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a Guerrilha do Araguaia, entre 1972 e 1974, todos os prisioneiros
feitos pelas Forças Armadas durante os combates, militantes do
Partido Comunista do Brasil (PC do B), foram executados. O mais
contundente documento registrando a prisão de guerrilheiros, com 34
páginas, protocolado com o número 804, foi produzido pelo CIE -
Centro de Informações do Exército - em 9 de novembro de 1972,
assinado pelo então tenente-coronel Arnaldo Bastos de Carvalho
Braga, chefe da Agência do CIE no Distrito Federal, à época. O
relatório foi encaminhado ao general Orlando Geisel, ministro do
Exército no governo do general-ditador Emilio Garrastazu Médici. O
documento militar mostra que o Exército, em uma das ações de
combate aos guerrilheiros do PC do B no Araguaia, fez seis
prisioneiros, todos integrantes, posteriormente, da lista dos
"desaparecidos políticos" durante a ditadura. Mostra
também que 12 guerrilheiros foram mortos e relata que, no lado das
Forças Armadas, 16 militares foram abatidos, 10 feridos e houve um
desaparecido. A relação de presos da Guerra do Araguaia era
encabeçada por Dower Cavalcanti, codinome "Domingos", e
por Dagoberto Alves da Costa. A lista oficial de guerrilheiros
mortos cita Idalício Soares Aranha Filho, o "Aparício",
e Maria Lucia Petit da Silva, a "Maria". Toda a ação
militar foi realizada secretamente, sem que a imprensa, censurada à
época, pudesse noticiar qualquer conflito entre o Exército e os
guerrilheiros do PC do B na selva tropical do sul do Pará e norte
do Tocantins.O documento secreto do CIE apresenta em suas páginas
iniciais um relato conciso sobre como se deu a infiltração
guerrilheira do PC do B na área de influência do rio Araguaia,
entre o Pará e o Tocantins, região hoje mais conhecida como
"Bico do Papagaio", famosa pelos conflitos armados pela
posse da terra e pelos assassinatos de trabalhadores rurais.
A descoberta
O relatório do tenente-coronel Carvalho Braga mostra que as
Forças Armadas conseguiram as primeiras informações sobre a
presença de uma guerrilha rural no Araguaia após a prisão do
estudante Pedro Albuquerque Neto, no aeroporto de Fortaleza, Ceará,
em 1971. Segundo o documento, Pedro Albuquerque e sua namorada Ana
Cristina estavam sem documentos de identidade e foram detidos para
averiguações por agentes da Polícia Federal. Interrogados na sede
da Polícia Federal, em Fortaleza, os dois revelaram a existência
de um foco guerrilheiro em implantação no Araguaia. Pedro
Albuquerque confessou, conforme o documento militar, que escapou do
Araguaia com sua namorada para fugir de uma exigência do
Regulamento Militar do PC do B: Ana Cristina estava grávida e o
comando da guerrilha exigia que ela abortasse. A partir do
depoimento de Pedro Albuquerque, o Centro de Informações do
Exército passou a coordenar as ações desencadeadas para aniquilar
o foco guerrilheiro.
Operação Axixá
A primeira grande investida das Forças Armadas no combate à
guerrilha foi denominada de "Operação Axixá", iniciada
em fevereiro de 1972, segundo Relatório Especial de Informações
nº 2/12, Protocolo 2.309, encaminhado em 20 de março de 1972 pelo
tenente-coronel Arnaldo Bastos de Carvalho Braga ao ministro do
Exército, general Orlando Geisel. O documento, que também chegou
às mãos do general Hugo de Abreu, ministro-chefe do Gabinete
Militar da Presidência da República e foi encaminhado ainda ao
próprio presidente Emilio Médici, faz críticas à primeira ação
contra os guerrilheiros e apresenta sugestões de como deveriam ser
programadas as próximas operações. O documento não registra os
motivos que levaram a primeira operação anti-guerrilheira ao
fracasso, mas um militar que participou da operação, hoje coronel
da reserva remunerada do Exército, revela que os militares chegaram
à região do Araguaia usando de violência indiscriminada contra a
população local, exatamente ao contrário do que faziam os
guerrilheiros do PC do B que, com habilidade, cativavam a simpatia
dos caboclos com atendimento médico e odontológico, distribuindo
alimentos e promovendo mutirões. Os guerrilheiros Ciro da Cunha
Brum e Paulo Roberto Pereira Matos chegaram a montar uma farmácia
no vilarejo conhecido como Palestina, onde davam assistência à
população nativa, quase sempre gratuita. O PC do B contava ainda
com militantes como Tobias Pereira Junior e Lucia Maria de Souza,
estudante de medicina vindos do Rio de Janeiro, e a enfermeira Luiza
Felipe Garlippe, do Hospital das Clínicas de São Paulo, que
prestavam todo tipo de assistência médica aos lavradores da
região. Com o aparato de assistência social montado na região, os
guerrilheiros do PC do B contavam com o apoio da população, que,
na primeira operação das Forças Armadas na região, resistiu a
colaborar na localização dos acampamentos da guerrilha. O
Exército, então, tentou obter a adesão dos lavradores à força,
obrigando à base de tortura e ameaças que os mateiros servissem de
guia para as tropas. Muitas vezes, os caboclos do Araguaia - por
vingança - enganavam os pelotões do Exército, fazendo-os
caminharem em círculos pela floresta tropical úmida por dias
seguidos. A campanha militar foi um fracasso: dezenas de soldados e
oficiais contraíram malária, leischmaniose e outras doenças
tropicais e muitos desertaram. Os guerrilheiros registravam suas
primeiras vitórias.
“Manobrão”
Diante do insucesso da primeira operação militar, o general Milton
Tavares, comandante do Centro de Informações do Exército, de
linha dura, convenceu o ministro Orlando Geisel a desencadear uma
operação de guerra de grande porte, batizada de
"Manobrão". Os estrategistas militares decidiram adotar a
tática da "bigorna e martelo": ou seja, o grosso do
efetivo militar cercava a região, enquanto pelotões invadiam a
selva e empurravam os guerrilheiros em direção à tropa. Mas, mais
uma vez, o plano não funcionou. Os chefes militares desconheciam
por completo as dimensões territoriais da região onde o PC do B
montou suas bases guerrilheiras, uma área maior do que a Bélgica.
Sem falar que o "Manobrão" obrigou as Forças Armadas a
uma mobilização gigantesca de tropas, a maior que se tinha
conhecimento no país em tempos de paz.
Num episódio macabro, o general Antonio Bandeira, comandante
supremo do "Manobrão", anunciou aos guias contratados
pelo Exército no Araguaia que pagaria um prêmio por cabeça de
guerrilheiro morto. Um dos guias levou a ordem ao pé da letra e
entregou a cabeça de um guerrilheiro dentro de uma saca de
sarrapilha. O episódio chocou os próprios militares que
participavam da operação. O relatório secreto do tenente-coronel
Carvalho Braga registra o envio de dois batalhões de infantaria de
selva (BIS), uma companhia aero-transportada, um comando reforçado
de paraquedistas, uma companhia de fuzileiros navais e um
"comando numerado" da Força Aérea Brasileira (FAB). O
centro das operações militares foi instalado na cidade de
Xambioá, no norte do Tocantins (à época, Goiás), com a montagem
de acampamentos, a construção de pistas de pouso e a chegada de
caminhões para os transporte de tropas, armamentos e suprimentos.
Xambioá foi tomada por uma tropa de 3.200 homens e toda a
aparelhagem militar mais moderna disponível na ocasião, ao longo
de oito meses de campanha. A Força Aérea Brasileira enviou para a
região um grande aparato bélico, incluindo quatro helicópteros
UH, três aviões C-115 (Buffalo), um C-47, quatro aviões D-19, de
reconhecimento, e outros quatro aviões T-6, caças de combate. O
relatório oficial registra a realização de operações aéreas na
região, mas omite o lançamento de bombas sobre supostos alvos
guerrilheiros, segundo o depoimento de militares que participaram do
"Manobrão". Esses bombardeios causaram mortes entre a
população civil da região. Na página 1037 do documento secreto
do CIE, o tenente-coronel Arnaldo Braga apresenta um quadro com os
resultados obtidos no combate aos focos de guerrilheiros nos
municípios de Marabá e Conceição do Araguaia, no Pará, e
Xambioá, em Goiás (hoje Tocantins), às margens do Araguaia. O
Exército contabilizava 55 guerrilheiros na região já
identificados. Destes, 12 já haviam sido mortos, seis estavam
presos e outros 37 haviam conseguido escapar o cerco, mas ainda
estavam na região. A guerra continuava.
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