|
A PRIMEIRA DESCOBERTA
Fui
dos primeiros a tomar conhecimento dela, ainda em maio/junho de
1972. Eu, naquele tempo, estava preso no PIC (Pelotão de
Investigações Criminais) da Polícia do Exército, em Brasília
Numa tarde, percebi a presença de um novo preso, na cela vizinha.
Com voz sussurrada, perguntei lhe o nome, motivo da prisão, estado
de saúde. Era E, Eduardo fora preso por ligação a um movimento
guerrilheiro no Pará, na Transamazônica, e estava sendo muito
torturado.
Naqueles
tempos terríveis de destruição sistemática de toda resistência
ao fascismo de Garrastazu, a polícia de um movimento guerrilheiro
forte, logo no meu Pará causou me uma emoção extraordinária. De
noite, comecei a "irradiar" a notícia para o resto do
presídio, utilizando os métodos que só os presos conhecem. Nos
dias seguintes, o PIC se encheu de gente do Araguaia: Luiza, Yoko,
uma dezena de camponeses, e finalmente Genoino Neto, que eu já
conhecia de uma reunião da UNE em 1969.
Em
junho do ano passado, na Bahia, reencontrei Genoino. Reencontro
emocionante, de antigos companheiros de luta estudantil e de cadeia.
Abraçamo nos e tiramos a tarde para conversar.
Lembro
me perfeitamente: estávamos próximos do elevador Lacerda, debaixo
de uma marquise. Chovia a cântaros. Cuidadosamente, como pisa em
terreno minado, disse lhe conclusivo: pisa com todo o respeito que
merecem os camaradas que tombaram no Araguaia, aquilo foi um foco.
Muito bem montado, refinado, mas um verdadeiro foco, sem tirar nem
por!"
E
passei lhe meus dados: "Genoino, eu estou há, mais de ano no
Araguaia, pesquisando a Guerrilha, mas quase nada se sabe a
respeito. Pelo que consegui levantar, a massa não teve nenhuma
participação, nem sabe das motivações da luta. E pior, foram os
próprios camponeses que entregaram a maioria dos guerrilheiros,
como na Bolívia, com Guevara. O Povo foi um mero espectador da luta
entre as Forças Armadas e os militantes do Partido Comunista do
Brasil!"
APOIO
E PARTICIPAÇÃO
Hoje,
um ano e meio depois, minha compreensão inverteu se completamente.
Tenho absoluta certeza de que a Guerrilha do Araguaia teve apoio da
massa camponesa da região. E mais: há indicadores seríssimos de
que a Guerrilha teve apoio e participação das amplas massas.
Essa
descoberta iniciou se na medida em que ia aprofundando meus contatos
com a luta dos posseiros, ia conseguindo lhes a confiança, ia
penetrando no mundo secreto e perigoso da guerrilha. E tornou se
mais densa com a recente "caravana" dos familiares dos
mortos e desaparecidos do Araguaia, que percorreu a região.
QUASE
TUDO POR SABER
Recordando
esses dois anos e meio de pesquisas, na área, acode me á
lembrança um morador da cidade da Vigia, a cem quilômetros de
Belém, que ainda tinha medo de falar sobre a Cabanagem, uma revolta
que ocorreu em 1831, no tempo do Império. Entrevistado 150 anos
depois, esse morador ainda temia falar.
Para
penetrar fundo na história da Guerrilha do Araguaia é preciso
primeiro conquistar a total confiança da massa camponesa da
região. E isso só vem com a integração na sua luta, hoje.
No
mais, quantos jornalistas aparecerem, a resposta vai ser a mesma:
ninguém viu nada, ninguém sabe de nada, ninguém participou de
nada. Todavia, tudo, ou quase tudo, ainda está por ser revelado!
O
Partido Comunista do Brasil, depois que rompeu com a linha pacifista
de Prestes, em 1962,. procurou levar à prática a sua concepção
de que a revolução brasileira passa inevitavelmente pela luta
armada.
Depois
de algum tempo de pesquisa, escolheu o vale do baixo Araguaia e
curso médio do Tocantins para preparar . a luta armada
revolucionária. A escolha deveu se a alguns fatores: o militar uma
região coberta de mata fechada, onde as Forças Armadas teriam
muita dificuldade para usar meios militares avançados, canhões,
tanques e aviação; o da segurança'uma região
"desqueimada", com fraca presença da repressão; o
político a região tenderia a se tornar bastante povoada por
camponeses pobres, pois levas e levas de lavradores expulsos de
outros lugares já rumavam para o Araguaia.
COMO
NO VIETNÃ
A
concepção que norteava o partido era de que a deflagração da
guerra revolucionária seria um trabalho a longo prazo. Era
necessário antes de tudo uma profunda integração com as massas,
que só poderia ser conseguida com um trabalho paciente. Como
dissera Ho Chi Minh o grande revolucionário vietnamita, seria
preciso "comer, trabalhar e viver com o povo". Primeiro,
era necessário conquistar a confiança das massas locais. Uma
confiança que entre os camponeses só pode ser conquistada através
de ações concretas, de exemplos diários, e não de discursos
ideológicos.
Provavelmente,
o primeiro militante revolucionário que chegou à região foi o
comandante Osvaldo Orlando Costa, o legendário Osvaldão, Era uma
figura extraordinária, com menos de 1.98 metro de altura e 120
quilos de massa muscular. Calçava sapatos especiais, pois nas lojas
não se encontrava o número de seus pés. E apesar do tamanho era
muito ágil, graças ao tempo em que jogava basquete pelo Botafogo
do Rio de Janeiro. Além disso, segundo todos que o conheceram, era
uma simpatia. Seus dentes brancos, perfeitos, estavam sempre a
aparecer no riso amigo. Conhecido por todos como "Negão",
tinha qualidades morais e revolucionárias dignas do melhor
militante.
Outro
dos primeiros a chegar foi João Carlos Haas Sobrinho; o Juca,
igualmente uma figura notável. Médico muito capaz, possuía
também um grande espírito de liderança. Primeiro instalou se em
Porto Nacional Goiás, onde construiu, mobilizando escassos
recursos, um hospital para atender a população local. Depois,
seria o médico das populações pobres e desamparadas do Araguaia.
Entre
1966 e 1968, vão chegando outros dirigentes do PCdoB: Maurício
Grabois, Angelo Arroio, Gilberto Maria, Paulo Rodrigues, Elza
Monnerat, João Amazonas. Depois, quadros intermediários como
Bergson Gurjão, Helenira Resende, Daniel Callado. E finalmente
militantes como Cristina Moroni, Luis Guilherme Lund, Antonio
Teixeira e muitos outros, que iriam se agigantar na resistência
guerrilheira.
DA
FAVEIRA AOS CAIANOS
Três
regiões foram definidas para a implementação do trabalho
revolucionário: a Faveira, no médio Tocantins, municípios de São
João do Araguaia e Marabá; a Gameleira, 60 ou. 70 quilômetros
acima de São Geraldo do Pará; e Caianos, 60 ou 70 quilômetros
abaixo de São Geraldo, no município de Conceição do Araguaia,
assim como a Cameleira.
Apesar
de haver a mesma orientação para as três áreas. o que se pode
perceber hoje é que cada uma teve prática mais ou menos
diferenciada, tanto no plano político como no militar. Para se
entender a Guerrilha do Araguaia, ë preciso conhecer não só sua
base teórica e ideológica, mas também o trabalho desenvolvido em
cada uma dessas regiões.
VIVER E LUTAR COM O POVO
Caianos
é um córrego que corre aproximadamente 60 quilômetros abaixo de
São Geraldo, cidadezinha paraense em frente a Xámbioá. Em 1968,
Paulo Rodrigues Daniel Callado e Amaro Lins instalaram uma posse
ali, onde Paulo já era bem conhecido, como regatão. Depois
chegavam Dina, Antonio da Dina, Bergson, Áurea, Ari, Vito, João
Carlos Sobrinho e outros.
OPERAÇÃO
COM GILETE
A
integração na vida do povo foi perfeita. Eles trabalhavam, viviam,
comiam como o povo pobre daqueles rincões. Ainda hoje, quando se
fala dos "paulistas", como eram chamados, todas as
referências, absolutamente todas, são altamente elogiosas.
Juca,
João Carlos Sobrinho e Dina são sempre lembrados, talvez pelos
seus conhecimentos de medicina. Certa vez, Juca mandou ás favas a
segurança e com uma gilete fez uma operação para salvar o pé de
um lavrador, dizem uns, para salvar a vida de uma mulher que estava
com um feto morto no ventre, dizem outros. Dina era parteira
"Aparadora" que nem ela não havia, conta uma moradora.
Tinha muitos afilhados. " Paulo gostava de uma branquinha
(cachaça), mas era muito sereno. Daniel não. Gostava de festa, mas
era revoltoso, qualquer coisa queria brigar. Já o Jorge gostava era
de música". Contam.
INTEGRAÇÃO
NA LUTA
A
integração nas lutas locais também se, realizou nos Caianos,
embora a palavra "política" fosse de certa forma
proibida.
Fora
eles que iniciaram em 1970, a primeira resistência efetiva à
grilagem nos Caianos, hoje um centro das lutas camponesas no
Araguaia. Antoninho da IMPAR (Indústria Madeireira do Pará),
tentou começar um grilo logo em cima das terras de Paulo. Um
posseiro conta: "O Antoninho mandou dizer ao Paulo que ia
mandar fazer uma picada pegando a posse dele. E que se Paulo não
quisesse sair ia ter muita bala pra ele. O Paulo mandou responder
que as mesmas balas que o Antoninho tinha pra ele, ele, Paulo,
também tinha pro Antoninho. O grileiro não tomou coragem e atalhou
a picada dele pra outro lado. Isso animou muito o pessoal."
TRABALHO
SEM DISCURSOS
A
preparação de futuras lideranças camponesas também se fazia.
Pacientemente, através do estreito contato pessoal, os futuros
guerrilheiros iam descobrindo os camponeses mais firmes e decididos,
mais esclarecidos. Sabe se que, a boca fechada, algumas questões de
natureza política eram tratadas entre os militantes do PCdoB e
algumas lideranças de massa, preparando os embates que viriam.
Paralelamente
a esse trabalho, no mais rigoroso segredo, ia se fazendo a
preparação militar, individual e coletiva, teórica e prática.
Toda a região ia sendo mapeada, os igarapés ,reconhecidos, as
grutas anotadas, a selva tornando se amiga.
De
tudo pode se concluir que, se o trabalho político anterior à
guerra não se fazia através de discursos, nem havia deitado
profundas raízes, ele se realizava, com vistas ao futuro, integrado
às lutas e experiências das massas locais. Isto é fato.
CONVITE
À LIBERTAÇÃO
Difundiu
se em certos setores democráticos a idéia de que na preparação
da Guerrilha do Araguaia não houve trabalho político junto com o
povo e por isso quando foi deflagrada a luta, em 1972, as massas
apoiaram "apenas sentimentalmente" os guerrilheiros.
Esta
análise parece ser falsa. Na Faveira, principalmente, o trabalho
que antecedeu a guerrilha tem uma caracterização política bem
definida.
RECLAMAÇÃO
PELA TERRA
Lauro
Rodrigues dos Santos é morador da Faveira, entre os municípios de
Marabá e São João, na desembocadura do Araguaia no Tocantins,
Perdeu a mão, devido a uma granada que o Exército deixou na mata.
Ele conta: " Quem primeiro chegou na Faveira foi o Seu Mário
(Maurício Grabois), juntamente com Dona Maria (Elza Monnerat) e
Joca, em 1969. Depois vieram os outros. Eles foram trabalhar na
roça, no comércio, na farmácia. Minha mãe ensinou muitos deles a
fazer as comidas aqui da região, beiju, tapioca, mandioca. Eu tive
uma malária de 20 dias e quem me curou foi a Alice. Se não fosse
ela eu tinha morrido!"
Ao
lado disso, quando os problemas da terra começaram eles atuaram ao
lado da massa. Dona Maria, moradora da Metade, relembra "Nesse
tempo um povo tinha tomado as terras nesses pobres aí. Foi o
Memescão, que deixou tudo quanto ,foi pobre fora de casa. Ai eles,
o povo da mata, reclamaram muito sobre isso!"
CONQUISTAVAM
PESSOAL
Com
o respeito e a admiração do povo do lugar, os comunistas iniciaram
uma explicitação política do trabalho que realizavam, embora
dentro das regras de segurança que a situação d.e extrema
repressão exigia.
Dona Lindaura Vilarense, moradora de São Domingos das Latas, deu
seu depoimento: "Eles davam remédio e conquistavam o pessoal
para a acompanhar eles. Conquistavam assim, dizendo que o pessoal
tinha uma cegueira de falar. Que o presidente, o governador não
davam assistência ao pessoal da mata. Então o pessoal adoecia,
morria à mingua e nem sabiam que eles existiam, que tinha
necessidade... Diziam isso pro povo antes da guerra começar. É por
isso que eles já tinham bastante gente com eles por aqui mesmo. 0
Seu Luizinho, que é cunhado desse Constantino bem ai, foi um dos
que morreu na mata, matado pelo Exército".
O
mesmo Lauro acrescenta: Dona Maria gostava de visitar gente de
domingo, falava de hospital, escola, do governo que não dava
assistência. Falava tudo isso. Eram assuntos que eles
tratavam".
E
Dona Maria, da Metade, arrematava: "Eles convidavam o povo para
a libertação" embora esclareça que não conseguia entender,
bem o que seria essa libertação.
NA
GAMELEIRA TAMBÉM
A
região da Gameleira fica no pé da Serra das Andorinhas, entre as
áreas dos Caianos e da Faveira. Foi onde viveram o Osvaldão,
Helenira Resende, Lourival, Lia e outros guerrilheiros. 0 depoimento
que melhor ilustra o trabalho na Gameleira foi dado por José
Genoino Neto, que, embora não tenha participado da guerrilha
propriamente dita, já que foi preso logo na sua deflagração,
disse em um longo depoimento para a publicação História Imediata,
em 1978: "No terreno político vamos elaborar, junto com a
população, um programa de reivindicações para a região. (...)
era um programa de 27 pontos, que se propagava naturalmente. (...)
Começam nessa época (inicio de 1972) os grandes conflitos pela
posse da terra (...) Vamos fazer um trabalho mais avançado com a
população. A gente vai conversar com todo mundo, a população
começa a procurar a gente. E se acerta coletivamente , com todos os
moradores da região, que ninguém deve sair de lá".
POVO
ROMPE SILÊNCIO E FALA DA SUA GUERRA
Em
1979, quando João Amazonas declarou à imprensa que 90l da
população haviam apoiado a Guerrilha do Araguaia, sua colocação
pareceu me apenas uma bravata. No Sul do Pará, onde eu estava há
mais de um ano, o silêncio sobre a Guerrilha era sepulcral. 0 povo
inteiro dizia que os militantes do PC do Brasil eram boas pessoas,
que todo mundo gostava deles. Mas.. participação popular na
Guerrilha? ... apoio à luta armada?.. integração nessa luta? Nem
sombra. Ninguém falava nada. Um manto de silêncio cobria tudo.
Onde
estaria a verdade? Os dirigentes do PC do B afirmavam que o povo
apoiara a Guerrilha e tomara parte nela. 0 povo dizia que não.
O
PAPEL DA CARAVANA
O
silêncio da massa só teve seus primeiros véus realmente
desvendados com a Caravana dos familiares dos guerrilheiros, que
visitou a região em novembro passado. 0 objetivo da Caravana era
buscar informações sobre aqueles que perderam suas vidas e
desapareceram nas barrancas do Araguaia. Quase ninguém da região
acreditava no sucesso da viagem. o povo, porém, falou. Pouco ainda,
é verdade. Em certos lugarejos, o Exército foi de casa em casa,
ameaçando quem falasse. Mas os que falaram apontam numa só
direção; o povo da região .apoiou e participou da Guerrilha.
Um
jovem camponês por exemplo, recitou, de memória, um
"romanço" da guerrilha para os familiares dos mortos e
desaparecidos. Foi ao cair de uma tarde de novembro, bem no centro
da área do conflito.
"Senhores,
peço licença
Me ouça com atenção
Vou falar sobre o Brasil
Da atual situação
De um camponês cá do Norte
Que sendo valente e forte
Ainda passa fome
Me corte a língua a facão
Me jogue no meio do inferno
No meio do caldeirão
Pra ser frito em óleo quente
Misturado com sal quente
E ser comido pelo Cão.
"Agora
vou começar
Não deixo para depois
Quem tem massacrado o povo
Não vai nem comer arroz
Quem semeou tempestade
Não vai colher bondade
Vai pagar em três por dois"
REPRESSÃO
É UMA PROVA
Todos
estão de acordo sobre a terrível repressão que se abateu sobre a
área da Guerrilha. Arroyo afirmava que mais ide mil moradores da
região foram presos é torturados pelas Forças Armadas. A Caravana
constatou este fato. Centenas de lavradores pobres, castanheiros,
pequenos comerciantes, barqueiros, artesões, foram presos. Houve
povoados, como São Domingos das Latas e Palestina, em que quase
toda a população foi presa. Em um só dia foram presas 150
pessoas. E presas por meses. E torturadas até a náusea.
Por
que? Nesse tempo, a repressão já prendia e torturava de maneira
seletiva. Ninguém que não tivesse maiores implicações com a
Guerrilha era preso por muito tempo. Pelo contrário, o Exército
tudo fazia para cativar a população local, com a Aciso por
exemplo. Sabe se inclusive que as prisões do final de 1973 foram
feitas através de denúncias de espiões, o que demonstra sua
seletividade.
Só
se pode chegar a uma conclusão: centenas de prisões queriam dizer
que centenas de moradores haviam se ligado à Guerrilha, em alto
nível. Muitos deles, dezenas talvez, nunca voltaram.
Hoje,
creio, já podemos afirmar que uma grande parte da população
apoiou a Guerrilha com informações, alimentação e calçados. E
outra parte, menor, porém expressiva, participou, da União pela
Liberdade e os Direitos do Povo, integrando se na própria luta
guerrilheira. Por isso a Guerrilha sobreviveu tanto tempo. Ainda é
cedo para precisar a dimensão dessa participação popular. Só
quando os moradores não tiverem mais medo de falar, nem de se
identificar com aquela jornada de lutas, então se saberá.
MUITO
CAMPONÊS PEGOU EM ARMAS
Quando
a Caravana dos familiares dos mortos e desaparecidos na Guerrilha do
Araguaia chegou á região dos Caianos, no povoado de Boa Vista do
Pará, fundado pelo dirigente guerrilheiro Paulo Rodrigues, centenas
de camponeses fizeram uma verdadeira festa de confraternização.
Muitos andaram horas para abraçar os caravaneiros.
Nessa
região a Guerrilha teve menor densidade política e militar. Muito
cedo, o Destacamento C, dos Caianos, deslocou se para a região da
Gameleira e Faveira.
Mesmo
assim, setores expressivos da massa apoiaram os guerrilheiros. Com
certo exagero, uma importante liderança camponesa da região
afirma: "Aqui, onde eles apareceram tiveram de comer. Cem por
cento dos moradores apoiavam eles. Agora, o povo não participou da
guerra. Foi mais no sentido da alimentação". Não foram
poucos os lavradores que mostraram ã caravana onde escondiam, na
mata, a comida para os guerrilheiros.
NA
FAVEIRA E GAMELEIRA
Já
na Gameleira e principalmente na Faveira a participação do povo na
Guerrilha parece ter sido muito alta. Nessas regiões, desde que
começou o confronto, a Guerrilha organizou a União pela Liberdade
e Direitos do POVO - ULDP - entidade política de massas, em cima de
um programa democrático e popular, de 27 pontos, pacientemente
elaborado.
Angelo
Arroyo, um dos lideres da luta, diz em seu Diário da Guerrilha que
com as principais vitórias mais de 20 núcleos da ULDP se
organizaram. Fernando Portela, em suas célebres reportagens,
menciona a adesão das massas camponesas a essa entidade. Ao que
tudo indica, centenas de moradores de fato se agruparam na ULDP,
apoiando e participando da guerra, tanto com apoio logístico como
diretamente mesmo.
MUITA
GENTE COM ELES
O
mesmo Fernando Portela diz que no final de 1972 as Forças
Guerrilheiras do Araguaia já possuíam cerca de cem membros. Isto
é, pelo mentis 30 moradores já teriam se integrado a elas, 0
Diário de Arrogo levanta que no final de 1973 cerca de 40
lavradores estavam prontos a se integrar na Guerrilha.
Os
dados obtidos com a caravana apontam na mesma direção. Dona Maria,
da Metade, foi conclusiva: "Tinha muita gente com eles. Só se
você visse... Tanto que quando o Exército veio pela primeira vez,
e era só gente nova, soldadinho, eles mataram muito. Quase que
acabavam com os soldados. Gostavam de matar aqueles que tinham
grau".
Dona
Lindaura Vilarense depôs "Quando o Exército soube, o pessoal
já acompanhavam eles". E vários depoimentos mencionam
lavradores que participaram e morreram na Guerrilha Luizinho,
Alfredo, Pretinho, o Filho de Dona Joana, Zezinho, Amadeu e outros.
POR
QUE O PCdoB RESOLVEU RESISTIR
A
Guerrilha do Araguaia resistiu de abril de 1972 até meados de 1974.
Segundo o cel. Cid Zenóbio, ex comandante da 53a Brigada de
Infantaria de Selva, localizada no quilômetro 8 da Transamazônica,
as operações militares do governo só se encerraram oficialmente
em 1975.
As
Forças Guerrilheiras eram integradas por três destacamentos, de 60
a 70 militantes do Partido Comunista do Brasil e não menos que 10 a
15 e mais que 30 a 40 camponeses da região. Possuíam amplo apoio
de massas mas armamento precário revólveres, rifles 44, umas
poucas metralhadoras tomadas do inimigo.
Do
outro lado, o regime mobilizou em toda a guerra cerca de 20 mil
homens de Exército, Marinha, Aeronáutica, Polícia Federal. e
Polícia Militar. O equipamento era o mais moderna, desde fuzis FAL
até helicópteros e aviões. Segundo o general Viana Moog um dos
carrascos da Guerrilha, foi o maior movimento de tropas rio
Exército, semelhante ao da FEB. Estas tropas moveram três
campanhas de cerco e aniquilamento contra os guerrilheiros: as duas
primeiras, em abril/junho e setembro / outubro de 1972, sofreram
ampla derrota. A terceira conseguiu cercar e desorganizar a
Guerrilha, matando ou capturando a maioria dos seus integrantes.
O
EXÉRCITO DEFLAGROU
Foi
o Exército que deflagrou a luta. Segundo o testemunho do Gringo,
falecido líder camponês da região, agentes da Policia Federal
estiveram no povoado de Itaipavas no inicio de 1972, buscando
informações. No dia 12 de abril, agentes da repressão atacaram,
na Faveira, na Game leira e nos Caianos. Avisados pelas massas, os
guerrilheiros internaram se nas matas.
Portanto,
não foi o PCdoB que deflagrou a Guerrilha do Araguaia. Atacados, os
comunistas decidiram resistir, uma decisão revolucionária,
consonante com o trabalho que vinha desde 1966 na região.
Consideram que não podiam se entregar à repressão, à tortura e
à morte nos porões do regime militar. Nem podiam fugir, abandonar
um imenso trabalho de mais de seis anos e o povo da região, a quem
haviam se ligado profundamente
DECISÃO
REVOLUCIONÁRIA
Os
militantes do PCdo B atacados no Sul do Pará reconheciam que as
condições da resistência não eram as melhores. As massas locais
recém haviam iniciado um aprendizado mais político e a luta pela
terra. Militarmente, iniciavam a luta armada na defensiva, atacados
de supresa, o que é sempre ruim. Se a iniciativa tivesse sido da
Guerrilha, ela poderia por exemplo conseguir armas modernas e em
quantidade, assaltando um quartel.
Mas
os guerrilheiros consideraram que já havia condições mínimas
para a resistência vitoriosa. Estavam integrados na vida e na luta
do povo do lugar. Tinham invejável liderança entre as massas.
Tinham um programa de luta amplo e democrático, os 27 Pontos.
Estavam dispostos à luta revolucionária, adestrados para a
guerrilha e dominavam perfeitamente o terreno. Isto além de estarem
apoiados, nacionalmente, pelo Partido Comunista do Brasil.
Consideravam,
finalmente, que apesar de todas as dificuldades, e como em tudo na
vida, o pequeno pode ficar grande, o fraco tornar se forte, o
localizado pode se espraiar, principalmente na política, se a luta
é justa, se representa os anseios do povo e é corretamente
dirigida. Por isso, decidiram resistir como revolucionários.
O
EXÉRCITO CHEGOU ATÉ A CORTAR CABEÇAS
A
ação das Forças Armadas no Sul do Pará se orientou por toda a
experiência internacional do imperialismo contra os povos, contando
com especialistas militares norte americanos e portugueses,
treinados nas guerras do Vietnã e da Africa: Sua tática se
desdobrou nos campos político e militar e também evoluiu de acordo
com a luta.
VIOLÊNCIA
PARA ISOLAR
Politicamente,
o principal esforço da repressão foi isolar a Guerrilha, no plano
local e nacional. 0 expediente mais importante foi uma violência
talvez sem paralelo na história do Brasil. Eu, que conheci a
tortura de perto; não comparo nada do que vi às violências que as
Forças Armadas cometeram no Araguaia. Camponeses, às vezes 60 ou
70, colocados em buracos, nus, durante dias sem comer nem beber.
Padres, freiras, pequenos comerciantes, donas de casa e até grandes
fazendeiros presos e torturados.
E
ainda mais, o corte de mãos e cabeças, o desfile de cadáveres
mutilados pelas ruas e estradas pra intimidar a população.
Para
isolar a Guerrilha nacionalmente, a repressão tentou destruir o PC
do Brasil. Não o conseguiu, mas chegou a desarticular alguns
centros importantes de apoio à luta no Araguaia. E impôs uma
censura férrea também para evitar os "efeitos
multiplicadores" da Guerrilha, segundo o coronel Jarbas
Passarinho.
O
Exército também usou duas táticas tentando ganhar as massas
locais. Uma foi fazer concessões demagógicas ao nível das lutas
econômicas do povo. Na região "dos Cabral" por exemplo,
em plena guerra, dezenas de soldados prenderam um grileiro enquanto
distribuíam produtos da cantina para os agricultores; A outra
tática foram as "Ações Cívico Sociais"; com
distribuição de roupas, remédios e utensílios, além de uma
maciça propaganda antiguerrilheira.
Militarmente,
nas duas primeiras campanhas as Forças Armadas sofreram pesadas
baixas.
Na
terceira campanha, porém, a repressão passou a usar pequenos
contigentes de cinco a sete soldados que entravam pela mata, com
grande poder de fogo, bem treinados, apoiados por rádios,
helicópteros (o "Sapão") e até aviões que, segundo um
guia, tinham um detector de metais capaz de localizar o deslocamento
de homens armados.
POR
QUE NÃO VENCERAM
O
fato é que as prisões em massa na rede de apoio à Guerrilha; a
repressão no plano nacional: o controle de todas as vias de acesso
ã região; e ainda a concentração das Forças Guerrilheiras numa
pequena área permitiram ao Exército desarticular a resistência ao
fim desta terceira campanha.
Resta
ao povo inventar essa gloriosa jornada de lutas, e retirar todos os
seus ensinamentos históricos para tornar mais claro o caminho da
libertação do nosso povo.
GUERRILHA
TEVE AÇÃO POLÍTICA
O
esforço tático das Forças Guerrilheiras do Araguaia envolveu
tanto a esfera política quanto a militar. E embora alguns afirmem o
contrário, o trabalho principal a que elas se dedicaram foi o
trabalho político com as amplas massas da região.
O
paciente trabalho de formação dos três destacamentos militares
guerrilheiros, que vinha se desdobrando desde os idos de 1968, foi a
garantia da continuidade desse trabalho político. Assim, quando as
forças da reação investiram contra a. área, foram derrotadas
militarmente nas duas primeiras campanhas que encetaram, garantindo
a possibilidade de um amplo trabalho político.
COMO
ERA O TRABALHO
Deflagrada
a luta armadas os destacamentos militares passaram a realizar
verdadeiras campanhas de esclarecimento da população local dos
objetivos de guerrilha. Conquistavam o apoio e a participação das
massas discutindo abertamente com o povo quem eram, o que
pretendiam, o que significava ditadura militar.
A
discussão política tinha por base o "Programa dos 27
Pontos". Ele continha o conjunto das reivindicações
econômicas e políticas mais sentidas pela massa. Amplo e
democrático, foi pacientemente elaborado após muitos anos de
integração na região.
O
"Programa dos 27 Pontos" exigia desde: 1. Terra para para
trabalhar e titulo de propriedade da posse; 2. Combate à grilagem,
com castigo severo a todos os que grilarem terras ; 3. Preços
mínimos compensatórios para os produtos da região".
Levantava questões políticas como "Liberdade para reunir se,
discutir seus problemas, criticar as autoridades, exigir seus
direitos, organizar suas associações e eleger, sem pressão de
nenhum tipo, seus representantes". Terminava dizendo: "É
hora da decisão, de acabar para sempre com o abandono em que vive o
interior e de por fim aos incontáveis sofrimentos de milhões de
brasileiros abandonados, humilhados e explorados. A revolução
abrirá o caminho para uma nova vida. Até hoje o povo foi tratado
como escravo. Chegou o momento de levantar se para varrer os
inimigos da liberdade, da Independência c do progresso do
Brasil".
A
CRIAÇÃO DA ULDP
Com
base neste Programa, a guerrilha organizou a União pela Liberdade e
Direitos do Povo, .a ULDP. Era uma organização de massas,
clandestina ou semi clandestina, formada por camponeses pobres,
médios, artesões, pequenos comerciantes , donas de casa, composta
por núcleos de 3 a 5 elementos.
Segundo
Criméia Alice, ex guerrilheira sobrevivente, as ULDPs eram
organizadas de forma a salva guardara segurança e a vida dos seus
interesses; os membros de uma ULDP não conheciam os membros de
outra. Segundo ela, nem os membros do próprio Partido conheciam
toda a extensão das ULDPs. Mas elas formavam uma forte rede de
discussão política e de apoio à guerrilha. Tanto que apenas feito
um contato, com o pedido de uma informação, por exemplo, logo esta
chegava, através da rede formada.
O
certo é que os guerrilheiros se desdobravam no trabalho de discutir
política com a população. Segundo um interessante depoimento de
um camponês, na sua forma de ver o mundo, o povo da mata era igual
aos crentes. Eles levavam uns papéis escritos de casa em casa,
lendo e explicando pro povo o que diziam aqueles papéis". E
isso pode ser feito amplamente em função do controle militar da
área pelos guerrilheiros.
EQUIVOCO FATAL
No
emprego do dispositivo guerrilheiro, entretanto, é que os
cambatentes do Araguaia mais sofreram. No inicio havia três
destacamentos, cada qual composto de três grupos de sete
guerrilheiros. Nas duas primeiras campanhas, os destacamentos agiram
cada qual, fundamentalmente, dentro de suas próprias áreas. Houve
apenas um deslocamento, do destacamento dos Caianos. Ainda no
decorrer dessas duas primeiras campanhas,os grupos foram reduzidos
de sete para cinco guerrilheiros.
Mas
na terceira campanha, sob o argumento de que era necessário ter
toda a força à mão, para aumentar seu poder de fogo, os
destacamentos se concentraram numa pequena área, entre a Faveira e
a Gameleira: Ai foram cercados, com a maioria dos seus integrantes
sendo presos e em seguida assassinados.
A LUTA CONTINUA
A
Guerrilha do Araguaia foi sem dúvida a mais avançada forma de
resistência do povo brasileiro à ditadura militar em seu momento
mais negro. Durante três anos, de 1972 até meados de 1974, toda
uma região do interior foi conflagrada por uma guerra
revolucionária, em que combateram as Forças guerrilheiras do
Araguaia, dirigidas pelo Partido Comunista do Brasil, e todo o
aparelho militar e policial do regime, que mobilizou aproximadamente
20 mil homens.
Sua
importância, portanto, projeta se na história. Marca o encontro de
classe operária, através de seu partido e sua ideologia, com as
massas camponesas de nossos Sertões. E mais, continua a fazer a
história da luta revolucionária do povo brasileiro até nossos
dias.
VITÓRIA
DOS CAMPONESES
Hoje,
em todo o Sul do Pará, desenvolve se um dos movimentos de massas
mais ricos do Brasil. Milhares de camponeses erguem seus punhos, e
não raro as armas, para lutar pelo seu direito à terra, levantando
se contra o latifúndio, os, grandes grupos econômicos.
Particularmente
neste último ano, os camponeses da área obtiveram importantes
vitórias. No Baixo Araguaia, onde se implantou o Destacamento C da
Guerrilha, dos Caianos, mais de 250 mil hectares de terra já foram
apropriadas pelo povo, numa verdadeira guerrilha das massas. Só nos
últimos 12 meses mais de 30 pessoas, na grande maioria pistoleiros,
morreram neste conflito. A Guerrilha do Araguaia foi,
incontestavelmente, a sementeira desta extraordinária luta
camponesa.
As
ligações entre os dois movimentos não são mecânicos. Às vezes,
lideranças camponesas atuais nem percebem esta relação. Mas foi
no contato estreito, amiudado, continuado das massas com os
militantes do PC do Brasil, vivendo e participando numa verdadeira
guerra, que os lavradores foram buscar sua lição mais importante:
para conquistar o seu direito precisam lutar, mesmo que a luta seja
uma guerra.
TERRA
DA LIBERDADE
Quando
os familiares dos mortos e desaparecidos na Guerrilha, em sua
histórica viagem ao Araguaia, entraram no povoado de Boa Vista,
antigo Caianos, fundado pelo comandante guerrilheiro Paulo
Rodrigues, os camponeses gritavam a plenos pulmões: "Esta é a
terra da liberdade, nós estamos colhendo a semente que eles
plantaram;" Não poderia haver prova mais viva da Importância
da Guerrilha.
A
Guerrilha ainda está para ser devidamente estudada. 0 conhecimento
que temos dela é ainda muito precário, suas lições são pouco
conhecidas. Não há dúvidas, nela houve grandes debilidades,
deficiências, erros políticos e militares. Mas também não há
dúvidas de que criticas que muitas vezes lhe fazem tem o sabor de
uma visão direitista da revolução brasileira, que nega o papel
das massas camponesas.
A
Guerrilha do Araguaia ë hoje mais do que uma capitulo da história.
Ê uma palavra de ordem, uma bandeira que tremula altaneira, uma
estrela que brilha na noite escura, uma esperança para milhões,
uma chama que infunde terror aos generais. Seus mártires, como
disse José Duarte, não morreram nem foram enterrados. Foram
plantados nas terras úmidas e generosas do Araguaia, no coração
do povo, como exemplos de revolucionários.
ESTRELA
QUE BRILHA
Mas
esta importância não se limita ao movimento camponês do Sul do
Pará. A Guerrilha do Araguaia é o repositório mais importante da
luta armada do povo brasileiro pela sua libertação. Confirmou que
esta luta é viável para combater o regime tirânico em nosso pais.
Pouco mais de meia centena de revolucionários, com apoio e
participação das massas foram capazes de enfrentar durante quase
três anos o Exército, a Marinha, a Aeronáutica, o diabo.
--------------------------------
ENTREVISTA
DE FREI GIL
Por PAULO FONTELES
Frei
Gil Vila Nova, hoje, é o decano dos irmãos dominicanos que vive
nos sertões do Araguaia. Nasceu em Imperatriz,no ano de 1906,
quando esta importante cidade da Belém - Brasília era apenas um
corrutela. Com 1 ano de idade foi para Marabá, cidade paraense
localizada logo abaixo do desembocadura do Rio Araguaia no
Tocantins, onde viveu até os 12 anos. Sentindo a vocação para o
sacerdócio, em 1918 foi estudar em Uberaba. De lá partiu para a
França, onde concluiu os exigentes estudos da Ordem dos Pregadores.
Com a alma de missionário, no inicio da década de 50, aos 46 anos
de idade, de São Paulo, onde exercia a profissão de professor,
Frei Gil voltou para o Sul do Pará, onde, com exceção de alguns
poucos anos, permanece até hoje. Possui uma personalidade poderosa,
que floresce dos muitos anos de contato que teve com os índios
Suruí Sereno e calmo, nunca eleva a voz, mesmo dizendo as palavras
menos cinzeladas.
Frei Gil, em 1972, foi obrigado a sair do Sul do Pará pelo
Exército, por ter se oposto à utilização dos índios Suruí, no
combate à guerrilha. teve estreito contato com os guerrilheiros,
antes e depois de deflagrada a luta armada. Seu depoimento, por toda
a sua autoridade moral, é uma das peças fundamentais para que se
possa entender o que ocorreu, de fato, no Sul do Pará naqueles anos
de tormenta. Durante quase dois anos, tentei entrevistá lo para, o
registro de suas impressões, embora já conhecesse sua idéia
geral. Finalmente , em agosto de 81, pudemos encontar nos com mais
cálma. E seu depoimento, finalmente saiu:
Pergunta:
Frei Gil, quando o Sr. veio para o Araguaia?
Resposta: Vim para cá em 1952. Entrei por Santa Cruz e fiz
contato com os índios Suruí Morei com eles 18 anos. Só sai de
lá, quando o Exército desconfiou de mim, em 1972, quando a FUNAI
ocupou a aldeia.
Pergunta:
O Sr. conheceu o pessoal da guerrilha?
Resposta: Conheci todos esses rapazes e moças da guerrilha Chegaram
uns dois anos antes do Exército. Eram bons rapazes. Se diziam
paulistas. Tinham alguns em Conceição, outros em São Geraldo. 0
Oswaldo estava em São Geraldo. Outros em Marabá e outros tinham
comprado um sitio em Apinagés. Eram boas pessoas. Fiquei um pouco
admirado. Fui uma ou duas vezes no sítio deles em Apinagés. Tomei
café. Quando começou a guerra encontrei uma delas em Marabá. Essa
escapou. Disse para ela: Vá, vá embora logo!
Pergunta:
Como foi a chegada do Exército?
Resposta: O Exército ocupou Marabá. Depois ocuparam São Domingos
das Latas. Chegavam de helicópteros. O povo no Toriznho, na fazenda
do Carlos Holanda, especavam foguetes para avisar o povo da mata. Ai
veio um capitão e proibiu. Eu perguntei: Por que? Por que não pode
soltar foguetes? Depois me convidaram para ir até um coronel. Eu me
recusei. Ai foi o coronel que veio. Foi. muito amável. Me convidou
para almoçar. Perguntou me sobre os rapazes. Eu lhe disse: Esses
rapazes, que se revoltaram contra o governo, com ou sem razão, não
estão por aqui. Devem estar na Serra das Andorinhas. Esses rapazes
vieram para cã, mas ninguém sabia das intenções deles.
Pergunta:
Como foi a guerra?
Resposta: Quando o Exército entrou na mata foi mal sucedido. Fiquei
com pena dos rapazes do Exército. Foram mortos muitos. Caminhões
saíram cheios de soldados mortos. Depois eles utilizaram os índios
para caçar os guerrilheiros, deixaram de usar fardas, cresceram as
barbas. Começaram a empregar os sertanejos. Aí prenderam umas 250
pessoas lá da mata, da Metade, de São Domingos, desconfiando que
estas pessoas estavam ajudando os guerrilheiros
Pergunta:
Esta a uma das questões mais controvertidas da guerrilha. O povo
ajudou e participou da guerrilha, ou não?
Resposta: Todas essas pessoas era simpáticas aos guerrilheiros.
Todas: Os guerrilheiros eram muito bons.
Pergunta:
Esta simpatia era materializada?
Resposta: O povo da apoio moral, fornecia viveres. aos
guerrilheiros. Eles vinham à noite. Tinha uma .moça, ela vinha
buscar viveres toda noite numa casa. O Exército descobriu. Foi pra
lá um oficial e 2 soldados. Intimaram os de casa para não livre
era necessário pelo menos essas 5 preliminares. Isso eles discutiam
com o povo. Me entregaram esse caderno manuscrito. Depois eles me
deram outro, deixaram na casa de um lavrador para mim. Diziam que o
governo não dava essas preliminares da liberdade. E eles praticavam
isso lá.
Pergunta:
O que foi feito com esses cadernos? O Sr. ainda os tem?
Resposta: Não. No tempo do caso do "Perdidos", em 1976,
eles foram queimados.
Pergunta:
E o Sr., como escapou daquele torvelinho?
Resposta: Depois que o Exército prendeu os posseiros, eu protestei.
Fui a Belém, falei com o Brigadeiro Jardim de Matos. Disse que o
Exército estava lá com uma imagem muito negativa. O Exército
tortura pais de família. Eles me deram um documento tenho até
hoje, na pasta. Um belo dia, recebi um rapaz mandado pelo Bispo
dizendo que eu voltasse para Marabá, porque corria uma noticia na
cidade que eu ia ser preso. Então Vim de jumento três horas. Nó
caminho encontrei uma pratulha. Mandaram eu descer. Estavam
procurando o Frei Gil, da ordem dos Dominicanos, mas meu nome civil
é Dulce. Perguntaram meu nome. Respondi: Dulce Gomes, mostrando
minha carteira de identidade. Qual a sua seita ? Disse Ordem dos
Pregadores. Então, siga. Fui para Marabá. De lá atravessei para
São Felix. De lá fui para Belém. De Belém peguei o avião para
São Paulo. Depois fui para Uberaba, onde soube que havia terminado
a guerrilha. Resolvi visitar D. Pedro Casaldáliga. De, lá, desci o
Araguaia e passei por Barreira do Campo, última cidade do Pará,
quase na fronteira com Mato Grosso e fiquei até hoje lá,
trabalhando com os irmãos Maristas.
Todo ano visito a aldeia dos meus índios, mesmo contra a vontade do
Curió. Um sertanejo me perguntou se eu conhecia o Curió. Eu disse
que o Curió era um passarinho muito safado, que andava cantando
muito, enganando outros passarinhos.
Pergunta:
Bem, Frei Gil, e no tempo da guerrilha, o Exército nunca pediu o
seu apoio?
Resposta: O Exército procurava nos conquistar. Fazia muitas
perguntas. Nós respondíamos com evasivas. Eles diziam: Padre,
ajude nos. Eu respondia: Bom, eu vou rezar por vocês...
|