpio, técnico industrial, genro de
Grabois.
Todos foram mortos. Mauricio Grabois, segundo comentou Sebastião
Curió com outros militares que participaram da ação, estava
praticamente cego.
O fim
O último comandante guerrilheiro a ser morto foi Osvaldo
Orlando da Costa, o Osvaldão, um negro com quase dois metros de
altura, o mais temido e procurado de todos os guerrilheiros do
Araguaia. Foi executado a tiros em abril de 1974. Trombou de frente
com uma patrulha do Exército. Levou o primeiro tiro, de uma
espingarda calibre 22, disparado por "Mineiro", um mateiro
- como eram conhecidos os guias recrutados pelo Exército na
região. Baleado na barriga, Osvaldão foi fuzilado pelos demais
integrantes da patrulha militar. O corpo de Osvaldão foi embrulhado
num saco de lona verde e içado por um helicóptero. Segundo o
relato de um dos participantes da ação, a corda se rompeu no ar, a
uma altura de 10 metros e, na queda, o corpo de Osvaldão teve o
tornozelo esquerdo fraturado. Como os outros combatentes mortos,
Osvaldão foi enterrado num cemitério clandestino na própria
região. A operação Guerra Suja do CIE, ao final dos combates no
Araguaia, quando todos os 69 guerrilheiros do PC do B já haviam
sido exterminados, concluiu, em relatório secreto enviado ao
Conselho de Segurança Nacional (CSN), que a região continuava
potencialmente explosiva, sujeita a novos movimentos guerrilheiros
porque faltava assistência governamental à população. O
documento militar denunciava a estrutura fundiária injusta,
dominada por latifundiários e grileiros. Insistia, também, na
implementação urgente de um plano de reforma agrária. O último
documento sobre a Guerrilha do Araguaia, assinado pelo próprio
Sebastião Curió, alertava que, 15 meses após encerrada a
guerrilha, com a morte de todos os militantes do PC do B, apesar de
todas as promessas oficiais, a região continuava abandonada pelo
governo federal. O que, aliás, até hoje é uma verdade.
Foto: Paulo Santos/Interfoto 1983
Genoíno: De volta à região do Araguaia 11 anos depois da luta
armada, o ex-guerrilheiro José Genoíno discursa defendendo a
reforma agrária
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Curió
e Genoíno em campos opostos
O
deputado federal José Genoíno (PT-SP) e o prefeito de
Curionópolis, Sebastião Curió Rodrigues de Moura, sempre
estiveram em campos opostos. No início dos anos 70, com o codinome
de Marco Antonio Luchini, Curió foi o responsável pela prisão de
Genoíno, um militante do Partido Comunista do Brasil que havia sido
designado para integrar os quadros da guerrilha rural que o PC do B
pretendia montar da região do Araguaia, entre os Estados do Pará e
Goiás (hoje Tocantins). "Genoíno se entregou sem reagir e
entregou seus companheiros", delatou Sebastião Curió, 15 anos
depois, quando, ao lado de Genoíno, era um apagado deputado
federal, eleito pelo Pará com o apoio maciço dos garimpeiros de
Serra Pelada. Segundo Curió, ao ser preso, Genoíno carregava uma
pistola escondida num gorro, em sua cabeça, mas em nenhum momento
tentou reagir à prisão.
Curió: o prefeito
assassino
Trânsito
O cearense Genoíno, que fez carreira política em São
Paulo, sempre negou ter delatado seus companheiros de guerrilha. Com
muita habilidade, Genoíno acabou se transformando num dos
parlamentares com maior trânsito no Congresso Nacional, capaz de
elogiar velhos adversários, como o coronel Jarbas Passarinho, e
fustigar ex-aliados, como o ex-governador Leonel Brizola. É
considerado um dos maiores conhecedores do regimento da Câmara.
Hoje, quase 30 anos depois de a Guerrilha do Araguaia ter sido
aniquilada pelas Forças Armadas, Curió comanda a minúscula
prefeitura de Curionópolis, no sul do Pará, e José Genoíno é o
virtual candidato do PT ao governo de São Paulo em 2002. Curió
elegeu-se pelo PMDB, apoiado pelo ex-senador Jader Barbalho, mas tem
contas a acertar com a Justiça. Ele está sendo processado no
Distrito Federal pela morte de um rapaz, menor de idade, numa
suposta troca de tiros. Sebastião Curió acusa o rapaz assassinado
de ter assaltado sua mansão, localizada no Lago Sul, uma das áreas
mais privilegiadas da capital federal.
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