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  ESPECIAL
 Uma epopéia pela liberdade
 
Guerrilha do Araguaia 30 anos
(1972-2002)

 

 EM PAUTA

Reportagem de Eumano Silva sobre a
 Guerrilha do  Araguaia
(publicada no Correio Braziliense)


Eumano Silva
Jornalista do Correio Braziliense

 A população local tem interesse em mostrar para o restante do país o que foram obrigados a esconder até hoje

Militantes comunistas caçavam na mata, tratavam doentes e jogavam futebol para conquistar a simpatia dos nativos. São histórias que pessoas como Pedro Onça, João Francisco, David Rodrigues jamais esqueceram.

Pedro Onça foi preso em Xambioá quando os militares descobriram em seu poder uma lista de compras feita pelos guerrilheiros.

Pedro Sande, 66 anos, foi um dos maiores amigos dos guerrilheiros do PCdoB durante os combates contra o Exército na década de 70. Ainda vive na região dos Caianos, a 36 quilômetros do rio Araguaia, mesmo lugar onde morava quando viu um militante comunista pela primeira vez.

Naquele tempo, a casa de Pedro era a mais distante do rio, cercada de floresta amazônica por todos os lados. Ganhou fama de bom caçador e o apelido de Pedro Onça. "Perdi a conta de quantos bichos matei", conta.

Os militantes do PCdoB ainda são conhecidos de Pedro Onça pelos nomes de guerra. O médico gaúcho João Carlos Haas Sobrinho, por exemplo, é chamado de Juca. A admiração de Pedro Onça pelos guerrilheiros começou quando Juca o curou de uma malária. "Eles todos eram muito bons para tratar da gente", afirma.

Vizinho do maranhense Pedro Onça, Juca era o responsável pelos serviços de saúde da guerrilha. Especializou-se em doenças típicas da região, como malária e leishmaniose. "Ele cobrava pelo serviço, mas se a pessoa não tivesse dinheiro ele curava assim mesmo", conta Pedro Onça. Juca foi morto num confronto com o Exército em setembro de 1972.

Paulo Mendes Rodrigues era o comandante do destacamento C, um dos três grupamentos montados pelos guerrilheiros. Montou um pequeno armazém e também vendia remédios nas margens do Araguaia. Nos anos 60, não havia farmácia em Caianos.

O economista Paulo tornou-se amigo de Pedro Onça logo que chegou à região. Quando o Exército descobriu a existência do movimento armado, Paulo fugiu com os companheiros para o interior da mata e a casa de Pedro tornou-se um dos principais pontos de referência.

Um dia Paulo procurou Pedro Onça com uma lista de compras escrita em um papel. Como não podia aparecer, Paulo pediu que Pedro fosse à cidade para buscar algumas encomendas. "Ainda falei para ele que aquilo podia ser perigoso, dar rolo, mas ele insistiu e eu topei a parada", diz o caçador.

Um dos pedidos que Pedro se lembra era um par de botinas. Há muito tempo na selva, um dos maiores problemas para os guerrilheiros era conseguir calçados.

Quando chegou a Xambioá, Pedro Onça foi procurado pelo Exército. Os militares perguntaram se as compras eram para os guerrilheiros. Pedro negou, mas eles não acreditaram. Bastou uma simples revista para que a lista de compras fosse encontrada. "Fui preso na base de Xambioá e jogado num buraco redondo, de uns três metros de fundura", diz.

Depois de passar a noite no buraco, Pedro Onça foi levado para São Geraldo, Marabá e Bacaba, cidades paraenses onde também havia bases do Exército. Apanhou, lavou pratos e tomou choques. Depois de 22 dias preso, foi liberado com a condição de ajudar o Exército na captura dos guerrilheiros.

Foi uma época muito delicada para Pedro Onça. Era obrigado a andar pela mata com os militares, mas nunca entregou os amigos. Às vezes, os comunistas apareciam. Sempre conseguiam alguma coisa para comer. Quando o Exército pedia informações, ele não mentia. Com isso, conseguiu sobreviver.

Pedro Onça hoje lembra com saudade dos tempos que os guerrilheiros chegaram a Caianos. "Eles gostavam de caçar comigo", conta. "Teve até um dia em que o Zé Francisco ficou com medo dos porcões do mato e subiu num pau cheio de espinho", lembra, bem-humorado.

O nome verdadeiro de Zé Francisco era Francisco Manoel Chaves, um velho militante comunista. Quando chegou ao Araguaia, tinha mais de 60 anos. Foi morto pelo Exército em 1972.

Falante e hospitaleiro como nos tempos da guerrilha, Pedro Onça leva uma vida feliz ao lado da mulher Francisca e cercado de filhos e netos. Ainda guarda a mesma espingarda que caçava com os guerrilheiros e preservou um pedaço de mata para os bichos cada vez mais escassos na região.

João Francisco Lima, 67 anos, foi um dos primeiros moradores de Caianos a se encontrar com os guerrilheiros. Ainda hoje mora na mesma casa em frente ao rio Araguaia, passagem obrigatória para quem atravessa de Araguanã, no Tocantins, para a região de Caianos. "Eu me lembro direitinho quando chegou o Paulo", diz, referindo-se a Paulo Mendes Rodrigues. "Ele falou que era de São Paulo e comprou um pedaço de terra pertinho daqui".

Paulo apareceu na região em 1967. Nos meses seguintes, outros estranhos desembarcaram na casa de tábua que ele construiu para morar e montar o pequeno armazém. Passaram a ser conhecidos como "paulistas". Dos vinte guerrilheiros do Destacamento C, a mais querida era Dinaelza Oliveira Teixeira, a Dina.

Baiana do município de Castro Alves, cursou Geologia em Salvador, mas no Araguaia todos pensavam que era médica ou enfermeira. "Muitas vezes ela andou muitas horas na mata, de noite, para ajudar uma criança a nascer", conta João Lima. De personalidade forte, Dina tinha fama de atiradora. Entre os militares, foi tão temida quanto Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, principal líder da guerrilha. Carregava sempre um facão e um revólver na cintura.

Filho de João Lima e vereador em Xambioá eleito pelo PFL, Carlos Cacheado gostava de jogar futebol com os paulistas quando era criança. Nunca se esqueceu da bola que ganhou do guerrilheiro Daniel Callado, um dos desaparecidos do Araguaia. Também se recorda quando a professora comunista Áurea Valadão criou a primeira escola de Boa Vista, um povoado seis quilômetros distante do Araguaia.

João Lima levou um susto quando, durante uma viagem a Conceição do Araguaia, no Pará, viu um cartaz com fotos dos forasteiros. Eram todos procurados como "terroristas". Quando voltou para a roça, o Exército estava na casa de Paulo. A partir daquele dia, os "paulistas" se embrenharam na mata e assumiram o papel de guerrilheiros.

David Rodrigues de Souza, 70 anos, estava doente de malária quando os guerrilheiros Raul e Valk chegaram em sua casa. Morava perto de Brejo Grande, no sul do Pará. Raul era o pseudônimo do Antonio Teodoro de Castro, ex-estudante de Farmácia no Rio de Janeiro. Valquíria Afonso Costa nasceu em Uberaba, Minas Gerais, e abandonou o curso de Artes e Educação em Belo Horizonte para lutar no Araguaia.

Naquele tempo, final de 1973, os militantes do PCdoB haviam amargado várias derrotas. Depois de tomar um remédio contra malária receitado por Raul, David resolveu dar um conselho. "Acho que vocês deveriam se entregar e, se quiserem, eu posso levar vocês", disse. "Obrigado, mas estamos decididos a lutar até o fim", respondeu Valquíria. Em seguida, ela deu de presente a David um livreto com as propostas dos guerrilheiros para o Brasil. "Eu me lembro que eles queriam acabar com a pobreza daqui", lembra David. "Lamento sempre que tenha acontecido aquilo tudo com um pessoal que queria ajudar o povo do norte", conclui. Há cerca de um mês, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara desenterrou uma cabeça sem corpo no cemitério de Xambioá. Suspeita-se que seja de Valquíria.

Sinais da repressão

Ex-guia de soldados na selva amazônica revela a crueldade dos métodos utilizados pelos militares para subjugar guerrilheiros do PCdoB. O Correio Braziliense ouviu dezenas de depoimentos de camponeses que presenciaram as atrocidades.

Os moradores do Sul do Pará e do Norte do Tocantins passaram as últimas três décadas com medo. No palco da Guerrilha do Araguaia, a população ainda carrega o trauma do tempo em que o Exército, ajudado pela Marinha e Aeronáutica, combateu militantes do PCdoB. Foram necessários quase três anos de luta sangrenta, entre abril de 1972 e janeiro de 1975, para cerca de dez mil soldados derrotarem 69 comunistas.

Os governos dos presidentes Emílio Garrastazzu Medici e Ernesto Geisel aproveitaram-se da ditadura implantada no Brasil para manter o povo alheio ao que acontecia nas duas margens do rio Araguaia. A crueldade dos métodos usados pelos militares para obter informações sobre os guerrilheiros, porém, não sai da memória dos habitantes da região.

Durante duas semanas, a equipe do Correio Braziliense percorreu cerca de quatro mil quilômetros em busca de pessoas que aceitassem romper o silêncio para contar o que se passou na época da Guerrilha. O resultado foi dezenas de depoimentos estarrecedores. As pessoas eram proibidas de sair de suas casas nas cidades e as mulheres não podiam andar sozinhas porque temiam ser atacadas por soldados.
Velhos camponeses contaram com exclusividade como o Exército torturou e matou guerrilheiros e camponeses sem qualquer respeito à Convenção de Genebra, o regulamento internacional das guerras. Muitas vítimas não tinham qualquer relação com militantes do PCdoB.

As atrocidades narradas pelos sobreviventes parecem não ter limites. Em troca de recompensas financeiras oferecidas pelo governo federal, os militares apresentavam cabeças cortadas de guerrilheiros mortos. Cemitérios clandestinos foram criados e ainda hoje os familiares das vítimas não sabem onde elas foram enterradas.

Cícero Pereira Gomes, 68 anos, foi levado ontem pelo Correio à Comissão de Direitos Humanos da Câmara para contar o que viu durante os dois anos e três meses em que serviu de guia para o Exército. Tem medo de morrer pelas revelações que fez.
Os camponeses nunca tiveram quem reclamasse por seus mortos e torturados. Agora, o Brasil pode conhecer um pouco do que se passou com aquele povo.

A Guerrilha não será esquecida

As Forças Armadas, principalmente o Exército, quiseram apagar as marcas da Guerrilha do Araguaia. Até hoje não se sabe o local onde foram enterrados os militantes do PCdoB mortos nos confrontos com os militares no início da década de 70. Sabe-se que foram enterrados sem identificação ou queimados na Serra das Andorinhas. Os moradores da região tiveram de se desfazer dos vestígios do conflito armado para não serem acusados de cumplicidade com os comunistas. Pelo mesmo motivo, precisaram ficar calados sobre o assunto.

A Guerrilha começa a entrar para a história oficial de Xambioá, no Tocantins, quase trinta anos depois da morte dos últimos combatentes comunistas. Uma audiência pública convocada pelo prefeito Wilmar Leite Júnior, do PPB, aprovou a criação de um memorial para o movimento armado.

Os nove vereadores do município ficaram a favor da iniciativa. "A população perdeu o medo e sabe da importância da guerrilha para a história e o turismo da região", diz o prefeito.

O monumento planejado terá um museu com objetos relacionados à guerrilha, biblioteca e espaço para oficinas de arte. Abrigará também um mausoléu para enterrar os mortos da guerrilha. Falta saber se somente para os militantes esquerdistas, ou se também para os soldados que tombaram em combate.

Os sinais do interesse turístico começaram a aparecer nos últimos anos. Estudantes, professores, historiadores e militantes de esquerda têm visitado a região em busca de informações sobre a Guerrilha. Como atrativo Xambioá ainda oferece as belezas naturais do rio Araguaia e da Serra das Andorinhas, do lado paraense.

O clima de unanimidade no resgate da história da guerrilha começou há uns dois meses, quando a Comissão de Direitos Humanos da Câmara recebeu a ajuda da população para realizar escavações em busca de covas clandestinas. Os habitantes de Xambioá começavam a perder o medo.

O Correio publicou há duas semanas uma série de reportagens com depoimentos de camponeses sobre os métodos sanguinários usados pelos militares na repressão ao movimento armado. Contaram mais um pedaço da história da guerrilha. Vítima de torturas e desaparecimentos, a própria população tem interesse em mostrar para o restante do país o que foram obrigados a esconder até hoje.

A idéia de construção do memorial começou a deslanchar. O arquiteto Oscar Niemeyer desenhará o projeto e as verbas para a obra são esperadas de uma emenda do deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) ao orçamento da União.

Há muita expectativa na cidade para o que sobrou da Guerrilha. São poucas as peças remanescentes de que se tem notícia, mas aguarda-se o aparecimento de objetos escondidos pelos moradores. Pelo relato dos que viveram os tempos da Guerrilha, sabe-se que muitas armas dos militantes do PCdoB foram jogadas no rio Araguaia. Essa medida também fez parte do esforço militar de acobertamento de uma parte da história do Brasil.

VERMELHO.ORG.BR