Brasil

9 de janeiro de 2018 - 10h59

O reacionarismo atual tem berço: o nazi-fascismo


Fotomontagem
   
Um tema recorrente sobre a aceitação das ideias reacionárias por muita gente, especialmente nos anos que vivemos, no Brasil e no mundo, diz respeito a como é possível esse tipo de coisa acontecer, como é possível que tanta gente defenda tais ideias. Não é difícil de entender e a história ajuda na compreensão. Ideias reacionárias são aceitas porque são simplórias, propõem “soluções” simples para problemas complexos e geralmente são focadas em meia dúzia de formulações que não se sustentam sob quaisquer análises críticas, mas são muito fáceis de serem compreendidas pelo “homem comum do povo” e setores da classe média.

Premidos por crises, desesperança e ausência de uma educação de qualidade fortemente embasada em uma formação humanística, fica fácil se sentirem atraídos por “salvadores da pátria portadores das verdades e soluções”. No mundo cristão ocidental – do qual somos parte – isso tem um nome: messianismo! Serve para políticos e pregadores da “verdadeira fé”. Quem entre nós nunca ouviu a seguinte conversa: “O Brasil precisa de um homem que mude as coisas”? Como se apenas vontade de quem quer que seja mudasse alguma coisa. Como se os problemas que assolam a sociedade pudessem ser mudados sem alterações profundas nas relações de produção e nas relações sociais que dela brotam. Mas o simplismo do pensamento tem força. E muita!

Apenas um exemplo: para o problema da segurança pública, é muito mais fácil o sujeito acreditar que “bandido bom é bandido morto”, que leis mais duras e polícia nas ruas matando à vontade resolvem, do que raciocinar em termos globais sobre as causas da violência e da criminalidade, invariavelmente ligadas à pobreza/miséria em larga escala e acumulação de riquezas por poucos, como é típico no capitalismo. Contudo, vítima e assustado com a violência, o “homem comum do povo” é facilmente atraído para propostas assim, que não resolvem nada, ao contrário, mas soam como respostas imediatas para um problema real. Quantos de nós já não ouviram por aí que “o ideal seria jogar bombas nas cadeias para matar todos os presos”? Geralmente as pessoas não se dão contam de que o nosso sistema de acumulação de riqueza cria ladrões, traficantes e assassinos em escala industrial.

O simplismo das respostas reacionárias, geralmente desprovidas de verdade e consistência científica, galvanizou e galvaniza multidões ao longo do tempo. O exemplo mais recente é o nazi-fascismo dos anos 20 e 30 do século 20. Qualquer observação minimamente adequada para suas respostas aos problemas vivenciados pelos povos que adotaram aquelas ideologias e para os modernos nazi-fascistas – disfarçados ou explícitos como os supremacistas raciais na Europa e EUA ou boçalidades infantis como o bolsonarismo entre nós – revela o apelo para o uso da força, da violência como resolução dos problemas, da agressão aos diferentes (às minorias, se quiserem, muitas vezes nem tão minorias assim), da imposição da “ordem absoluta” pelo Estado, chefiado por um líder supremo – que se torna, ou se tornaria, o único detentor da verdade e da vontade coletiva. O reacionarismo anda de braços dados com o irracionalismo.

Entre nós, o reacionarismo, a simplificação absurda do entendimento dos fenômenos sociais, políticos e econômicos tem longa data, remonta ao período colonial e ao catolicismo reacionário produzido na Idade Média europeia e que se arrastou por séculos a fio. Um catolicismo que abençoou a escravidão dos africanos e deu base teológica para considerar o negro como inferior e naturalmente apto à submissão completa da escravidão. Esse reacionarismo chega até nós, do século 21, após ser reciclado diversas vezes na história brasileira, especialmente durante a ditadura militar (1964-85), que além da disseminação em massa de ideias atrasadas para manter o povo longe de ideias “comunistas” e sob controle, o que funcionou bem até o final dos anos 1970 quando a crise econômica cobrou o preço político dos ditadores militares e civis que apoiavam o regime. Um reacionarismo que eliminou das universidades, por exemplo, a maior parte da formação humanística nas carreiras técnicas, gerando a formação de bons profissionais nas suas áreas mas geralmente alheios sobre a efetiva dinâmica da sociedade brasileira.

Esse reacionarismo está sempre a serviço da manutenção do sistema de acumulação de riqueza e poder. Sempre, invariavelmente. E por servir a tal propósito, ele é disseminado cotidianamente, às vezes de modo sutil, às vezes escancaradamente, por grandes meios de comunicação de massa, geralmente grandes empresas capitalistas cujos proprietários são famílias bilionárias, sócias diretas ou indiretas de outros gigantescos grupos empresariais privados, e que querem a todo custo manter o sistema em pleno funcionamento porque isso as beneficia intensamente.

No período que estamos vivendo, o reacionarismo disseminou a ideia – de novo simplória e irreal – de que os problemas do Brasil estão ligados à corrupção e que os partidos de esquerda, genericamente taxados de “petistas ou comunistas” saquearam o país e que isso resultou na crise econômica que atingiu o país a partir de 2013/14. Ora, se o problema era a corrupção e o “petismo-comunismo” ou “lulo-petismo”, a resposta era simples: destruam tudo relacionado a isso, derrubem o governo deles, prendam os corruptos e tudo estará resolvido. Ideias marteladas dia a pós dia, 24 horas por dia pelos jornais, rádios, TVs, portais de internet. E como vimos, de novo, o simplismo da resposta para os problemas levou o país à hecatombe. Porque é sempre assim. Mas é assim também que as classes dominantes vão mantendo seu controle. E é importante frisar que todas, repito, as ideias reacionárias hoje em moda estavam presentes na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini, na Espanha de Franco, em Portugal de Salazar. Basta consultar a História para conferir. A quem concorda com elas, sugiro levantar o braço e saudar o líder com o nefasto grito “Sieg Heil”. Como disse Mano Brown em Diário de um Detento, “Adolf Hitler sorri no inferno”.




 *Altair Freitas é professor e secretário executivo da Escola Nacional de Formação do PCdoB

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