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  ESPECIAL
 Uma epopéia pela liberdade
 
Guerrilha do Araguaia 30 anos
(1972-2002)

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ARAGUAIA, PRESENTE ! Luiz Carlos Antero*

 

Terra e minérios: questão estratégico-militar

Hoje, o percurso do Araguaia oferece um cenário marcado pela devastação, atestando que os acontecimentos serviram ao contexto da liquidação de um projeto nacional de desenvolvimento. No tráfego de Marabá a São Geraldo e Xambioá, cruzando São Domingos do Araguaia e a reserva indígena Suruí-Sororó - único bolsão de mata densa, protegido por uma certa aura de ferocidade nativa -, o transeunte é invadido pela sensação de circular por um quase semi-árido, aqui ou acolá com uma visão de floresta. São largas as margens da Transamazônica e das estradas operacionais (OPs) construídas para rasgar a selva que, há 30 anos, protegia os guerrilheiros e seus semelhantes - os pássaros e todas as múltiplas espécies, movimentos, penumbra, cores e cantos de uma pródiga natureza.

A paisagem atual demonstra que ali, na verdade, aconteceu um confronto entre duas concepções de desenvolvimento num pedaço estratégico da Amazônia, em seu simbólico portal de acesso, na região conhecida como Bico do Papagaio, confluência do Pará, Goiás e Maranhão, delimitada por Marabá, Araguaína, Xambioá - hoje extremo norte de Tocantins - e Imperatriz. Estão ali os sinais de que, efetivamente, a guerrilha não foi combatida tão somente pela oposição que representava ao regime militar, mas pelas riquezas da região, em especial os seus minérios - o chão de uma rica área cobiçada pelo imperialismo.

Foi o momento crítico de uma sucessão secular de acontecimentos registrados pela historiografia, sempre voltados para o controle da Amazônia e protagonizados por diversas nações (Inglaterra, França, Holanda), mas sobretudo pelos EUA, após a independência política do Brasil, em 1822.

Em busca do domínio de todo o hemisfério - em nome do "destino manifesto" dos Estados Unidos da América -, diversas expedições, desde a altura de 1840, vieram ao Brasil. A abertura dos rios brasileiros à navegação estrangeira e a migração de fazendeiros e negros norte-americanos para o vale do Amazonas, entre outras propostas, ocupavam a proa da tese da internacionalização de uma região que, sempre disseram, não podíamos explorar. Em 1895, essas pressões culminaram na disputa do Acre - o Tratado de Tordesilhas atribuiria o território à Bolívia -, quando a borracha fomentava a cobiça internacional. A entrega do território à empresa Bolivian Syndicate, de Washington, criada para atuar na região e que tinha como sócio um filho de Theodore Roosevelt, era a solução norte-americana. O caudilho Plácido de Castro, à frente de uma movimentação de seringueiros - a maioria cearense - em pugna por seus empregos, resolveu a questão a favor do Brasil, ocupando o Acre em 1903.

Na segunda metade do século XX, já no regime militar, a ocupação econômica mostrou-se estrategicamente mais eficaz que a meta da imediata internacionalização, visto que a vocação entreguista predominante no País facultou planos de desenvolvimento com facilidades inacreditáveis como os incentivos fiscais. A venda de terras a estrangeiros inspirou inclusive a criação de uma CPI em 1968 - de iniciativa do então deputado Márcio Moreira Alves, protagonista do episódio que foi o pretexto para o novo golpe do AI-5. Naquele momento, quase 160 mil quilômetros quadrados de território nacional estavam alienados. Pouco mais de três anos antes do início da Guerrilha, a CPI denunciava o intenso aporte de empresas multinacionais em áreas da Amazônia examinadas em levantamentos feitos com ajuda da USAF, "inclusive com jazidas minerais desconhecidas das autoridades brasileiras".

Em 1984, menos de dez anos após o fim das operações militares na região do Araguaia, as terras da Amazônia apropriadas pelas multinacionais beiravam o teto de 500 mil km2, articulados a gigantescos complexos industriais e de mineração. Mas ainda tinham muito pela frente num território de cinco milhões de km2 e uma expectativa de exploração madeireira de 50 bilhões de metros cúbicos, além de uma fantástica biodiversidade e de incalculáveis riquezas.

Nos anos 60 e 70 já estava em curso a meta de acelerar o desenvolvimento do capitalismo no campo, estimulando a concentração fundiária, quando a questão da terra (e do subsolo) tornava-se uma questão militar. A ditadura oferecia uma política para as grandes empresas, mediante incentivos financeiros, voltando-as para a grande agropecuária. A origem disso estava no próprio golpe militar de 1964, que, entre outros objetivos, buscou modernizar os coronéis latifundiários e travar o crescimento das lutas camponesas, que construíam suas organizações desde meados dos anos 50. Em pleno curso da Guerrilha, substituiu os simpatizantes da reforma agrária nos cargos ministeriais por outros, adeptos da expansão das grandes empresas no campo.

A Transamazônica (seus 1254 quilômetros iniciais, entre Estreito, no vale do Rio Tocantins, e Itaituba, na margem esquerda do Tapajós) foi inaugurada no dia 25 de setembro de 1972 em pleno curso da segunda campanha de cerco e aniquilamento da Guerrilha, a poucos quilômetros dali, por Garrastazu Médici. O então ministro dos Transportes, Mário Andreazza, comandava a construção da estrada que cortaria o chamado "mar vermelho", abrindo caminho para o assentamento pelo Incra de 500 mil famílias nordestinas às margens da rodovia, servindo à expansão da fronteira agrícola, reduzindo a pressão social sobre a terra no Nordeste e colocando mão de obra à disposição das empresas que se instalavam.

Em fins de 72, entretanto, o assentamento populacional alcançado era inferior a dez mil (em torno de 2% do anunciado), resultando numa frustração das metas anunciadas. Até por essa razão, o início do confronto, forçado pela descoberta da área, naquele momento não favorecia as forças guerrilheiras, que, além da preparação incipiente, dependiam dessa densidade demográfica para uma guerra que se previa como "dura e prolongada".

Mesmo assim, a Guerrilha estendeu-se por quase três anos onde a tradição era de violência dos conflitos; acentuados nos anos 70 pela grilagem de terras tolerada e estimulada pelos mesmos que pretendiam promover a migração massiva. Romualdo Pessoa Campos Filho - autor de Guerrilha do Araguaia, a esquerda em armas, uma das mais brilhantes pesquisas sobre o tema - qualifica como "oficial" essa grilagem, que colocava em oposição levas de nordestinos que "se estabeleciam em áreas de posse sem qualquer tipo de documentação" e grandes empresas que se expandiam grilando terras com apoio em jagunços e na polícia militar, falsificando documentos sob as bênçãos do Estado. Chocava a violência ali praticada: de 1971 a 1976, um em cada dois conflitos resultava em mortos e feridos, e mais de 50% em mortes.

Nesse ambiente, as multinacionais e as grandes empresas nacionais, com suas agropecuárias, madeireiras e mineradoras (Bradesco, Volkswagen, Jarí, Kings Ranch, Bamerindus, Manah, Óleos Pacaembu, Nixdorf, Supergasbrás, Lunardelli, United States Steel, Icomi, Meridional, entre outras), ocupavam desenvoltas a imensidão verde das matas. Naquele momento, o protagonista militar fundamental do combate à Guerrilha, o general Médici, era fotografado lado a lado com Daniel Ludwig, dono da Jarí, em seu território brasileiro. Com tais compromissos, a possibilidade de uma zona liberada e internacionalmente reconhecida no Araguaia arrepiava os generais.

Foi nesse mesmo ambiente que os comunistas - marcados para morrer nas grandes cidades - se instalaram para oferecer ao povo uma perspectiva de luta e de emancipação, postando-se ao seu lado num terreno onde poderiam impor (e impuseram) derrotas às forças da repressão e do imperialismo, frustrando em 1972, a partir de 12 de abril, as duas primeiras campanhas de cerco e aniquilamento realizadas. Até o ponto de subestimar o inimigo, apesar da inexperiência militar - debilidades observadas pelo relatório de Ângelo Arroyo, do Comitê Central do PCdoB e membro da Comissão Militar.

Agentes das trevas (ou a face oculta do Estado)

"Os documentos sobre os episódios da luta armada, sejam sobre a guerrilha no Araguaia ou urbana, só devem ser revelados daqui a cinqüenta ou 100 anos", dizia o general Gilberto Serra, porta-voz do Ministério do Exército (Veja, 13/10/93). Nessa linha de comportamento, que corresponde à renitente face oculta do Estado, e de acordo com a mesma fonte, Sebastião Rodrigues de Moura, o Curió, o mais emblemático elemento da "comunidade de informações", manteria no escritório de sua casa dois documentos importantes que deveria ter destruído mas preferiu guardá-los. Sob o brasão da República e a inscrição "Ministério do Exército - Gabinete do Ministro", há um relato minucioso sobre as três campanhas do Exército no Araguaia. Em 30 páginas, informa-se o número de soldados destacados para a região, o tempo que ali permaneceram, o tipo de armamento que carregavam e o número de baixas. Menciona-se ainda nomes de cerca de vinte guerrilheiros, divididos em três categorias: mortos, desaparecidos e presos. Quem teve a oportunidade de ler a relação constatou que os presos nunca apareceram. Mas Curió disse a O Globo (05/4/98): "São relatórios pessoais. Os documentos oficiais, entre eles os depoimentos dos presos políticos, estão em Brasília".
Portador fiel de segredos inconfessáveis, confirmou a informação de que o CIEx, coordenador das operações que culminaram com a morte de 92 militantes do PCdoB na guerrilha do Araguaia, mantinha um agente infiltrado na cúpula do Partido. Este agente repassou aos militares todas as informações que resultaram na morte de três dirigentes do Comitê Central a 16 de dezembro de 1976, no episódio que ficou conhecido como Massacre da Lapa: Manuel Jover Teles, um dos históricos do PCB, com passagem pelo extinto Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e que se incorporou ao PCdoB em 1967 era um espião do Exército e informou ao CIEx o local da reunião da cúpula do PCdoB (JB, 5/4/92).

O Exército revelava aí a apreensão do diário do dirigente comunista Maurício Grabois, executado no Natal de 1973: "Ao ler-se o Diário Grabois, onde ele mencionava sua ida ao Xingu por várias vezes, somente acompanhado por elementos da Comissão Militar, conclui-se que membros do CC (Comitê Central) pretendem conduzir para o futuro a guerrilha rural e a luta armada" (O Globo, 7/4/98).

Curió é um ferrenho anticomunista que tem trajetória. Em 1961, como tenente, foi preso por posicionar-se contra a posse de João Goulart na Presidência da República. Foi ativo conspirador em 1964, chegando à condição de quadro do Centro de Informações do Exército (CIEx), a partir de 1971. Durante uma cerimônia militar reservada, o general Orlando Geisel, então ministro do Exército, concedeu-lhe a mais alta honraria das Forças Armadas Brasileiras - a Medalha do Pacificador, com palmas. "Sem palmas, muita gente tem. Mas com palmas, são poucas", disse à imprensa.

De acordo com as mesmas fontes, no dia 12 de outubro de 1977, quando o general Sylvio Frota foi exonerado do Ministério do Exército pelo então presidente Ernesto Geisel, Curió teria recebido a incumbência do próprio Frota para levar à força, ao seu gabinete, os generais de quatro estrelas que desembarcassem em Brasília. Como era feriado, Curió foi para o aeroporto com 15 agentes armados e não seqüestrou os generais porque recebeu uma contra-ordem à última hora. No final do mesmo dia, chegou a sugerir a invasão de um batalhão de blindados para tomar o Palácio do Planalto e derrubar o general Geisel - idéia que até o general Frota achou radical.
Um dos seus parceiros no Massacre da Lapa e na frustrada tentativa de golpe, o torturador Brilhante Ustra, tornou-se conhecido pelos presos políticos como "Doutor Tibiriçá". Quatro presos políticos morreram nas dependências do DOI do II Exército, em São Paulo, entre 1969 e 1973, época em que Ustra dirigiu a maior central de repressão política do país. O dirigente do PCdoB Carlos Nicolau Danielli foi torturado durante três dias sob o seu comando (que incluía o capitão Dalmo Lúcio Muniz Cirillo e o "capitão Ubirajara"- delegado de polícia Aparecido Leite Calanda) e, nessas circunstâncias, assassinado. Uma das vítimas de suas sessões de tortura foi a ex-deputada Bete Mendes, que, em agosto de 1985, o reencontrou quando acompanhava a comitiva do ex-presidente José Sarney numa visita ao Uruguai. E revelou publicamente que Ustra, bem acomodado em funções de confiança no Estado, era o mesmo "Tibiriçá" (Veja, 26/2/86).

Segundo a Veja (10/2/93), acreditando-se acima de qualquer lei ou punição, este ex-deputado que dominou o garimpo de Serra Pelada, onde hoje é odiado, e tem uma cidade em homenagem ao seu nome (Curionópolis, onde ocupou a prefeitura), embrenhou-se no mato nas cercanias de Brasília e disparou contra dois adolescentes, matando um e ferindo outro. Suspeitava que os dois haviam roubado uma televisão e um rádio-relógio de sua chácara e decidiu caçá-los. Acrescentou um novo cadáver à sua biografia, que inclui a participação direta ou indireta em mais de 100 mortes. Mais tarde, Curió abriu três covas maiores, onde estariam no total sessenta ossadas. Para garantir que o lugar definitivo dos corpos nunca fosse revelado, fez um pacto com os três auxiliares: quem revelasse o segredo seria morto pelos outros. A versão coincide com o episódio narrado pelo coronel Pedro Corrêa Cabral em sua "novela baseada em fatos reais".

Exemplarmente, uma dessas ossadas seria da jovem Suely Yomiko Kanayama, que teria sido executada no final de 1974. Suely ficou enterrada na base militar de Bacaba, onde, sob o comando do CIEx, foram construídas celas destinadas a prisão e interrogatório dos prisioneiros. Segundo Cabral, a cova foi aberta durante a operação limpeza, o corpo de Suely foi desenterrado e, sem roupa, a pele muito branca, não apresentava nenhum sinal de decomposição, além dos sinais da morte à bala. Um militar tentou erguer o cadáver com uma pá, mas ele escorregou e, após várias tentativas o corpo de Suely voltava para a cova. Irritado, o militar gritou, impaciente, entrou na cova e, abraçado ao cadáver, o levou para cima, colocou-o num saco plástico e o transportou de helicóptero para um ponto ao sul da Serra das Andorinhas, a 100 quilômetros de distância, embaixo de uma palmeira frondosa. Ali, diz Cabral, alguns brasileiros fizeram uma pilha de cadáveres de outros brasileiros, também desenterrados de outros locais, cobertos com pneus velhos e, com gasolina, incendiados.

O pernambucano Napoleão Sabino de Oliveira, ex-sargento da Aeronáutica mencionou a mesma lembrança do dia em que viu o corpo de uma mulher, "enfermeira japonesa" ser desenterrado e queimado. Ex-mecânico de vôo do Douglas prefixo 2502 da FAB, um avião de passageiros modificado para facilitar o transporte de tropas, contou também sobre o "dia que transportamos cinco jovens (três rapazes e duas mulheres) algemados e encapuzados de Xambioá para Brasília. Pelo sotaque, percebeu que eram paulistas: eles pareciam saber o que ia acontecer". Ao chegar em Brasília, os cinco jovens foram colocados numa camioneta e Napoleão nunca mais os viu. Durante os anos em que permaneceu na Aeronáutica, Napoleão ouviu muitas histórias sobre mortes, relatadas por companheiros de farda (Diário Catarinense, 30/7/95). 
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*Luiz Carlos Antero
Sociólogo, jornalista e integrante da Comitiva Oficial da Câmara Federal que visitou a região do Araguaia em 2001

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