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  ESPECIAL
 Uma epopéia pela liberdade
 
Guerrilha do Araguaia 30 anos
(1972-2002)

::3::

 REPORTAGEM 

Textos de Eumano Silva e Ronaldo Brasiliense
  publicados no Correio Braziliense 

 

O amor nos tempos de guerra

Eumano Silva

 










Barcarena: o ex-guerrilheiro Amaro, ao lado da filha Elenira e da neta Áurea, trocou a guerrilha pelo amor de Neuza Rodrigues


 A  agricultora Neuza Rodrigues estava se separando do marido quando conheceu Amaro Lins. A família ficou contra o namoro com aquele homem que ninguém sabia muito bem o que pretendia fazer no sul do Pará. Amaro chegou a região acompanhado de um grupo de estranhos sem intimidade com o cultivo da terra. A diferença de idades também pesava contra o relacionamento amoroso. Ela tinha tinha 21 anos, ele 48. Mas um segredo guardado por Amaro iria interferir muito mais na vida futura do casal.

Alguns meses depois, os dois romperam os preconceitos e resolveram morar na margem paraense do rio Araguaia. Viviam juntos há três anos quando, no dia 11 de abril de 1972, três policiais chegaram na casa deles. Os agentes queriam saber se Amaro conhecia as pessoas com quem ele tinha chegado ao Pará. Ele confirmou e passou dez dias preso. Quando voltou, Amaro contou que a mulher que era um guerrilheiro do PC do B. Junto com os amigos, formavam o destacamento C do movimento armado montado pelo partido para tentar vencer a ditadura militar. Neuza não se sentiu traída.

"Eu disse que continuaria ao lado dele mesmo assim", diz Neuza. "Decidi participar também porque eu não via nada de errado nas coisas que eles faziam". A prisão do marido de Neuza fazia parte da primeira investida do governo federal contra os guerrilheiros do Araguaia. Três meses antes, os companheiros de Amaro tinha desaparecido na mata porque ficaram sabendo de movimentações policiais. Amaro tinha permanecido para cuidar das terras que os comunistas possuíam. Preso, disse que não pertencia mais à guerrilha. Afirmou que saiu quando decidiu casar-se com uma moradora local. Em parte, o que Amaro disse aos policiais era verdade. Pelas regras internas dos guerrilheiros, nenhum militante podia namorar habitantes do lugar. Quando revelou o amor por Neuza, o PC do B exigiu que ele optasse entre ela e o partido. Amaro escolheu Neuza e passou a ser vigiado de perto pelos militantes do PC do B.

"Amaro tornou-se um prisioneiro do partido e só podia viajar para Araguaina, conta Neuza, referindo-se à cidade que fica do outro lado do rio, hoje no estado de Tocantins. O partido temia que Amaro delatasse a preparação do movimento armado. Aos poucos, os guerrilheiros voltaram a ter confiança nele, mas Neuza continuou sem saber o que se passava até o dia em que Amaro saiu da prisão. A partir daquele dia, ele passou a ser vigiado também pelo Exército. Só podia trabalhar em mutirão e deveria avisar os militares toda vez que visse os guerrilheiros. Não cumpriu a determinação e continuou ajudando os antigos amigos sempre que podia. Fornecia alimentos e informações aos comunistas. Algum tempo depois, Amaro foi novamente preso. Levado para Marabá, tomou choque elétrico e viu outros guerrilheiros nas mãos do Exército. Amaro mais uma vez convenceu os militares de que tinha abandonado a guerrilha e foi solto. João Carlos Haas Sobrinho, conhecido como Juca, e outros dois guerrilheiros estiveram na casa de Amaro poucos dias depois. Juca disse que a luta contra o Exército estava muito difícil e perguntou se o casal preferia continuar na casa na beira do Araguaia ou se iria com eles para o meio da mata. Deu um mês para pensarem. "O Exército estava pertinho de casa e eu não sei como o Juca e os outros dois nïo foram vistos", disse Neuza. O casal tinha decidido se incorporar à guerrilha em setembro de 1972, quando recebeu a notícia de que Juca tinha sido morto, traído por alguns moradores que tinham avisado o Exército. O médico gaúcho João Carlos Haas Sobrinho tombou metralhado no dia 30 de setembro de 1972. Com a morte de Juca, o casal perdeu o contato com o PC do B. A guerrilha foi derrotada dois anos depois e Amaro chorava muito pela morte dos antigos companheiros. Mudaram da casa onde moravam em 1984 para um local conhecido como Lote Oito. Neuza e Amaro tiveram quatro filhos. Helenira, a caçula recebeu esse nome em homenagem à guerrilheira Helenira Resende, morta em setembro de 1972 e Maurício foi uma referência a Maurício Grabois, dirigente do PC do B que tombou no Araguaia.

Outro filho, Valdemir, teve uma filha chamada Áurea por causa de Áurea Valadão, também morta na luta contra os militares. Em 1986, foram viver em São Geraldo para ajudar na campanha política. "Ele nunca traiu o partido", diz Neuza. Com pouco dinheiro e sem as terras que tiveram de vender para mudar para a cidade, passaram a depender da máquina de costura de Neuza. Amaro morreu em junho do ano passado com 86 anos de idade. Em 1996, deu entrevistas para jornalistas e foi localizado por duas filhas que tinha deixado no Rio de Janeiro, onde era pedreiro antes de ir para o Araguaia. "No fim da vida, ele já vivia muito angustiado e nervoso, acho que porque sofreu muito com tudo o que aconteceu", diz.

 

  CONTINUA...

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