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arra a História que, cerca de
dois anos após o golpe militar de 1964, as selvas da região do Bico do
Papagaio - na confluência dos estados de Goiás (em sua parte que hoje pertence
ao Estado do Tocantins), Pará e Maranhão - começaram a receber novos
moradores, egressos das grandes cidades, onde o regime militar praticava a
perseguição política, a tortura e os assassinatos em larga escala. Marcados
para morrer pelas forças da repressão, dezenas de antigos quadros e jovens
militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) foram daí por diante se
deslocando rumo ao que viria a ser o palco de uma destacada jornada de luta do
povo brasileiro pela liberdade e pelos seus direitos fundamentais.
Uma parcela dos melhores filhos desse povo, recusando-se à capitulação,
decidia ali conduzir às mais elevadas conseqüências a resistência ao regime
militar que, apoiado pelos desígnios imperiais dos Estados Unidos, planejava se
prolongar indefinidamente no Brasil, reproduzindo regimes discricionários de
longa duração como os de Franco, na Espanha, e de Salazar, em Portugal, na
onda de golpes de estado em curso na América Latina.
Em pleno andamento da preparação das forças guerrilheiras que promoveriam uma
resistência armada dura e prolongada contra os generais golpistas, os novos
moradores do Araguaia foram surpreendidos por um ataque militar de porte. Desde
então, as forças militares oficiais empreenderam três campanhas de cerco e
aniquilamento contra os guerrilheiros do PCdoB numa movimentação que durou
mais de três anos, encerrando-se em 1975, em pleno governo do general Ernesto
Geisel. Como disse um oficial da Marinha - hoje na reserva, trabalhando no
Superior Tribunal Militar - ao autor, o general-presidente Emílio Garrastazu
Médici teve como incumbência exterminar a Guerrilha e passar o governo ao seu
sucessor, general Ernesto Geisel, que promoveria sua "abertura lenta,
gradual e segura", mas não cumpriu a meta antes de meados de 1975,
possivelmente até julho, com a permanência das tropas na região. O final da
Guerrilha foi formalmente anunciado no dia 31 de janeiro para que Geisel tivesse
o respaldo da "pacificação" no início de seu governo - e constando
em sua mensagem presidencial.
Na verdade, o grande derrotado foi o regime militar, pois a decantada
"abertura" deveu-se aos atropelos causados pela resistência do povo
brasileiro desde os primeiros momentos do golpe militar e, no auge do confronto,
pelo ousado golpe frontal oriundo da Guerrilha do Araguaia, enquanto momento
culminante da resistência armada de vanguarda do povo brasileiro, e pela
vitória do MDB em 1974. Com o seu desfecho, veio o pretexto para a
"abertura", mas os generais previam como inexorável a reorganização
da resistência à ditadura.
Médici empregou, estimativamente, cerca de dez mil homens nas operações
militares, mas uma guerra de tal dimensão foi secreta e transcorreu de modo que
as escaramuças não chegavam ao conhecimento da população: notícias de
operações de guerra chegavam ao Congresso Nacional, mas os discursos eram
censurados e nem a imprensa internacional conseguia obter acesso a informações
precisas sobre os acontecimentos.
No dia 12 de abril de 1972 as cidades de Marabá e Xambioá, em pontos extremos
de um extenso território onde atuavam três destacamentos guerrilheiros
(Gameleiro, Caiano e Faveiro) com 69 homens e mulheres, foram convertidas em
quartéis de um contingente aproximado de 2,5 mil militares das Brigadas de
Infantaria da Selva (BIS) e de outras unidades, somados a efetivos de Brasília
e do Rio de Janeiro, além do pessoal do Comando Militar do Planalto. Foram
montados também acampamentos em São Geraldo, Araguanã e Araguatins. Todo esse
aparato sofreu vexames e baixas ao tentar penetrar na selva e promover o combate
contra os guerrilheiros em seu "santuário" - misterioso, denso e
protegido pela intensa penumbra até durante o dia.
Tropas do Exército, aviões e helicópteros da Força Aérea Brasileira (FAB),
lanchas da Marinha, provenientes de diversas regiões brasileiras, reforçaram
em profusão os efetivos quando os generais firmaram a convicção de que se
tratava de um fruto do planejamento estratégico do PCdoB que, conquistando a
simpatia da população, pretendia resistir à truculência da investida da
repressão. Com as derrotas sofridas, Médici passou a incorporar tropas
especializadas, e inclusive a Brigada de Pára-quedistas do Exército, sediada
no Rio de Janeiro; uma tropa de elite preparada para sobreviver na selva, com
curso teórico e prático de guerra antiguerrilha; e o Comando de Operações na
Selva e Ações Antiguerrilha (COSAG), com seus instrutores e pessoal de
coordenação.
"Houve talvez uma má avaliação da situação militar dos guerrilheiros.
Esperava-se encontrar uma coisa mais fácil e que apenas a presença dos
soldados fosse assustá-los, e eles fossem logo dominados, sem necessidade de
tropa de elite. Se na época houvesse uma guerrilha espalhada pelo território
nacional, o governo não teria condições de segurar o Brasil todo",
analisou um oficial graduado para o jornalista Fernando Portela.
A polícia militar tratou de indicar para as tropas oficiais todos os que
mantinham relações com o "povo da mata": expressivo número da
população dos lugarejos e moradores de Marabá e Xambioá. Os postos de
patrulhamento que então já pontilhavam as rodovias Transamazônica,
Belém-Brasília e PA-70, passaram a investigar todos os transeuntes, a parar
todos os veículos, a prender todos os assemelhados aos "paulistas".
Moradores de Marabá contam que o Exército costumava realizar manobras na Praia
de Tucunaré, atirando bombas para intimidar os simpatizantes da Guerrilha.
Efetivamente, os guerrilheiros lograram êxitos porque contavam com o apoio da
população local, que resistiu à colaboração, recusando-se - em sua maioria
- a apontar os acampamentos guerrilheiros. Buscando a adesão forçada, mediante
o uso da violência para que os mateiros servissem como guias, os pelotões do
Exército eram ludibriados, caminhando em círculos na selva dias a fio. Como
resultado, os soldados somente capturavam doenças tropicais (malária,
leishmaniose etc.), e simplesmente desertavam ou sucumbiam em confrontos casuais
na selva entre as tropas legalistas. Os números das baixas oficiais também
nunca foram revelados, podendo atingir até mais de duas centenas de militares.
Um relatório do Centro de Informações do Exército (CIEx) que veio a público
em 1992 revelou que o Estado Maior do Exército, sob o comando do general
Orlando Geisel, decidiu abandonar as operações regulares de combate à
guerrilha no dia 9 de novembro de 1972, reconhecendo a frustração das duas
primeiras campanhas contra as Forças Guerrilheiras do Araguaia (FORGA). O
relatório apontava o ex-deputado federal Maurício Grabois - líder da bancada
comunista na Constituinte de 1946 - como comandante militar da guerrilha, acima
dos três comandos (A, B e C), liderados respectivamente por André Grabois,
Osvaldo Orlando Costa e o economista Paulo Mendes Rodrigues, admitindo que a
Guerrilha contava apenas com armas precárias. Informava também que
permaneceriam no Araguaia tropas das polícias militares do Pará, Goiás e Mato
Grosso, sob o comando do Exército sediado em Marabá (Jornal do Brasil,
22/3/92).
A partir daí, a "Comunidade de Informações" (o SNI, o DOI-CODI e o
CIEx do Exército, o CISA e o CENIMAR da Aeronáutica e da Marinha) passou a
qualificar o confronto como "guerra suja" e, após quase um ano de
espionagem junto à população, os militares voltaram decididos a praticar a
barbárie. Centenas de moradores do Araguaia, retirados de suas moradias,
tiveram suas casas e plantações queimadas, foram presos, torturados,
submetidos às mais cruéis humilhações, mutilados, conduzidos aos limites, e
além, da loucura. Uma parcela ainda hoje incalculável foi executada, outros
desapareceram da região.
Xambioá ficou marcada pelos chamados "buracos do Vietnã" onde os
suspeitos de colaborar com a guerrilha eram mantidos e de onde, comprovado
qualquer envolvimento, eram retirados e assassinados. Dirigentes do PCdoB foram
barbaramente executados nas grandes cidades, completando a meta de isolar os
guerrilheiros na mata. A Igreja Católica, de Marabá a São Félix, tornou-se
vítima de uma gangorra persecutória que atingiu indistintamente o baixo e alto
clero.
Ainda no início deste novo século, os arquivos acerca dessa guerra secreta
permanecem vedados ao domínio público, mas hoje já é possível uma
avaliação panorâmica dessa fase da nossa História, que se encadeia a muitas
outras lutas do nosso povo, entre as quais se incluem episódios memoráveis
como a Cabanagem, Guararapes, Canudos, Contestado, Revolta da Chibata, Quilombo
dos Palmares, Revolução dos Alfaiates, o Levante de 1935 e, atualmente, os
movimento que lutam por terra.
Como veremos, também na saga do Araguaia, a semente brotou!
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