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Eumano
Silva
Jornalista do Correio Braziliense
A
população local tem interesse
em mostrar para o restante do país o que foram obrigados a esconder até hoje
Militantes
comunistas caçavam na mata, tratavam doentes e jogavam futebol para conquistar
a simpatia dos nativos. São histórias que pessoas como Pedro Onça, João
Francisco, David Rodrigues jamais esqueceram.
Pedro Onça foi preso em Xambioá quando os militares descobriram em seu poder
uma lista de compras feita pelos guerrilheiros.
Pedro Sande, 66 anos, foi um dos maiores amigos dos guerrilheiros do PCdoB
durante os combates contra o Exército na década de 70. Ainda vive na região
dos Caianos, a 36 quilômetros do rio Araguaia, mesmo lugar onde morava quando
viu um militante comunista pela primeira vez.
Naquele tempo, a casa de Pedro era a mais distante do rio, cercada de floresta
amazônica por todos os lados. Ganhou fama de bom caçador e o apelido de Pedro
Onça. "Perdi a conta de quantos bichos matei", conta.
Os militantes do PCdoB ainda são conhecidos de Pedro Onça pelos nomes de
guerra. O médico gaúcho João Carlos Haas Sobrinho, por exemplo, é chamado de
Juca. A admiração de Pedro Onça pelos guerrilheiros começou quando Juca o
curou de uma malária. "Eles todos eram muito bons para tratar da
gente", afirma.
Vizinho do maranhense Pedro Onça, Juca era o responsável pelos serviços de
saúde da guerrilha. Especializou-se em doenças típicas da região, como
malária e leishmaniose. "Ele cobrava pelo serviço, mas se a pessoa não
tivesse dinheiro ele curava assim mesmo", conta Pedro Onça. Juca foi morto
num confronto com o Exército em setembro de 1972.
Paulo Mendes Rodrigues era o comandante do destacamento C, um dos três
grupamentos montados pelos guerrilheiros. Montou um pequeno armazém e também
vendia remédios nas margens do Araguaia. Nos anos 60, não havia farmácia em
Caianos.
O economista Paulo tornou-se amigo de Pedro Onça logo que chegou à região.
Quando o Exército descobriu a existência do movimento armado, Paulo fugiu com
os companheiros para o interior da mata e a casa de Pedro tornou-se um dos
principais pontos de referência.
Um dia Paulo procurou Pedro Onça com uma lista de compras escrita em um papel.
Como não podia aparecer, Paulo pediu que Pedro fosse à cidade para buscar
algumas encomendas. "Ainda falei para ele que aquilo podia ser perigoso,
dar rolo, mas ele insistiu e eu topei a parada", diz o caçador.
Um dos pedidos que Pedro se lembra era um par de botinas. Há muito tempo na
selva, um dos maiores problemas para os guerrilheiros era conseguir calçados.
Quando chegou a Xambioá, Pedro Onça foi procurado pelo Exército. Os militares
perguntaram se as compras eram para os guerrilheiros. Pedro negou, mas eles não
acreditaram. Bastou uma simples revista para que a lista de compras fosse
encontrada. "Fui preso na base de Xambioá e jogado num buraco redondo, de
uns três metros de fundura", diz.
Depois de passar a noite no buraco, Pedro Onça foi levado para São Geraldo,
Marabá e Bacaba, cidades paraenses onde também havia bases do Exército.
Apanhou, lavou pratos e tomou choques. Depois de 22 dias preso, foi liberado com
a condição de ajudar o Exército na captura dos guerrilheiros.
Foi uma época muito delicada para Pedro Onça. Era obrigado a andar pela mata
com os militares, mas nunca entregou os amigos. Às vezes, os comunistas
apareciam. Sempre conseguiam alguma coisa para comer. Quando o Exército pedia
informações, ele não mentia. Com isso, conseguiu sobreviver.
Pedro Onça hoje lembra com saudade dos tempos que os guerrilheiros chegaram a
Caianos. "Eles gostavam de caçar comigo", conta. "Teve até um
dia em que o Zé Francisco ficou com medo dos porcões do mato e subiu num pau
cheio de espinho", lembra, bem-humorado.
O nome verdadeiro de Zé Francisco era Francisco Manoel Chaves, um velho
militante comunista. Quando chegou ao Araguaia, tinha mais de 60 anos. Foi morto
pelo Exército em 1972.
Falante e hospitaleiro como nos tempos da guerrilha, Pedro Onça leva uma vida
feliz ao lado da mulher Francisca e cercado de filhos e netos. Ainda guarda a
mesma espingarda que caçava com os guerrilheiros e preservou um pedaço de mata
para os bichos cada vez mais escassos na região.
João Francisco Lima, 67 anos, foi um dos primeiros moradores de Caianos a se
encontrar com os guerrilheiros. Ainda hoje mora na mesma casa em frente ao rio
Araguaia, passagem obrigatória para quem atravessa de Araguanã, no Tocantins,
para a região de Caianos. "Eu me lembro direitinho quando chegou o
Paulo", diz, referindo-se a Paulo Mendes Rodrigues. "Ele falou que era
de São Paulo e comprou um pedaço de terra pertinho daqui".
Paulo apareceu na região em 1967. Nos meses seguintes, outros estranhos
desembarcaram na casa de tábua que ele construiu para morar e montar o pequeno
armazém. Passaram a ser conhecidos como "paulistas". Dos vinte
guerrilheiros do Destacamento C, a mais querida era Dinaelza Oliveira Teixeira,
a Dina.
Baiana do município de Castro Alves, cursou Geologia em Salvador, mas no
Araguaia todos pensavam que era médica ou enfermeira. "Muitas vezes ela
andou muitas horas na mata, de noite, para ajudar uma criança a nascer",
conta João Lima. De personalidade forte, Dina tinha fama de atiradora. Entre os
militares, foi tão temida quanto Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão,
principal líder da guerrilha. Carregava sempre um facão e um revólver na
cintura.
Filho de João Lima e vereador em Xambioá eleito pelo PFL, Carlos Cacheado
gostava de jogar futebol com os paulistas quando era criança. Nunca se esqueceu
da bola que ganhou do guerrilheiro Daniel Callado, um dos desaparecidos do
Araguaia. Também se recorda quando a professora comunista Áurea Valadão criou
a primeira escola de Boa Vista, um povoado seis quilômetros distante do
Araguaia.
João Lima levou um susto quando, durante uma viagem a Conceição do Araguaia,
no Pará, viu um cartaz com fotos dos forasteiros. Eram todos procurados como
"terroristas". Quando voltou para a roça, o Exército estava na casa
de Paulo. A partir daquele dia, os "paulistas" se embrenharam na mata
e assumiram o papel de guerrilheiros.
David Rodrigues de Souza, 70 anos, estava doente de malária quando os
guerrilheiros Raul e Valk chegaram em sua casa. Morava perto de Brejo Grande, no
sul do Pará. Raul era o pseudônimo do Antonio Teodoro de Castro, ex-estudante
de Farmácia no Rio de Janeiro. Valquíria Afonso Costa nasceu em Uberaba, Minas
Gerais, e abandonou o curso de Artes e Educação em Belo Horizonte para lutar
no Araguaia.
Naquele tempo, final de 1973, os militantes do PCdoB haviam amargado várias
derrotas. Depois de tomar um remédio contra malária receitado por Raul, David
resolveu dar um conselho. "Acho que vocês deveriam se entregar e, se
quiserem, eu posso levar vocês", disse. "Obrigado, mas estamos
decididos a lutar até o fim", respondeu Valquíria. Em seguida, ela deu de
presente a David um livreto com as propostas dos guerrilheiros para o Brasil.
"Eu me lembro que eles queriam acabar com a pobreza daqui", lembra
David. "Lamento sempre que tenha acontecido aquilo tudo com um pessoal que
queria ajudar o povo do norte", conclui. Há cerca de um mês, a Comissão
de Direitos Humanos da Câmara desenterrou uma cabeça sem corpo no cemitério
de Xambioá. Suspeita-se que seja de Valquíria.
Sinais
da repressão
Ex-guia
de soldados na selva amazônica revela a crueldade dos métodos utilizados pelos
militares para subjugar guerrilheiros do PCdoB. O Correio Braziliense ouviu
dezenas de depoimentos de camponeses que presenciaram as atrocidades.
Os moradores do Sul do Pará e do Norte do Tocantins passaram as últimas três
décadas com medo. No palco da Guerrilha do Araguaia, a população ainda
carrega o trauma do tempo em que o Exército, ajudado pela Marinha e
Aeronáutica, combateu militantes do PCdoB. Foram necessários quase três anos
de luta sangrenta, entre abril de 1972 e janeiro de 1975, para cerca de dez mil
soldados derrotarem 69 comunistas.
Os governos dos presidentes Emílio Garrastazzu Medici e Ernesto Geisel
aproveitaram-se da ditadura implantada no Brasil para manter o povo alheio ao
que acontecia nas duas margens do rio Araguaia. A crueldade dos métodos usados
pelos militares para obter informações sobre os guerrilheiros, porém, não
sai da memória dos habitantes da região.
Durante duas semanas, a equipe do Correio Braziliense percorreu cerca de quatro
mil quilômetros em busca de pessoas que aceitassem romper o silêncio para
contar o que se passou na época da Guerrilha. O resultado foi dezenas de
depoimentos estarrecedores. As pessoas eram proibidas de sair de suas casas nas
cidades e as mulheres não podiam andar sozinhas porque temiam ser atacadas por
soldados.
Velhos camponeses contaram com exclusividade como o Exército torturou e matou
guerrilheiros e camponeses sem qualquer respeito à Convenção de Genebra, o
regulamento internacional das guerras. Muitas vítimas não tinham qualquer
relação com militantes do PCdoB.
As atrocidades narradas pelos sobreviventes parecem não ter limites. Em troca
de recompensas financeiras oferecidas pelo governo federal, os militares
apresentavam cabeças cortadas de guerrilheiros mortos. Cemitérios clandestinos
foram criados e ainda hoje os familiares das vítimas não sabem onde elas foram
enterradas.
Cícero Pereira Gomes, 68 anos, foi levado ontem pelo Correio à Comissão de
Direitos Humanos da Câmara para contar o que viu durante os dois anos e três
meses em que serviu de guia para o Exército. Tem medo de morrer pelas
revelações que fez.
Os camponeses nunca tiveram quem reclamasse por seus mortos e torturados. Agora,
o Brasil pode conhecer um pouco do que se passou com aquele povo.
A
Guerrilha não será esquecida
As
Forças Armadas, principalmente o Exército, quiseram apagar as marcas da
Guerrilha do Araguaia. Até hoje não se sabe o local onde foram enterrados os
militantes do PCdoB mortos nos confrontos com os militares no início da década
de 70. Sabe-se que foram enterrados sem identificação ou queimados na Serra
das Andorinhas. Os moradores da região tiveram de se desfazer dos vestígios do
conflito armado para não serem acusados de cumplicidade com os comunistas. Pelo
mesmo motivo, precisaram ficar calados sobre o assunto.
A Guerrilha começa a entrar para a história oficial de Xambioá, no Tocantins,
quase trinta anos depois da morte dos últimos combatentes comunistas. Uma
audiência pública convocada pelo prefeito Wilmar Leite Júnior, do PPB,
aprovou a criação de um memorial para o movimento armado.
Os nove vereadores do município ficaram a favor da iniciativa. "A
população perdeu o medo e sabe da importância da guerrilha para a história e
o turismo da região", diz o prefeito.
O monumento planejado terá um museu com objetos relacionados à guerrilha,
biblioteca e espaço para oficinas de arte. Abrigará também um mausoléu para
enterrar os mortos da guerrilha. Falta saber se somente para os militantes
esquerdistas, ou se também para os soldados que tombaram em combate.
Os sinais do interesse turístico começaram a aparecer nos últimos anos.
Estudantes, professores, historiadores e militantes de esquerda têm visitado a
região em busca de informações sobre a Guerrilha. Como atrativo Xambioá
ainda oferece as belezas naturais do rio Araguaia e da Serra das Andorinhas, do
lado paraense.
O clima de unanimidade no resgate da história da guerrilha começou há uns
dois meses, quando a Comissão de Direitos Humanos da Câmara recebeu a ajuda da
população para realizar escavações em busca de covas clandestinas. Os
habitantes de Xambioá começavam a perder o medo.
O Correio publicou há duas semanas uma série de reportagens com depoimentos de
camponeses sobre os métodos sanguinários usados pelos militares na repressão
ao movimento armado. Contaram mais um pedaço da história da guerrilha. Vítima
de torturas e desaparecimentos, a própria população tem interesse em mostrar
para o restante do país o que foram obrigados a esconder até hoje.
A idéia de construção do memorial começou a deslanchar. O arquiteto Oscar
Niemeyer desenhará o projeto e as verbas para a obra são esperadas de uma
emenda do deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) ao orçamento da União.
Há muita expectativa na cidade para o que sobrou da Guerrilha. São poucas as
peças remanescentes de que se tem notícia, mas aguarda-se o aparecimento de
objetos escondidos pelos moradores. Pelo relato dos que viveram os tempos da
Guerrilha, sabe-se que muitas armas dos militantes do PCdoB foram jogadas no rio
Araguaia. Essa medida também fez parte do esforço militar de acobertamento de
uma parte da história do Brasil.
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