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  ESPECIAL
 Uma epopéia pela liberdade
 
Guerrilha do Araguaia 30 anos
(1972-2002)

::2::

 REPORTAGEM 

Textos de Eumano Silva e Ronaldo Brasiliense
  publicados Correio Braziliense 

 

Guerrilheiros executados

Ronaldo Brasiliense

Toda a ação militar foi realizada secretamente, sem que a imprensa, censurada à época, pudesse noticiar qualquer conflito entre o Exército e os guerrilheiros do PC do B na selva amazônica 

 


 N  a Guerrilha do Araguaia, entre 1972 e 1974, todos os prisioneiros feitos pelas Forças Armadas durante os combates, militantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B), foram executados. O mais contundente documento registrando a prisão de guerrilheiros, com 34 páginas, protocolado com o número 804, foi produzido pelo CIE - Centro de Informações do Exército - em 9 de novembro de 1972, assinado pelo então tenente-coronel Arnaldo Bastos de Carvalho Braga, chefe da Agência do CIE no Distrito Federal, à época. O relatório foi encaminhado ao general Orlando Geisel, ministro do Exército no governo do general-ditador Emilio Garrastazu Médici. O documento militar mostra que o Exército, em uma das ações de combate aos guerrilheiros do PC do B no Araguaia, fez seis prisioneiros, todos integrantes, posteriormente, da lista dos "desaparecidos políticos" durante a ditadura. Mostra também que 12 guerrilheiros foram mortos e relata que, no lado das Forças Armadas, 16 militares foram abatidos, 10 feridos e houve um desaparecido. A relação de presos da Guerra do Araguaia era encabeçada por Dower Cavalcanti, codinome "Domingos", e por Dagoberto Alves da Costa. A lista oficial de guerrilheiros mortos cita Idalício Soares Aranha Filho, o "Aparício", e Maria Lucia Petit da Silva, a "Maria". Toda a ação militar foi realizada secretamente, sem que a imprensa, censurada à época, pudesse noticiar qualquer conflito entre o Exército e os guerrilheiros do PC do B na selva tropical do sul do Pará e norte do Tocantins.O documento secreto do CIE apresenta em suas páginas iniciais um relato conciso sobre como se deu a infiltração guerrilheira do PC do B na área de influência do rio Araguaia, entre o Pará e o Tocantins, região hoje mais conhecida como "Bico do Papagaio", famosa pelos conflitos armados pela posse da terra e pelos assassinatos de trabalhadores rurais.

A descoberta 
O relatório do tenente-coronel Carvalho Braga mostra que as Forças Armadas conseguiram as primeiras informações sobre a presença de uma guerrilha rural no Araguaia após a prisão do estudante Pedro Albuquerque Neto, no aeroporto de Fortaleza, Ceará, em 1971. Segundo o documento, Pedro Albuquerque e sua namorada Ana Cristina estavam sem documentos de identidade e foram detidos para averiguações por agentes da Polícia Federal. Interrogados na sede da Polícia Federal, em Fortaleza, os dois revelaram a existência de um foco guerrilheiro em implantação no Araguaia. Pedro Albuquerque confessou, conforme o documento militar, que escapou do Araguaia com sua namorada para fugir de uma exigência do Regulamento Militar do PC do B: Ana Cristina estava grávida e o comando da guerrilha exigia que ela abortasse. A partir do depoimento de Pedro Albuquerque, o Centro de Informações do Exército passou a coordenar as ações desencadeadas para aniquilar o foco guerrilheiro.

Operação Axixá 
A primeira grande investida das Forças Armadas no combate à guerrilha foi denominada de "Operação Axixá", iniciada em fevereiro de 1972, segundo Relatório Especial de Informações nº 2/12, Protocolo 2.309, encaminhado em 20 de março de 1972 pelo tenente-coronel Arnaldo Bastos de Carvalho Braga ao ministro do Exército, general Orlando Geisel. O documento, que também chegou às mãos do general Hugo de Abreu, ministro-chefe do Gabinete Militar da Presidência da República e foi encaminhado ainda ao próprio presidente Emilio Médici, faz críticas à primeira ação contra os guerrilheiros e apresenta sugestões de como deveriam ser programadas as próximas operações. O documento não registra os motivos que levaram a primeira operação anti-guerrilheira ao fracasso, mas um militar que participou da operação, hoje coronel da reserva remunerada do Exército, revela que os militares chegaram à região do Araguaia usando de violência indiscriminada contra a população local, exatamente ao contrário do que faziam os guerrilheiros do PC do B que, com habilidade, cativavam a simpatia dos caboclos com atendimento médico e odontológico, distribuindo alimentos e promovendo mutirões. Os guerrilheiros Ciro da Cunha Brum e Paulo Roberto Pereira Matos chegaram a montar uma farmácia no vilarejo conhecido como Palestina, onde davam assistência à população nativa, quase sempre gratuita. O PC do B contava ainda com militantes como Tobias Pereira Junior e Lucia Maria de Souza, estudante de medicina vindos do Rio de Janeiro, e a enfermeira Luiza Felipe Garlippe, do Hospital das Clínicas de São Paulo, que prestavam todo tipo de assistência médica aos lavradores da região. Com o aparato de assistência social montado na região, os guerrilheiros do PC do B contavam com o apoio da população, que, na primeira operação das Forças Armadas na região, resistiu a colaborar na localização dos acampamentos da guerrilha. O Exército, então, tentou obter a adesão dos lavradores à força, obrigando à base de tortura e ameaças que os mateiros servissem de guia para as tropas. Muitas vezes, os caboclos do Araguaia - por vingança - enganavam os pelotões do Exército, fazendo-os caminharem em círculos pela floresta tropical úmida por dias seguidos. A campanha militar foi um fracasso: dezenas de soldados e oficiais contraíram malária, leischmaniose e outras doenças tropicais e muitos desertaram. Os guerrilheiros registravam suas primeiras vitórias.

“Manobrão” 
Diante do insucesso da primeira operação militar, o general Milton Tavares, comandante do Centro de Informações do Exército, de linha dura, convenceu o ministro Orlando Geisel a desencadear uma operação de guerra de grande porte, batizada de "Manobrão". Os estrategistas militares decidiram adotar a tática da "bigorna e martelo": ou seja, o grosso do efetivo militar cercava a região, enquanto pelotões invadiam a selva e empurravam os guerrilheiros em direção à tropa. Mas, mais uma vez, o plano não funcionou. Os chefes militares desconheciam por completo as dimensões territoriais da região onde o PC do B montou suas bases guerrilheiras, uma área maior do que a Bélgica. Sem falar que o "Manobrão" obrigou as Forças Armadas a uma mobilização gigantesca de tropas, a maior que se tinha conhecimento no país em tempos de paz.

Num episódio macabro, o general Antonio Bandeira, comandante supremo do "Manobrão", anunciou aos guias contratados pelo Exército no Araguaia que pagaria um prêmio por cabeça de guerrilheiro morto. Um dos guias levou a ordem ao pé da letra e entregou a cabeça de um guerrilheiro dentro de uma saca de sarrapilha. O episódio chocou os próprios militares que participavam da operação. O relatório secreto do tenente-coronel Carvalho Braga registra o envio de dois batalhões de infantaria de selva (BIS), uma companhia aero-transportada, um comando reforçado de paraquedistas, uma companhia de fuzileiros navais e um "comando numerado" da Força Aérea Brasileira (FAB). O centro das operações militares foi instalado na cidade de Xambioá, no norte do Tocantins (à época, Goiás), com a montagem de acampamentos, a construção de pistas de pouso e a chegada de caminhões para os transporte de tropas, armamentos e suprimentos. Xambioá foi tomada por uma tropa de 3.200 homens e toda a aparelhagem militar mais moderna disponível na ocasião, ao longo de oito meses de campanha. A Força Aérea Brasileira enviou para a região um grande aparato bélico, incluindo quatro helicópteros UH, três aviões C-115 (Buffalo), um C-47, quatro aviões D-19, de reconhecimento, e outros quatro aviões T-6, caças de combate. O relatório oficial registra a realização de operações aéreas na região, mas omite o lançamento de bombas sobre supostos alvos guerrilheiros, segundo o depoimento de militares que participaram do "Manobrão". Esses bombardeios causaram mortes entre a população civil da região. Na página 1037 do documento secreto do CIE, o tenente-coronel Arnaldo Braga apresenta um quadro com os resultados obtidos no combate aos focos de guerrilheiros nos municípios de Marabá e Conceição do Araguaia, no Pará, e Xambioá, em Goiás (hoje Tocantins), às margens do Araguaia. O Exército contabilizava 55 guerrilheiros na região já identificados. Destes, 12 já haviam sido mortos, seis estavam presos e outros 37 haviam conseguido escapar o cerco, mas ainda estavam na região. A guerra continuava.

  CONTINUA...

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