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agricultora Neuza Rodrigues estava se separando do marido quando
conheceu Amaro Lins. A família ficou contra o namoro com aquele
homem que ninguém sabia muito bem o que pretendia fazer no sul do
Pará. Amaro chegou a região acompanhado de um grupo de estranhos
sem intimidade com o cultivo da terra. A diferença de idades
também pesava contra o relacionamento amoroso. Ela tinha tinha 21
anos, ele 48. Mas um segredo guardado por Amaro iria interferir
muito mais na vida futura do casal.
Alguns meses depois, os dois romperam os preconceitos e resolveram
morar na margem paraense do rio Araguaia. Viviam juntos há três
anos quando, no dia 11 de abril de 1972, três policiais chegaram na
casa deles. Os agentes queriam saber se Amaro conhecia as pessoas
com quem ele tinha chegado ao Pará. Ele confirmou e passou dez dias
preso. Quando voltou, Amaro contou que a mulher que era um
guerrilheiro do PC do B. Junto com os amigos, formavam o
destacamento C do movimento armado montado pelo partido para tentar
vencer a ditadura militar. Neuza não se sentiu traída.
"Eu disse que continuaria ao lado dele mesmo assim", diz
Neuza. "Decidi participar também porque eu não via nada de
errado nas coisas que eles faziam". A prisão do marido de
Neuza fazia parte da primeira investida do governo federal contra os
guerrilheiros do Araguaia. Três meses antes, os companheiros de
Amaro tinha desaparecido na mata porque ficaram sabendo de
movimentações policiais. Amaro tinha permanecido para cuidar das
terras que os comunistas possuíam. Preso, disse que não pertencia
mais à guerrilha. Afirmou que saiu quando decidiu casar-se com uma
moradora local. Em parte, o que Amaro disse aos policiais era
verdade. Pelas regras internas dos guerrilheiros, nenhum militante
podia namorar habitantes do lugar. Quando revelou o amor por Neuza,
o PC do B exigiu que ele optasse entre ela e o partido. Amaro
escolheu Neuza e passou a ser vigiado de perto pelos militantes do
PC do B.
"Amaro tornou-se um prisioneiro do partido e só podia viajar
para Araguaina, conta Neuza, referindo-se à cidade que fica do
outro lado do rio, hoje no estado de Tocantins. O partido temia que
Amaro delatasse a preparação do movimento armado. Aos poucos, os
guerrilheiros voltaram a ter confiança nele, mas Neuza continuou
sem saber o que se passava até o dia em que Amaro saiu da prisão.
A partir daquele dia, ele passou a ser vigiado também pelo
Exército. Só podia trabalhar em mutirão e deveria avisar os
militares toda vez que visse os guerrilheiros. Não cumpriu a
determinação e continuou ajudando os antigos amigos sempre que
podia. Fornecia alimentos e informações aos comunistas. Algum
tempo depois, Amaro foi novamente preso. Levado para Marabá, tomou
choque elétrico e viu outros guerrilheiros nas mãos do Exército.
Amaro mais uma vez convenceu os militares de que tinha abandonado a
guerrilha e foi solto. João Carlos Haas Sobrinho, conhecido como
Juca, e outros dois guerrilheiros estiveram na casa de Amaro poucos
dias depois. Juca disse que a luta contra o Exército estava muito
difícil e perguntou se o casal preferia continuar na casa na beira
do Araguaia ou se iria com eles para o meio da mata. Deu um mês
para pensarem. "O Exército estava pertinho de casa e eu não
sei como o Juca e os outros dois nïo foram vistos", disse
Neuza. O casal tinha decidido se incorporar à guerrilha em setembro
de 1972, quando recebeu a notícia de que Juca tinha sido morto,
traído por alguns moradores que tinham avisado o Exército. O
médico gaúcho João Carlos Haas Sobrinho tombou metralhado no dia
30 de setembro de 1972. Com a morte de Juca, o casal perdeu o
contato com o PC do B. A guerrilha foi derrotada dois anos depois e
Amaro chorava muito pela morte dos antigos companheiros. Mudaram da
casa onde moravam em 1984 para um local conhecido como Lote Oito.
Neuza e Amaro tiveram quatro filhos. Helenira, a caçula recebeu
esse nome em homenagem à guerrilheira Helenira Resende, morta em
setembro de 1972 e Maurício foi uma referência a Maurício
Grabois, dirigente do PC do B que tombou no Araguaia.
Outro filho, Valdemir, teve uma filha chamada Áurea por causa de
Áurea Valadão, também morta na luta contra os militares. Em 1986,
foram viver em São Geraldo para ajudar na campanha política.
"Ele nunca traiu o partido", diz Neuza. Com pouco dinheiro
e sem as terras que tiveram de vender para mudar para a cidade,
passaram a depender da máquina de costura de Neuza. Amaro morreu em
junho do ano passado com 86 anos de idade. Em 1996, deu entrevistas
para jornalistas e foi localizado por duas filhas que tinha deixado
no Rio de Janeiro, onde era pedreiro antes de ir para o Araguaia.
"No fim da vida, ele já vivia muito angustiado e nervoso, acho
que porque sofreu muito com tudo o que aconteceu", diz.
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