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  ESPECIAL
 Uma epopéia pela liberdade
 
Guerrilha do Araguaia 30 anos
(1972-2002)

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 REPORTAGEM 

Textos de Eumano Silva e Ronaldo Brasiliense
  publicados Correio Braziliense 

 

Cortando cabeças no Araguaia

Eumano Silva

Ex-guia de soldados na selva amazônica revela a crueldade dos métodos utilizados pelos militares para subjugar guerrilheiros. 

 


  medo contabiliza três décadas entre os moradores do Sul do Pará e do Norte do Tocantins. No palco da Guerrilha do Araguaia, a população ainda carrega o trauma do tempo em que o Exército, ajudado pela Marinha e pela Aeronáutica, combateu militantes do PC do B. Foram necessários quase três anos de luta sangrenta, entre abril de 1972 e janeiro de 1975, para cerca de dez mil soldados derrotarem 69 comunistas. Os governos dos presidentes Emílio Garrastazzu Medici e Ernesto Geisel mantinham o povo alheio ao que acontecia nas duas margens do rio Araguaia. A crueldade dos métodos usados pelos militares para obter informações sobre os guerrilheiros, porém, não sai da memória dos habitantes da região. Durante duas semanas, a equipe do Correio percorreu cerca de quatro mil quilômetros em busca de pessoas que aceitassem romper o silêncio para contar o que se passou na época da guerrilha. O resultado foi a coleta de dezenas de depoimentos estarrecedores. As pessoas eram proibidas de sair de suas casas nas cidades e as mulheres não podiam andar sozinhas porque temiam ser atacadas por soldados.

Atrocidades -
Velhos camponeses contaram com exclusividade como o Exército torturou e matou guerrilheiros e camponeses sem qualquer respeito à Convenção de Genebra, o regulamento internacional das guerras. Muitas vítimas não tinham qualquer relação com militantes do PC do B. As atrocidades narradas pelos sobreviventes parecem não ter limites. Em troca de recompensas financeiras oferecidas pelo governo federal, os militares apresentavam cabeças cortadas de guerrilheiros mortos. Cemitérios clandestinos foram criados e ainda hoje os familiares das vítimas não sabem onde elas foram enterradas. Cícero Pereira Gomes, 68 anos, foi levado ontem pelo Correio à Comissão de Direitos Humanos da Câmara para contar o que viu durante os dois anos e três meses em que serviu de guia para o Exército. Tem medo de morrer por causa das revelações que fez. Ao contrário dos guerrilheiros - em grande parte provenientes da classe média das grandes cidades -os camponeses nunca tiveram quem reclamasse por seus mortos e torturados. Agora, o Brasil começa a tomar conhecimento do que se passou com aquele povo que vive às margens do Araguaia. É a visão dos que foram obrigados a trabalhar para os vencedores. Cícero Pereira Gomes, hoje com 68 anos, tinha uma posse de terras na região de São Geraldo, no sul do Pará, quando recebeu a visita do Exército em outubro de 1973. ''Os soldados disseram para eu avisar toda vez que visse um guerrilheiro'', contou Cícero em depoimento exclusivo ao Correio na semana passada. ''Sou pai de família e tive de fazer o que eles mandaram''. Na segunda vez que levou notícias aos militares, foi convocado para trabalhar como mateiro, nome usado para designar a função de guia na selva amazônica. O Exército estava à procura de militantes do PC do B embrenhados na selva e empenhados em fazer uma guerrilha para derrubar o governo dos generais com o apoio da população rural. Durante dois anos e três meses, Cícero ficou à disposição do Exército. ''Vi tanta sujeira que nunca mais vou me esquecer'', afirmou o lavrador, agora aposentado. ''Morro e não acaba essa paixão''.

Tortura
No relato feito em várias conversas, Cícero afirmou que perdeu a conta das vezes que viu moradores da região serem torturados para dar informações sobre os guerrilheiros. Fornecer qualquer tipo de ajuda aos comunistas era considerado um crime sem perdão. ''Apanhavam com tala de coco, que faz o couro murchar para dentro, até ficar inchados e, se morriam, eram jogados no mato'', afirmou o camponês. Uma das práticas mais comuns, segundo a testemunha, era afundar a cabeça dos lavradores em tambores de duzentos litros cheios de água. Outra, era pendurar pelos órgãos sexuais os suspeitos de ajudar os comunistas. Os testículos de um deles teriam ficado com meio metro de comprimento. ''Isso aconteceu com o Zé Novato, e eu não sei como ele resistiu.'' Cícero diz que perdeu a conta das vezes que viu moradores da região serem torturados para dar informações sobre os guerrilheiros.

Fotos: Gilberto Alves/CB PRESS






João Santos e Maria Francisca: A Memória dos anos de chumbo da guerrilha que dominou a região

Fornecer qualquer tipo de ajuda aos comunistas era considerado um crime sem perdão. José Novato ainda é vivo, mora em São Geraldo, mas recentemente sofreu um derrame e não pôde dar entrevista ao Correio. Cícero disse estar muito doente, com uma dor no peito que não sabe do que se trata. ''Não quero morrer com esse peso na consciência, sem contar tudo o que vi.'' No trecho mais assustador de seu depoimento, contou como assistiu à morte e decapitação do guerrilheiro Adriano Fonseca Fernandes Filho, conhecido como Chicão ou Queixada. ''Ele foi morto por Raimundinho com um tiro de espingarda no peito, a mando do tenente que comandava a operação'', afirmou Cícero. ''Quando recebeu a bala, o Chicão botou a mão na cara e deu um gemido doído que até hoje parece que eu escuto.'' O atirador era um morador da região, segundo Cícero, e o tenente dizia se chamar Dr. Silva. ''Depois, o mesmo Raimundinho cortou a cabeça do Chicão'', afirmou. ''Ajudei a carregar a cabeça dele num saco pelo meio da mata'', destacou o ex-guia do Exército no Araguaia. ''Pesava tanto que até parecia um corpo inteiro''. Seguindo as indicações de Cícero, o Correio tentou encontrar Raimundinho, um camponês, mas o homem acusado de matar Adriano não foi localizado. Cícero conta que assistiu a tudo com uma espingarda na mão e um pé apoiado num toco. Isso teria acontecido no final de novembro de 1973.

Cabeça a prêmio
O guerrilheiro Adriano Fonseca era mineiro de Ponte Nova. Cursou Filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro e participou do movimento estudantil no final dos anos 60. Em 1971, mudou-se para a região da Gameleira, às margens do rio Araguaia. ''Ouvi dizer que a cabeça dele valia 5 mil cruzeiros em Brasília.'' Nas conversas com o Correio, o ex-mateiro diz nunca ter tirado a vida de ninguém. ''O Exército me mandou matar muita gente, mas cansei de brigar com eles porque eu não estava lá para isso'', afirmou Cícero. Numa ocasião, tentou evitar que o guerrilheiro Daniel Callado continuasse apanhando. Estirado no chão, Daniel recebia murros e pontapés dos soldados. ''Eu falei para o Curió que, se o homem merecia morrer, que morresse, mas que não deveria sofrer daquele jeito'', disse Cícero, referindo-se a Sebastião Rodrigues de Moura, conhecido como Major Curió, um dos comandantes da repressão militar ao movimento armado do Araguaia. Ex-deputado federal, hoje o Major Curió é prefeito de Curionópolis, cidade localizada no Sul do Pará, próxima ao garimpo de Serra Pelada e batizada em homenagem a ele. Daniel Callado nasceu em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, e foi preso pelo Exército no final de 1973. 

 

  CONTINUA...

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