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O
medo contabiliza três décadas entre os moradores do Sul do Pará e
do Norte do Tocantins. No palco da Guerrilha do Araguaia, a
população ainda carrega o trauma do tempo em que o Exército,
ajudado pela Marinha e pela Aeronáutica, combateu militantes do PC
do B. Foram necessários quase três anos de luta sangrenta, entre
abril de 1972 e janeiro de 1975, para cerca de dez mil soldados
derrotarem 69 comunistas. Os governos dos presidentes Emílio
Garrastazzu Medici e Ernesto Geisel mantinham o povo alheio ao que
acontecia nas duas margens do rio Araguaia. A crueldade dos métodos
usados pelos militares para obter informações sobre os
guerrilheiros, porém, não sai da memória dos habitantes da
região. Durante duas semanas, a equipe do Correio percorreu cerca
de quatro mil quilômetros em busca de pessoas que aceitassem romper
o silêncio para contar o que se passou na época da guerrilha. O
resultado foi a coleta de dezenas de depoimentos estarrecedores. As
pessoas eram proibidas de sair de suas casas nas cidades e as
mulheres não podiam andar sozinhas porque temiam ser atacadas por
soldados.
Atrocidades -
Velhos camponeses contaram com exclusividade como o Exército
torturou e matou guerrilheiros e camponeses sem qualquer respeito à
Convenção de Genebra, o regulamento internacional das guerras.
Muitas vítimas não tinham qualquer relação com militantes do PC
do B. As atrocidades narradas pelos sobreviventes parecem não ter
limites. Em troca de recompensas financeiras oferecidas pelo governo
federal, os militares apresentavam cabeças cortadas de
guerrilheiros mortos. Cemitérios clandestinos foram criados e ainda
hoje os familiares das vítimas não sabem onde elas foram
enterradas. Cícero Pereira Gomes, 68 anos, foi levado ontem pelo
Correio à Comissão de Direitos Humanos da Câmara para contar o
que viu durante os dois anos e três meses em que serviu de guia
para o Exército. Tem medo de morrer por causa das revelações que
fez. Ao contrário dos guerrilheiros - em grande parte provenientes
da classe média das grandes cidades -os camponeses nunca tiveram
quem reclamasse por seus mortos e torturados. Agora, o Brasil
começa a tomar conhecimento do que se passou com aquele povo que
vive às margens do Araguaia. É a visão dos que foram obrigados a
trabalhar para os vencedores. Cícero Pereira Gomes, hoje com 68
anos, tinha uma posse de terras na região de São Geraldo, no sul
do Pará, quando recebeu a visita do Exército em outubro de 1973.
''Os soldados disseram para eu avisar toda vez que visse um
guerrilheiro'', contou Cícero em depoimento exclusivo ao Correio na
semana passada. ''Sou pai de família e tive de fazer o que eles
mandaram''. Na segunda vez que levou notícias aos militares, foi
convocado para trabalhar como mateiro, nome usado para designar a
função de guia na selva amazônica. O Exército estava à procura
de militantes do PC do B embrenhados na selva e empenhados em fazer
uma guerrilha para derrubar o governo dos generais com o apoio da
população rural. Durante dois anos e três meses, Cícero ficou à
disposição do Exército. ''Vi tanta sujeira que nunca mais vou me
esquecer'', afirmou o lavrador, agora aposentado. ''Morro e não
acaba essa paixão''.
Tortura
No relato feito em várias conversas, Cícero afirmou que perdeu a
conta das vezes que viu moradores da região serem torturados para
dar informações sobre os guerrilheiros. Fornecer qualquer tipo de
ajuda aos comunistas era considerado um crime sem perdão.
''Apanhavam com tala de coco, que faz o couro murchar para dentro,
até ficar inchados e, se morriam, eram jogados no mato'', afirmou o
camponês. Uma das práticas mais comuns, segundo a testemunha, era
afundar a cabeça dos lavradores em tambores de duzentos litros
cheios de água. Outra, era pendurar pelos órgãos sexuais os
suspeitos de ajudar os comunistas. Os testículos de um deles teriam
ficado com meio metro de comprimento. ''Isso aconteceu com o Zé
Novato, e eu não sei como ele resistiu.'' Cícero diz que perdeu a
conta das vezes que viu moradores da região serem torturados para
dar informações sobre os guerrilheiros.
Fotos: Gilberto Alves/CB PRESS

João
Santos e Maria Francisca: A Memória dos anos de chumbo da guerrilha que dominou
a região
Fornecer
qualquer tipo de ajuda aos comunistas era considerado um crime sem perdão.
José Novato ainda é vivo, mora em São Geraldo, mas recentemente sofreu um
derrame e não pôde dar entrevista ao Correio. Cícero disse estar muito
doente, com uma dor no peito que não sabe do que se trata. ''Não quero morrer
com esse peso na consciência, sem contar tudo o que vi.'' No trecho mais
assustador de seu depoimento, contou como assistiu à morte e decapitação do
guerrilheiro Adriano Fonseca Fernandes Filho, conhecido como Chicão ou
Queixada. ''Ele foi morto por Raimundinho com um tiro de espingarda no peito, a
mando do tenente que comandava a operação'', afirmou Cícero. ''Quando recebeu
a bala, o Chicão botou a mão na cara e deu um gemido doído que até hoje
parece que eu escuto.'' O atirador era um morador da região, segundo Cícero, e
o tenente dizia se chamar Dr. Silva. ''Depois, o mesmo Raimundinho cortou a
cabeça do Chicão'', afirmou. ''Ajudei a carregar a cabeça dele num saco pelo
meio da mata'', destacou o ex-guia do Exército no Araguaia. ''Pesava tanto que
até parecia um corpo inteiro''. Seguindo as indicações de Cícero, o Correio
tentou encontrar Raimundinho, um camponês, mas o homem acusado de matar Adriano
não foi localizado. Cícero conta que assistiu a tudo com uma espingarda na
mão e um pé apoiado num toco. Isso teria acontecido no final de novembro de
1973.
Cabeça a prêmio
O guerrilheiro Adriano Fonseca era mineiro de Ponte Nova.
Cursou Filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro e participou do
movimento estudantil no final dos anos 60. Em 1971, mudou-se para a região da
Gameleira, às margens do rio Araguaia. ''Ouvi dizer que a cabeça dele valia 5
mil cruzeiros em Brasília.'' Nas conversas com o Correio, o ex-mateiro diz
nunca ter tirado a vida de ninguém. ''O Exército me mandou matar muita gente,
mas cansei de brigar com eles porque eu não estava lá para isso'', afirmou
Cícero. Numa ocasião, tentou evitar que o guerrilheiro Daniel Callado
continuasse apanhando. Estirado no chão, Daniel recebia murros e pontapés dos
soldados. ''Eu falei para o Curió que, se o homem merecia morrer, que morresse,
mas que não deveria sofrer daquele jeito'', disse Cícero, referindo-se a
Sebastião Rodrigues de Moura, conhecido como Major Curió, um dos comandantes
da repressão militar ao movimento armado do Araguaia. Ex-deputado federal, hoje
o Major Curió é prefeito de Curionópolis, cidade localizada no Sul do Pará,
próxima ao garimpo de Serra Pelada e batizada em homenagem a ele. Daniel
Callado nasceu em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, e foi preso pelo Exército
no final de 1973.
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