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  ESPECIAL
 Uma epopéia pela liberdade
 
Guerrilha do Araguaia 30 anos
(1972-2002)

::1::

 MEMÓRIA 

Textos de Paulo Fonteles publicados no jornal 
  A Tribuna Operária

 

Araguaia: a guerrilha redescoberta

Paulo Fonteles

Ex-guia de soldados na selva amazônica revela a crueldade dos métodos utilizados pelos militares para subjugar guerrilheiros. 

 


A PRIMEIRA DESCOBERTA

Fui dos primeiros a tomar conhecimento dela, ainda em maio/junho de 1972. Eu, naquele tempo, estava preso no PIC (Pelotão de Investigações Criminais) da Polícia do Exército, em Brasília Numa tarde, percebi a presença de um novo preso, na cela vizinha. Com voz sussurrada, perguntei lhe o nome, motivo da prisão, estado de saúde. Era E, Eduardo fora preso por ligação a um movimento guerrilheiro no Pará, na Transamazônica, e estava sendo muito torturado.

Naqueles tempos terríveis de destruição sistemática de toda resistência ao fascismo de Garrastazu, a polícia de um movimento guerrilheiro forte, logo no meu Pará causou me uma emoção extraordinária. De noite, comecei a "irradiar" a notícia para o resto do presídio, utilizando os métodos que só os presos conhecem. Nos dias seguintes, o PIC se encheu de gente do Araguaia: Luiza, Yoko, uma dezena de camponeses, e finalmente Genoino Neto, que eu já conhecia de uma reunião da UNE em 1969.

Em junho do ano passado, na Bahia, reencontrei Genoino. Reencontro emocionante, de antigos companheiros de luta estudantil e de cadeia. Abraçamo nos e tiramos a tarde para conversar.

Lembro me perfeitamente: estávamos próximos do elevador Lacerda, debaixo de uma marquise. Chovia a cântaros. Cuidadosamente, como pisa em terreno minado, disse lhe conclusivo: pisa com todo o respeito que merecem os camaradas que tombaram no Araguaia, aquilo foi um foco. Muito bem montado, refinado, mas um verdadeiro foco, sem tirar nem por!"

E passei lhe meus dados: "Genoino, eu estou há, mais de ano no Araguaia, pesquisando a Guerrilha, mas quase nada se sabe a respeito. Pelo que consegui levantar, a massa não teve nenhuma participação, nem sabe das motivações da luta. E pior, foram os próprios camponeses que entregaram a maioria dos guerrilheiros, como na Bolívia, com Guevara. O Povo foi um mero espectador da luta entre as Forças Armadas e os militantes do Partido Comunista do Brasil!"

APOIO E PARTICIPAÇÃO

Hoje, um ano e meio depois, minha compreensão inverteu se completamente. Tenho absoluta certeza de que a Guerrilha do Araguaia teve apoio da massa camponesa da região. E mais: há indicadores seríssimos de que a Guerrilha teve apoio e participação das amplas massas.

Essa descoberta iniciou se na medida em que ia aprofundando meus contatos com a luta dos posseiros, ia conseguindo lhes a confiança, ia penetrando no mundo secreto e perigoso da guerrilha. E tornou se mais densa com a recente "caravana" dos familiares dos mortos e desaparecidos do Araguaia, que percorreu a região.

QUASE TUDO POR SABER

Recordando esses dois anos e meio de pesquisas, na área, acode me á lembrança um morador da cidade da Vigia, a cem quilômetros de Belém, que ainda tinha medo de falar sobre a Cabanagem, uma revolta que ocorreu em 1831, no tempo do Império. Entrevistado 150 anos depois, esse morador ainda temia falar.

Para penetrar fundo na história da Guerrilha do Araguaia é preciso primeiro conquistar a total confiança da massa camponesa da região. E isso só vem com a integração na sua luta, hoje.

No mais, quantos jornalistas aparecerem, a resposta vai ser a mesma: ninguém viu nada, ninguém sabe de nada, ninguém participou de nada. Todavia, tudo, ou quase tudo, ainda está por ser revelado!

O Partido Comunista do Brasil, depois que rompeu com a linha pacifista de Prestes, em 1962,. procurou levar à prática a sua concepção de que a revolução brasileira passa inevitavelmente pela luta armada.

Depois de algum tempo de pesquisa, escolheu o vale do baixo Araguaia e curso médio do Tocantins para preparar . a luta armada revolucionária. A escolha deveu se a alguns fatores: o militar uma região coberta de mata fechada, onde as Forças Armadas teriam muita dificuldade para usar meios militares avançados, canhões, tanques e aviação; o da segurança'uma região "desqueimada", com fraca presença da repressão; o político a região tenderia a se tornar bastante povoada por camponeses pobres, pois levas e levas de lavradores expulsos de outros lugares já rumavam para o Araguaia.

COMO NO VIETNÃ

A concepção que norteava o partido era de que a deflagração da guerra revolucionária seria um trabalho a longo prazo. Era necessário antes de tudo uma profunda integração com as massas, que só poderia ser conseguida com um trabalho paciente. Como dissera Ho Chi Minh o grande revolucionário vietnamita, seria preciso "comer, trabalhar e viver com o povo". Primeiro, era necessário conquistar a confiança das massas locais. Uma confiança que entre os camponeses só pode ser conquistada através de ações concretas, de exemplos diários, e não de discursos ideológicos.

Provavelmente, o primeiro militante revolucionário que chegou à região foi o comandante Osvaldo Orlando Costa, o legendário Osvaldão, Era uma figura extraordinária, com menos de 1.98 metro de altura e 120 quilos de massa muscular. Calçava sapatos especiais, pois nas lojas não se encontrava o número de seus pés. E apesar do tamanho era muito ágil, graças ao tempo em que jogava basquete pelo Botafogo do Rio de Janeiro. Além disso, segundo todos que o conheceram, era uma simpatia. Seus dentes brancos, perfeitos, estavam sempre a aparecer no riso amigo. Conhecido por todos como "Negão", tinha qualidades morais e revolucionárias dignas do melhor militante.

Outro dos primeiros a chegar foi João Carlos Haas Sobrinho; o Juca, igualmente uma figura notável. Médico muito capaz, possuía também um grande espírito de liderança. Primeiro instalou se em Porto Nacional Goiás, onde construiu, mobilizando escassos recursos, um hospital para atender a população local. Depois, seria o médico das populações pobres e desamparadas do Araguaia.

Entre 1966 e 1968, vão chegando outros dirigentes do PCdoB: Maurício Grabois, Angelo Arroio, Gilberto Maria, Paulo Rodrigues, Elza Monnerat, João Amazonas. Depois, quadros intermediários como Bergson Gurjão, Helenira Resende, Daniel Callado. E finalmente militantes como Cristina Moroni, Luis Guilherme Lund, Antonio Teixeira e muitos outros, que iriam se agigantar na resistência guerrilheira.

DA FAVEIRA AOS CAIANOS

Três regiões foram definidas para a implementação do trabalho revolucionário: a Faveira, no médio Tocantins, municípios de São João do Araguaia e Marabá; a Gameleira, 60 ou. 70 quilômetros acima de São Geraldo do Pará; e Caianos, 60 ou 70 quilômetros abaixo de São Geraldo, no município de Conceição do Araguaia, assim como a Cameleira.

Apesar de haver a mesma orientação para as três áreas. o que se pode perceber hoje é que cada uma teve prática mais ou menos diferenciada, tanto no plano político como no militar. Para se entender a Guerrilha do Araguaia, ë preciso conhecer não só sua base teórica e ideológica, mas também o trabalho desenvolvido em cada uma dessas regiões.

VIVER E LUTAR COM O POVO

Caianos é um córrego que corre aproximadamente 60 quilômetros abaixo de São Geraldo, cidadezinha paraense em frente a Xámbioá. Em 1968, Paulo Rodrigues Daniel Callado e Amaro Lins instalaram uma posse ali, onde Paulo já era bem conhecido, como regatão. Depois chegavam Dina, Antonio da Dina, Bergson, Áurea, Ari, Vito, João Carlos Sobrinho e outros.

OPERAÇÃO COM GILETE

A integração na vida do povo foi perfeita. Eles trabalhavam, viviam, comiam como o povo pobre daqueles rincões. Ainda hoje, quando se fala dos "paulistas", como eram chamados, todas as referências, absolutamente todas, são altamente elogiosas.

Juca, João Carlos Sobrinho e Dina são sempre lembrados, talvez pelos seus conhecimentos de medicina. Certa vez, Juca mandou ás favas a segurança e com uma gilete fez uma operação para salvar o pé de um lavrador, dizem uns, para salvar a vida de uma mulher que estava com um feto morto no ventre, dizem outros. Dina era parteira "Aparadora" que nem ela não havia, conta uma moradora. Tinha muitos afilhados. " Paulo gostava de uma branquinha (cachaça), mas era muito sereno. Daniel não. Gostava de festa, mas era revoltoso, qualquer coisa queria brigar. Já o Jorge gostava era de música". Contam.

INTEGRAÇÃO NA LUTA

A integração nas lutas locais também se, realizou nos Caianos, embora a palavra "política" fosse de certa forma proibida.

Fora eles que iniciaram em 1970, a primeira resistência efetiva à grilagem nos Caianos, hoje um centro das lutas camponesas no Araguaia. Antoninho da IMPAR (Indústria Madeireira do Pará), tentou começar um grilo logo em cima das terras de Paulo. Um posseiro conta: "O Antoninho mandou dizer ao Paulo que ia mandar fazer uma picada pegando a posse dele. E que se Paulo não quisesse sair ia ter muita bala pra ele. O Paulo mandou responder que as mesmas balas que o Antoninho tinha pra ele, ele, Paulo, também tinha pro Antoninho. O grileiro não tomou coragem e atalhou a picada dele pra outro lado. Isso animou muito o pessoal."

TRABALHO SEM DISCURSOS

A preparação de futuras lideranças camponesas também se fazia. Pacientemente, através do estreito contato pessoal, os futuros guerrilheiros iam descobrindo os camponeses mais firmes e decididos, mais esclarecidos. Sabe se que, a boca fechada, algumas questões de natureza política eram tratadas entre os militantes do PCdoB e algumas lideranças de massa, preparando os embates que viriam.

Paralelamente a esse trabalho, no mais rigoroso segredo, ia se fazendo a preparação militar, individual e coletiva, teórica e prática. Toda a região ia sendo mapeada, os igarapés ,reconhecidos, as grutas anotadas, a selva tornando se amiga.

De tudo pode se concluir que, se o trabalho político anterior à guerra não se fazia através de discursos, nem havia deitado profundas raízes, ele se realizava, com vistas ao futuro, integrado às lutas e experiências das massas locais. Isto é fato.

CONVITE À LIBERTAÇÃO

Difundiu se em certos setores democráticos a idéia de que na preparação da Guerrilha do Araguaia não houve trabalho político junto com o povo e por isso quando foi deflagrada a luta, em 1972, as massas apoiaram "apenas sentimentalmente" os guerrilheiros.

Esta análise parece ser falsa. Na Faveira, principalmente, o trabalho que antecedeu a guerrilha tem uma caracterização política bem definida.

RECLAMAÇÃO PELA TERRA

Lauro Rodrigues dos Santos é morador da Faveira, entre os municípios de Marabá e São João, na desembocadura do Araguaia no Tocantins, Perdeu a mão, devido a uma granada que o Exército deixou na mata. Ele conta: " Quem primeiro chegou na Faveira foi o Seu Mário (Maurício Grabois), juntamente com Dona Maria (Elza Monnerat) e Joca, em 1969. Depois vieram os outros. Eles foram trabalhar na roça, no comércio, na farmácia. Minha mãe ensinou muitos deles a fazer as comidas aqui da região, beiju, tapioca, mandioca. Eu tive uma malária de 20 dias e quem me curou foi a Alice. Se não fosse ela eu tinha morrido!"

Ao lado disso, quando os problemas da terra começaram eles atuaram ao lado da massa. Dona Maria, moradora da Metade, relembra "Nesse tempo um povo tinha tomado as terras nesses pobres aí. Foi o Memescão, que deixou tudo quanto ,foi pobre fora de casa. Ai eles, o povo da mata, reclamaram muito sobre isso!"

CONQUISTAVAM PESSOAL

Com o respeito e a admiração do povo do lugar, os comunistas iniciaram uma explicitação política do trabalho que realizavam, embora dentro das regras de segurança que a situação d.e extrema repressão exigia.
Dona Lindaura Vilarense, moradora de São Domingos das Latas, deu seu depoimento: "Eles davam remédio e conquistavam o pessoal para a acompanhar eles. Conquistavam assim, dizendo que o pessoal tinha uma cegueira de falar. Que o presidente, o governador não davam assistência ao pessoal da mata. Então o pessoal adoecia, morria à mingua e nem sabiam que eles existiam, que tinha necessidade... Diziam isso pro povo antes da guerra começar. É por isso que eles já tinham bastante gente com eles por aqui mesmo. 0 Seu Luizinho, que é cunhado desse Constantino bem ai, foi um dos que morreu na mata, matado pelo Exército".

O mesmo Lauro acrescenta: Dona Maria gostava de visitar gente de domingo, falava de hospital, escola, do governo que não dava assistência. Falava tudo isso. Eram assuntos que eles tratavam".

E Dona Maria, da Metade, arrematava: "Eles convidavam o povo para a libertação" embora esclareça que não conseguia entender, bem o que seria essa libertação.

NA GAMELEIRA TAMBÉM

A região da Gameleira fica no pé da Serra das Andorinhas, entre as áreas dos Caianos e da Faveira. Foi onde viveram o Osvaldão, Helenira Resende, Lourival, Lia e outros guerrilheiros. 0 depoimento que melhor ilustra o trabalho na Gameleira foi dado por José Genoino Neto, que, embora não tenha participado da guerrilha propriamente dita, já que foi preso logo na sua deflagração, disse em um longo depoimento para a publicação História Imediata, em 1978: "No terreno político vamos elaborar, junto com a população, um programa de reivindicações para a região. (...) era um programa de 27 pontos, que se propagava naturalmente. (...) Começam nessa época (inicio de 1972) os grandes conflitos pela posse da terra (...) Vamos fazer um trabalho mais avançado com a população. A gente vai conversar com todo mundo, a população começa a procurar a gente. E se acerta coletivamente , com todos os moradores da região, que ninguém deve sair de lá".

POVO ROMPE SILÊNCIO E FALA DA SUA GUERRA

Em 1979, quando João Amazonas declarou à imprensa que 90l da população haviam apoiado a Guerrilha do Araguaia, sua colocação pareceu me apenas uma bravata. No Sul do Pará, onde eu estava há mais de um ano, o silêncio sobre a Guerrilha era sepulcral. 0 povo inteiro dizia que os militantes do PC do Brasil eram boas pessoas, que todo mundo gostava deles. Mas.. participação popular na Guerrilha? ... apoio à luta armada?.. integração nessa luta? Nem sombra. Ninguém falava nada. Um manto de silêncio cobria tudo.

Onde estaria a verdade? Os dirigentes do PC do B afirmavam que o povo apoiara a Guerrilha e tomara parte nela. 0 povo dizia que não.

O PAPEL DA CARAVANA

O silêncio da massa só teve seus primeiros véus realmente desvendados com a Caravana dos familiares dos guerrilheiros, que visitou a região em novembro passado. 0 objetivo da Caravana era buscar informações sobre aqueles que perderam suas vidas e desapareceram nas barrancas do Araguaia. Quase ninguém da região acreditava no sucesso da viagem. o povo, porém, falou. Pouco ainda, é verdade. Em certos lugarejos, o Exército foi de casa em casa, ameaçando quem falasse. Mas os que falaram apontam numa só direção; o povo da região .apoiou e participou da Guerrilha.

Um jovem camponês por exemplo, recitou, de memória, um "romanço" da guerrilha para os familiares dos mortos e desaparecidos. Foi ao cair de uma tarde de novembro, bem no centro da área do conflito.

"Senhores, peço licença
Me ouça com atenção
Vou falar sobre o Brasil
Da atual situação
De um camponês cá do Norte
Que sendo valente e forte
Ainda passa fome
Me corte a língua a facão
Me jogue no meio do inferno
No meio do caldeirão
Pra ser frito em óleo quente
Misturado com sal quente
E ser comido pelo Cão.

"Agora vou começar
Não deixo para depois
Quem tem massacrado o povo
Não vai nem comer arroz
Quem semeou tempestade
Não vai colher bondade
Vai pagar em três por dois"

REPRESSÃO É UMA PROVA

Todos estão de acordo sobre a terrível repressão que se abateu sobre a área da Guerrilha. Arroyo afirmava que mais ide mil moradores da região foram presos é torturados pelas Forças Armadas. A Caravana constatou este fato. Centenas de lavradores pobres, castanheiros, pequenos comerciantes, barqueiros, artesões, foram presos. Houve povoados, como São Domingos das Latas e Palestina, em que quase toda a população foi presa. Em um só dia foram presas 150 pessoas. E presas por meses. E torturadas até a náusea.

Por que? Nesse tempo, a repressão já prendia e torturava de maneira seletiva. Ninguém que não tivesse maiores implicações com a Guerrilha era preso por muito tempo. Pelo contrário, o Exército tudo fazia para cativar a população local, com a Aciso por exemplo. Sabe se inclusive que as prisões do final de 1973 foram feitas através de denúncias de espiões, o que demonstra sua seletividade.

Só se pode chegar a uma conclusão: centenas de prisões queriam dizer que centenas de moradores haviam se ligado à Guerrilha, em alto nível. Muitos deles, dezenas talvez, nunca voltaram.

Hoje, creio, já podemos afirmar que uma grande parte da população apoiou a Guerrilha com informações, alimentação e calçados. E outra parte, menor, porém expressiva, participou, da União pela Liberdade e os Direitos do Povo, integrando se na própria luta guerrilheira. Por isso a Guerrilha sobreviveu tanto tempo. Ainda é cedo para precisar a dimensão dessa participação popular. Só quando os moradores não tiverem mais medo de falar, nem de se identificar com aquela jornada de lutas, então se saberá.

MUITO CAMPONÊS PEGOU EM ARMAS

Quando a Caravana dos familiares dos mortos e desaparecidos na Guerrilha do Araguaia chegou á região dos Caianos, no povoado de Boa Vista do Pará, fundado pelo dirigente guerrilheiro Paulo Rodrigues, centenas de camponeses fizeram uma verdadeira festa de confraternização. Muitos andaram horas para abraçar os caravaneiros.

Nessa região a Guerrilha teve menor densidade política e militar. Muito cedo, o Destacamento C, dos Caianos, deslocou se para a região da Gameleira e Faveira.

Mesmo assim, setores expressivos da massa apoiaram os guerrilheiros. Com certo exagero, uma importante liderança camponesa da região afirma: "Aqui, onde eles apareceram tiveram de comer. Cem por cento dos moradores apoiavam eles. Agora, o povo não participou da guerra. Foi mais no sentido da alimentação". Não foram poucos os lavradores que mostraram ã caravana onde escondiam, na mata, a comida para os guerrilheiros.

NA FAVEIRA E GAMELEIRA

Já na Gameleira e principalmente na Faveira a participação do povo na Guerrilha parece ter sido muito alta. Nessas regiões, desde que começou o confronto, a Guerrilha organizou a União pela Liberdade e Direitos do POVO - ULDP - entidade política de massas, em cima de um programa democrático e popular, de 27 pontos, pacientemente elaborado.

Angelo Arroyo, um dos lideres da luta, diz em seu Diário da Guerrilha que com as principais vitórias mais de 20 núcleos da ULDP se organizaram. Fernando Portela, em suas célebres reportagens, menciona a adesão das massas camponesas a essa entidade. Ao que tudo indica, centenas de moradores de fato se agruparam na ULDP, apoiando e participando da guerra, tanto com apoio logístico como diretamente mesmo.

MUITA GENTE COM ELES

O mesmo Fernando Portela diz que no final de 1972 as Forças Guerrilheiras do Araguaia já possuíam cerca de cem membros. Isto é, pelo mentis 30 moradores já teriam se integrado a elas, 0 Diário de Arrogo levanta que no final de 1973 cerca de 40 lavradores estavam prontos a se integrar na Guerrilha.

Os dados obtidos com a caravana apontam na mesma direção. Dona Maria, da Metade, foi conclusiva: "Tinha muita gente com eles. Só se você visse... Tanto que quando o Exército veio pela primeira vez, e era só gente nova, soldadinho, eles mataram muito. Quase que acabavam com os soldados. Gostavam de matar aqueles que tinham grau".

Dona Lindaura Vilarense depôs "Quando o Exército soube, o pessoal já acompanhavam eles". E vários depoimentos mencionam lavradores que participaram e morreram na Guerrilha Luizinho, Alfredo, Pretinho, o Filho de Dona Joana, Zezinho, Amadeu e outros.

POR QUE O PCdoB RESOLVEU RESISTIR

A Guerrilha do Araguaia resistiu de abril de 1972 até meados de 1974. Segundo o cel. Cid Zenóbio, ex comandante da 53a Brigada de Infantaria de Selva, localizada no quilômetro 8 da Transamazônica, as operações militares do governo só se encerraram oficialmente em 1975.

As Forças Guerrilheiras eram integradas por três destacamentos, de 60 a 70 militantes do Partido Comunista do Brasil e não menos que 10 a 15 e mais que 30 a 40 camponeses da região. Possuíam amplo apoio de massas mas armamento precário revólveres, rifles 44, umas poucas metralhadoras tomadas do inimigo.

Do outro lado, o regime mobilizou em toda a guerra cerca de 20 mil homens de Exército, Marinha, Aeronáutica, Polícia Federal. e Polícia Militar. O equipamento era o mais moderna, desde fuzis FAL até helicópteros e aviões. Segundo o general Viana Moog um dos carrascos da Guerrilha, foi o maior movimento de tropas rio Exército, semelhante ao da FEB. Estas tropas moveram três campanhas de cerco e aniquilamento contra os guerrilheiros: as duas primeiras, em abril/junho e setembro / outubro de 1972, sofreram ampla derrota. A terceira conseguiu cercar e desorganizar a Guerrilha, matando ou capturando a maioria dos seus integrantes.

O EXÉRCITO DEFLAGROU

Foi o Exército que deflagrou a luta. Segundo o testemunho do Gringo, falecido líder camponês da região, agentes da Policia Federal estiveram no povoado de Itaipavas no inicio de 1972, buscando informações. No dia 12 de abril, agentes da repressão atacaram, na Faveira, na Game leira e nos Caianos. Avisados pelas massas, os guerrilheiros internaram se nas matas.

Portanto, não foi o PCdoB que deflagrou a Guerrilha do Araguaia. Atacados, os comunistas decidiram resistir, uma decisão revolucionária, consonante com o trabalho que vinha desde 1966 na região. Consideram que não podiam se entregar à repressão, à tortura e à morte nos porões do regime militar. Nem podiam fugir, abandonar um imenso trabalho de mais de seis anos e o povo da região, a quem haviam se ligado profundamente

DECISÃO REVOLUCIONÁRIA

Os militantes do PCdo B atacados no Sul do Pará reconheciam que as condições da resistência não eram as melhores. As massas locais recém haviam iniciado um aprendizado mais político e a luta pela terra. Militarmente, iniciavam a luta armada na defensiva, atacados de supresa, o que é sempre ruim. Se a iniciativa tivesse sido da Guerrilha, ela poderia por exemplo conseguir armas modernas e em quantidade, assaltando um quartel.

Mas os guerrilheiros consideraram que já havia condições mínimas para a resistência vitoriosa. Estavam integrados na vida e na luta do povo do lugar. Tinham invejável liderança entre as massas. Tinham um programa de luta amplo e democrático, os 27 Pontos. Estavam dispostos à luta revolucionária, adestrados para a guerrilha e dominavam perfeitamente o terreno. Isto além de estarem apoiados, nacionalmente, pelo Partido Comunista do Brasil.

Consideravam, finalmente, que apesar de todas as dificuldades, e como em tudo na vida, o pequeno pode ficar grande, o fraco tornar se forte, o localizado pode se espraiar, principalmente na política, se a luta é justa, se representa os anseios do povo e é corretamente dirigida. Por isso, decidiram resistir como revolucionários.

O EXÉRCITO CHEGOU ATÉ A CORTAR CABEÇAS

A ação das Forças Armadas no Sul do Pará se orientou por toda a experiência internacional do imperialismo contra os povos, contando com especialistas militares norte americanos e portugueses, treinados nas guerras do Vietnã e da Africa: Sua tática se desdobrou nos campos político e militar e também evoluiu de acordo com a luta.

VIOLÊNCIA PARA ISOLAR

Politicamente, o principal esforço da repressão foi isolar a Guerrilha, no plano local e nacional. 0 expediente mais importante foi uma violência talvez sem paralelo na história do Brasil. Eu, que conheci a tortura de perto; não comparo nada do que vi às violências que as Forças Armadas cometeram no Araguaia. Camponeses, às vezes 60 ou 70, colocados em buracos, nus, durante dias sem comer nem beber. Padres, freiras, pequenos comerciantes, donas de casa e até grandes fazendeiros presos e torturados.

E ainda mais, o corte de mãos e cabeças, o desfile de cadáveres mutilados pelas ruas e estradas pra intimidar a população.

Para isolar a Guerrilha nacionalmente, a repressão tentou destruir o PC do Brasil. Não o conseguiu, mas chegou a desarticular alguns centros importantes de apoio à luta no Araguaia. E impôs uma censura férrea também para evitar os "efeitos multiplicadores" da Guerrilha, segundo o coronel Jarbas Passarinho.

O Exército também usou duas táticas tentando ganhar as massas locais. Uma foi fazer concessões demagógicas ao nível das lutas econômicas do povo. Na região "dos Cabral" por exemplo, em plena guerra, dezenas de soldados prenderam um grileiro enquanto distribuíam produtos da cantina para os agricultores; A outra tática foram as "Ações Cívico Sociais"; com distribuição de roupas, remédios e utensílios, além de uma maciça propaganda antiguerrilheira.

Militarmente, nas duas primeiras campanhas as Forças Armadas sofreram pesadas baixas.

Na terceira campanha, porém, a repressão passou a usar pequenos contigentes de cinco a sete soldados que entravam pela mata, com grande poder de fogo, bem treinados, apoiados por rádios, helicópteros (o "Sapão") e até aviões que, segundo um guia, tinham um detector de metais capaz de localizar o deslocamento de homens armados.

POR QUE NÃO VENCERAM

O fato é que as prisões em massa na rede de apoio à Guerrilha; a repressão no plano nacional: o controle de todas as vias de acesso ã região; e ainda a concentração das Forças Guerrilheiras numa pequena área permitiram ao Exército desarticular a resistência ao fim desta terceira campanha.

Resta ao povo inventar essa gloriosa jornada de lutas, e retirar todos os seus ensinamentos históricos para tornar mais claro o caminho da libertação do nosso povo.

GUERRILHA TEVE AÇÃO POLÍTICA

O esforço tático das Forças Guerrilheiras do Araguaia envolveu tanto a esfera política quanto a militar. E embora alguns afirmem o contrário, o trabalho principal a que elas se dedicaram foi o trabalho político com as amplas massas da região.

O paciente trabalho de formação dos três destacamentos militares guerrilheiros, que vinha se desdobrando desde os idos de 1968, foi a garantia da continuidade desse trabalho político. Assim, quando as forças da reação investiram contra a. área, foram derrotadas militarmente nas duas primeiras campanhas que encetaram, garantindo a possibilidade de um amplo trabalho político.

COMO ERA O TRABALHO

Deflagrada a luta armadas os destacamentos militares passaram a realizar verdadeiras campanhas de esclarecimento da população local dos objetivos de guerrilha. Conquistavam o apoio e a participação das massas discutindo abertamente com o povo quem eram, o que pretendiam, o que significava ditadura militar.

A discussão política tinha por base o "Programa dos 27 Pontos". Ele continha o conjunto das reivindicações econômicas e políticas mais sentidas pela massa. Amplo e democrático, foi pacientemente elaborado após muitos anos de integração na região.

O "Programa dos 27 Pontos" exigia desde: 1. Terra para para trabalhar e titulo de propriedade da posse; 2. Combate à grilagem, com castigo severo a todos os que grilarem terras ; 3. Preços mínimos compensatórios para os produtos da região". Levantava questões políticas como "Liberdade para reunir se, discutir seus problemas, criticar as autoridades, exigir seus direitos, organizar suas associações e eleger, sem pressão de nenhum tipo, seus representantes". Terminava dizendo: "É hora da decisão, de acabar para sempre com o abandono em que vive o interior e de por fim aos incontáveis sofrimentos de milhões de brasileiros abandonados, humilhados e explorados. A revolução abrirá o caminho para uma nova vida. Até hoje o povo foi tratado como escravo. Chegou o momento de levantar se para varrer os inimigos da liberdade, da Independência c do progresso do Brasil".

A CRIAÇÃO DA ULDP

Com base neste Programa, a guerrilha organizou a União pela Liberdade e Direitos do Povo, .a ULDP. Era uma organização de massas, clandestina ou semi clandestina, formada por camponeses pobres, médios, artesões, pequenos comerciantes , donas de casa, composta por núcleos de 3 a 5 elementos.

Segundo Criméia Alice, ex guerrilheira sobrevivente, as ULDPs eram organizadas de forma a salva guardara segurança e a vida dos seus interesses; os membros de uma ULDP não conheciam os membros de outra. Segundo ela, nem os membros do próprio Partido conheciam toda a extensão das ULDPs. Mas elas formavam uma forte rede de discussão política e de apoio à guerrilha. Tanto que apenas feito um contato, com o pedido de uma informação, por exemplo, logo esta chegava, através da rede formada.

O certo é que os guerrilheiros se desdobravam no trabalho de discutir política com a população. Segundo um interessante depoimento de um camponês, na sua forma de ver o mundo, o povo da mata era igual aos crentes. Eles levavam uns papéis escritos de casa em casa, lendo e explicando pro povo o que diziam aqueles papéis". E isso pode ser feito amplamente em função do controle militar da área pelos guerrilheiros.


EQUIVOCO FATAL

No emprego do dispositivo guerrilheiro, entretanto, é que os cambatentes do Araguaia mais sofreram. No inicio havia três destacamentos, cada qual composto de três grupos de sete guerrilheiros. Nas duas primeiras campanhas, os destacamentos agiram cada qual, fundamentalmente, dentro de suas próprias áreas. Houve apenas um deslocamento, do destacamento dos Caianos. Ainda no decorrer dessas duas primeiras campanhas,os grupos foram reduzidos de sete para cinco guerrilheiros.

Mas na terceira campanha, sob o argumento de que era necessário ter toda a força à mão, para aumentar seu poder de fogo, os destacamentos se concentraram numa pequena área, entre a Faveira e a Gameleira: Ai foram cercados, com a maioria dos seus integrantes sendo presos e em seguida assassinados.


A LUTA CONTINUA

A Guerrilha do Araguaia foi sem dúvida a mais avançada forma de resistência do povo brasileiro à ditadura militar em seu momento mais negro. Durante três anos, de 1972 até meados de 1974, toda uma região do interior foi conflagrada por uma guerra revolucionária, em que combateram as Forças guerrilheiras do Araguaia, dirigidas pelo Partido Comunista do Brasil, e todo o aparelho militar e policial do regime, que mobilizou aproximadamente 20 mil homens.

Sua importância, portanto, projeta se na história. Marca o encontro de classe operária, através de seu partido e sua ideologia, com as massas camponesas de nossos Sertões. E mais, continua a fazer a história da luta revolucionária do povo brasileiro até nossos dias.

VITÓRIA DOS CAMPONESES

Hoje, em todo o Sul do Pará, desenvolve se um dos movimentos de massas mais ricos do Brasil. Milhares de camponeses erguem seus punhos, e não raro as armas, para lutar pelo seu direito à terra, levantando se contra o latifúndio, os, grandes grupos econômicos.

Particularmente neste último ano, os camponeses da área obtiveram importantes vitórias. No Baixo Araguaia, onde se implantou o Destacamento C da Guerrilha, dos Caianos, mais de 250 mil hectares de terra já foram apropriadas pelo povo, numa verdadeira guerrilha das massas. Só nos últimos 12 meses mais de 30 pessoas, na grande maioria pistoleiros, morreram neste conflito. A Guerrilha do Araguaia foi, incontestavelmente, a sementeira desta extraordinária luta camponesa.

As ligações entre os dois movimentos não são mecânicos. Às vezes, lideranças camponesas atuais nem percebem esta relação. Mas foi no contato estreito, amiudado, continuado das massas com os militantes do PC do Brasil, vivendo e participando numa verdadeira guerra, que os lavradores foram buscar sua lição mais importante: para conquistar o seu direito precisam lutar, mesmo que a luta seja uma guerra.

TERRA DA LIBERDADE

Quando os familiares dos mortos e desaparecidos na Guerrilha, em sua histórica viagem ao Araguaia, entraram no povoado de Boa Vista, antigo Caianos, fundado pelo comandante guerrilheiro Paulo Rodrigues, os camponeses gritavam a plenos pulmões: "Esta é a terra da liberdade, nós estamos colhendo a semente que eles plantaram;" Não poderia haver prova mais viva da Importância da Guerrilha.

A Guerrilha ainda está para ser devidamente estudada. 0 conhecimento que temos dela é ainda muito precário, suas lições são pouco conhecidas. Não há dúvidas, nela houve grandes debilidades, deficiências, erros políticos e militares. Mas também não há dúvidas de que criticas que muitas vezes lhe fazem tem o sabor de uma visão direitista da revolução brasileira, que nega o papel das massas camponesas.

A Guerrilha do Araguaia ë hoje mais do que uma capitulo da história. Ê uma palavra de ordem, uma bandeira que tremula altaneira, uma estrela que brilha na noite escura, uma esperança para milhões, uma chama que infunde terror aos generais. Seus mártires, como disse José Duarte, não morreram nem foram enterrados. Foram plantados nas terras úmidas e generosas do Araguaia, no coração do povo, como exemplos de revolucionários.

ESTRELA QUE BRILHA

Mas esta importância não se limita ao movimento camponês do Sul do Pará. A Guerrilha do Araguaia é o repositório mais importante da luta armada do povo brasileiro pela sua libertação. Confirmou que esta luta é viável para combater o regime tirânico em nosso pais. Pouco mais de meia centena de revolucionários, com apoio e participação das massas foram capazes de enfrentar durante quase três anos o Exército, a Marinha, a Aeronáutica, o diabo.

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ENTREVISTA DE FREI GIL
Por PAULO FONTELES

Frei Gil Vila Nova, hoje, é o decano dos irmãos dominicanos que vive nos sertões do Araguaia. Nasceu em Imperatriz,no ano de 1906, quando esta importante cidade da Belém - Brasília era apenas um corrutela. Com 1 ano de idade foi para Marabá, cidade paraense localizada logo abaixo do desembocadura do Rio Araguaia no Tocantins, onde viveu até os 12 anos. Sentindo a vocação para o sacerdócio, em 1918 foi estudar em Uberaba. De lá partiu para a França, onde concluiu os exigentes estudos da Ordem dos Pregadores.

Com a alma de missionário, no inicio da década de 50, aos 46 anos de idade, de São Paulo, onde exercia a profissão de professor, Frei Gil voltou para o Sul do Pará, onde, com exceção de alguns poucos anos, permanece até hoje. Possui uma personalidade poderosa, que floresce dos muitos anos de contato que teve com os índios Suruí Sereno e calmo, nunca eleva a voz, mesmo dizendo as palavras menos cinzeladas.
Frei Gil, em 1972, foi obrigado a sair do Sul do Pará pelo Exército, por ter se oposto à utilização dos índios Suruí, no combate à guerrilha. teve estreito contato com os guerrilheiros, antes e depois de deflagrada a luta armada. Seu depoimento, por toda a sua autoridade moral, é uma das peças fundamentais para que se possa entender o que ocorreu, de fato, no Sul do Pará naqueles anos de tormenta. Durante quase dois anos, tentei entrevistá lo para, o registro de suas impressões, embora já conhecesse sua idéia geral. Finalmente , em agosto de 81, pudemos encontar nos com mais cálma. E seu depoimento, finalmente saiu:

Pergunta: Frei Gil, quando o Sr. veio para o Araguaia?
Resposta: Vim para cá em 1952. Entrei por Santa Cruz e fiz contato com os índios Suruí Morei com eles 18 anos. Só sai de lá, quando o Exército desconfiou de mim, em 1972, quando a FUNAI ocupou a aldeia.

Pergunta: O Sr. conheceu o pessoal da guerrilha?
Resposta: Conheci todos esses rapazes e moças da guerrilha Chegaram uns dois anos antes do Exército. Eram bons rapazes. Se diziam paulistas. Tinham alguns em Conceição, outros em São Geraldo. 0 Oswaldo estava em São Geraldo. Outros em Marabá e outros tinham comprado um sitio em Apinagés. Eram boas pessoas. Fiquei um pouco admirado. Fui uma ou duas vezes no sítio deles em Apinagés. Tomei café. Quando começou a guerra encontrei uma delas em Marabá. Essa escapou. Disse para ela: Vá, vá embora logo!

Pergunta: Como foi a chegada do Exército?
Resposta: O Exército ocupou Marabá. Depois ocuparam São Domingos das Latas. Chegavam de helicópteros. O povo no Toriznho, na fazenda do Carlos Holanda, especavam foguetes para avisar o povo da mata. Ai veio um capitão e proibiu. Eu perguntei: Por que? Por que não pode soltar foguetes? Depois me convidaram para ir até um coronel. Eu me recusei. Ai foi o coronel que veio. Foi. muito amável. Me convidou para almoçar. Perguntou me sobre os rapazes. Eu lhe disse: Esses rapazes, que se revoltaram contra o governo, com ou sem razão, não estão por aqui. Devem estar na Serra das Andorinhas. Esses rapazes vieram para cã, mas ninguém sabia das intenções deles.

Pergunta: Como foi a guerra?
Resposta: Quando o Exército entrou na mata foi mal sucedido. Fiquei com pena dos rapazes do Exército. Foram mortos muitos. Caminhões saíram cheios de soldados mortos. Depois eles utilizaram os índios para caçar os guerrilheiros, deixaram de usar fardas, cresceram as barbas. Começaram a empregar os sertanejos. Aí prenderam umas 250 pessoas lá da mata, da Metade, de São Domingos, desconfiando que estas pessoas estavam ajudando os guerrilheiros

Pergunta: Esta a uma das questões mais controvertidas da guerrilha. O povo ajudou e participou da guerrilha, ou não?
Resposta: Todas essas pessoas era simpáticas aos guerrilheiros. Todas: Os guerrilheiros eram muito bons.

Pergunta: Esta simpatia era materializada?
Resposta: O povo da apoio moral, fornecia viveres. aos guerrilheiros. Eles vinham à noite. Tinha uma .moça, ela vinha buscar viveres toda noite numa casa. O Exército descobriu. Foi pra lá um oficial e 2 soldados. Intimaram os de casa para não livre era necessário pelo menos essas 5 preliminares. Isso eles discutiam com o povo. Me entregaram esse caderno manuscrito. Depois eles me deram outro, deixaram na casa de um lavrador para mim. Diziam que o governo não dava essas preliminares da liberdade. E eles praticavam isso lá.

Pergunta: O que foi feito com esses cadernos? O Sr. ainda os tem?
Resposta: Não. No tempo do caso do "Perdidos", em 1976, eles foram queimados.

Pergunta: E o Sr., como escapou daquele torvelinho?
Resposta: Depois que o Exército prendeu os posseiros, eu protestei. Fui a Belém, falei com o Brigadeiro Jardim de Matos. Disse que o Exército estava lá com uma imagem muito negativa. O Exército tortura pais de família. Eles me deram um documento tenho até hoje, na pasta. Um belo dia, recebi um rapaz mandado pelo Bispo dizendo que eu voltasse para Marabá, porque corria uma noticia na cidade que eu ia ser preso. Então Vim de jumento três horas. Nó caminho encontrei uma pratulha. Mandaram eu descer. Estavam procurando o Frei Gil, da ordem dos Dominicanos, mas meu nome civil é Dulce. Perguntaram meu nome. Respondi: Dulce Gomes, mostrando minha carteira de identidade. Qual a sua seita ? Disse Ordem dos Pregadores. Então, siga. Fui para Marabá. De lá atravessei para São Felix. De lá fui para Belém. De Belém peguei o avião para São Paulo. Depois fui para Uberaba, onde soube que havia terminado a guerrilha. Resolvi visitar D. Pedro Casaldáliga. De, lá, desci o Araguaia e passei por Barreira do Campo, última cidade do Pará, quase na fronteira com Mato Grosso e fiquei até hoje lá, trabalhando com os irmãos Maristas.
Todo ano visito a aldeia dos meus índios, mesmo contra a vontade do Curió. Um sertanejo me perguntou se eu conhecia o Curió. Eu disse que o Curió era um passarinho muito safado, que andava cantando muito, enganando outros passarinhos.

Pergunta: Bem, Frei Gil, e no tempo da guerrilha, o Exército nunca pediu o seu apoio?
Resposta: O Exército procurava nos conquistar. Fazia muitas perguntas. Nós respondíamos com evasivas. Eles diziam: Padre, ajude nos. Eu respondia: Bom, eu vou rezar por vocês...



Paulo Fonteles, líder da luta pela reforma agrária no Pará e dirigente regional do PCdoB, foi covardemente assassinado em 11/6/87 por pistoleiros contratados por latifundiários.
 
 


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