Cultura

13 de agosto de 2017 - 6h41

Joan Edesson: Capistrano de Abreu - história, povo e nação


Capistrano de Abreu incorporou o povo ao estudo da história do Brasil Capistrano de Abreu incorporou o povo ao estudo da história do Brasil
Capistrano foi o principal nome da historiografia brasileira na passagem do século dezenove para o vinte, tido como elo entre a produção de Francisco Adolfo Varnhagen e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no século XIX, e a corrente modernista representada por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior, nas décadas de trinta e quarenta do século XX (GONTIJO: 2007, 41).

A sua contribuição para o conhecimento do Brasil e do seu processo de ocupação foi valiosíssima. Até à publicação de Caminhos antigos e povoamentos do Brasil ninguém, na nossa historiografia, tratara do tema com tanta percepção e com tanta abundância documental. José Honório Rodrigues afirmou que Capistrano renovou “não só a fisionomia mas a própria vida dos estudos históricos brasileiros” (RODRIGUES: 2000, 4).

Os Capítulos de história colonial, magnífica obra do mestre cearense, retiram a historiografia do litoral e da costa, onde ela andava até o século dezenove, e a faz mergulhar nos sertões, naquilo que constituiu uma verdadeira obsessão para Capistrano. Para ele, como revela em carta a João Lúcio de Azevedo, não havia “questão mais importante que a ruptura da grande curva do S. Francisco, a passagem dos Cariris e da Borborema, a entrada no Parnaíba, o caminho terrestre de Maranhão a Bahia” (ABREU: 1977b, 16).

Quando Capistrano de Abreu apareceu na historiografia brasileira, esta centralizava seu interesse especialmente nas comunidades do litoral. Ele viu o sertão e o caminho como processo de incorporação e dilatação da fronteira ocidental: era um campo novo, um método de investigação e interpretação original da formação colonial do Brasil. O sertão e os caminhos são um fato de criação da vida brasileira. (RODRIGUES: 1977b, LIII)
 
A história colonial naquela parte do Brasil compreendida entre os rios São Francisco e Parnaíba era para Capistrano o verdadeiro “nó de nossa história”, como revela em outra carta ao mesmo João Lúcio de Azevedo (ABREU: 1977b, 82). Os Capítulos... constituíram “a melhor síntese, que até agora possuímos, da formação de nosso país” (VIANNA: 1999, XXXIX).

Para além dos sertões, a grande preocupação de Capistrano era o povo. Foi com ele, sem dúvida, que o povo brasileiro entrou na história pela primeira vez. A produção historiográfica até então tinha como centro os chamados grandes vultos das elites e da aristocracia. O que tínhamos, até ele, era uma história sem povo. Capistrano inovou ao introduzir o povo na historiografia brasileira. Em carta a João Lúcio de Azevedo ele declarou: “A mim preocupa o povo, durante três séculos, capado e recapado, sangrado e ressangrado...” (ABREU: 1977b, 166).

José Honório Rodrigues afirma que para Capistrano a história era também a emoção, o sentimento e o pensamento dos que viveram. Capistrano queria, “como bom historiador, colocar-se em simpática comunhão com o espírito dos atores e autores do drama” (RODRIGUES: 1977b, XLVI).

Não era a gente de ficção que andava em suas páginas, mas a gente real e concreta, que vivera e trabalhara. Ele dava, assim, carne e sangue à sua história e, como historiador, achava mais bela a verdade que a novela. Os ideais variam tanto de século a século que era natural que nos Capítulos de História Colonial fosse agora o povo a personagem principal. Sim, aqui se vê o povo capado e recapado, sangrado e ressangrado. Mas, para vê-lo assim era preciso ter tido a formação que o próprio Capistrano se dera, ler o que ele lera, os clássicos, os liberais, os socialistas, os radicais, e viver livre de interesses e proveitos. (RODRIGUES: 1977b, XLIX)
 
A preocupação do historiador com o povo não dizia respeito apenas à sua centralidade na história, ele também se preocupava com a formação e as características do povo brasileiro. Antecipando-se em décadas à formulação de Darcy Ribeiro, que caracterizava o povo brasileiro como uno e novo, Capistrano, em carta a Mário de Alencar, já colocava a dúvida: “E além disto a questão terebrante: o povo brasileiro é um povo novo ou um povo decrépito?” (ABREU: 1977a, 226) em 1910).

Capistrano, com todo o seu aparente pessimismo, era também um homem animado de patriotismo, que amava, admirava o Brasil e esperava muito dele (RODRIGUES: 1977b, LVI). O historiador sabia das dificuldades de construção de um grande país como o nosso, como revelou em mais uma correspondência a João Lúcio de Azevedo: “O futuro reserva ao Brasil um trabalho muito mais árduo que o dos holandeses, obrigados a fazer a Holanda depois de Deus ter feito o mundo” (ABREU, 1977b, 108).

Quando Capistrano começou a estudar e a escrever sobre a história do nosso país, as visões que tínhamos sobre a nação eram, predominantemente, elitistas e conservadoras. Varnhagen pontificava com sua obra monumental e sua visão de uma nação que se formara pela ação dos antepassados de sua elite. O povo ficava de fora da história e da construção da nação na obra de Varnhagen e da maioria dos integrantes do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Capistrano admirava Varnhagen e anotou cuidadosamente a obra do historiador, mas isto não impediu que tivesse uma visão crítica sobre seus escritos.

Ao analisar a construção da nação Capistrano foi buscar na expulsão dos holandeses uma espécie de marco zero, aquele momento no qual surgiu entre nós, com maior força, a ideia de uma nação e de um povo, com características e identidade próprias. Para ele, lavrava a desafeição entre nossos três troncos étnicos e seus respectivos mestiços. Negros ladinos e boçais, índios catequizados e livres, portugueses reinóis e mazombos, viam entre si flagrantes diferenças e quase nenhuma identidade. Para Capistrano, dominavam forças dissolventes, centrífugas, não havendo consciência de unidade, mas de multiplicidade.

Reinóis e mazombos, negros boçais e negros ladinos, mamalucos, mulatos, caboclos, caribocas, todas as denominações, enfim, sentiram-se mais próximos uns de outros, apesar de todas as diferenças flagrantes e irredutíveis, do que do invasor holandês: daí uma guerra começada em 1624 e levada ao fim, sem desfalecimentos, durante trinta anos. (ABREU: 2000, 98)

Em outros termos, Holanda e Olinda representavam o mercantilismo e o nacionalismo. Venceu o espírito nacional. Reinóis como Francisco Barreto, ilhéus como Vieira, mazombos como André Vidal, índios como Camarão, negros como Henrique Dias, mamalucos, mulatos caribocas, mestiços de todos os matizes combateram unânimes pela liberdade divina. Sob a pressão externa operou-se uma solda, superficial, imperfeita, mas um princípio de solda, entre os diversos elementos étnicos. (ABREU: 2000, 123-124)
 
Apesar de reconhecer a importância do movimento criado para expulsar os holandeses, como responsável por aquela solda que levaria ao espírito nacional, Capistrano considerava que a invasão flamenga constituía um mero episódio da ocupação da costa. Muito mais importante, em todos os aspectos, na formação do Brasil, era “o povoamento do sertão, iniciado em épocas diversas, de pontos apartados, até formar-se uma corrente interior, mais volumosa e mais fertilizante que o tênue fio litorâneo” (ABREU: 2000, 127).

Ao longo do século vinte, após a morte do mestre sertanejo, muitos questionaram o real valor da sua obra, alegando que Capistrano ficou a nos dever uma História do Brasil. José Honório Rodrigues, talvez o melhor dos que estudaram a sua obra, nos dá a melhor resposta sobre a contribuição de Capistrano para a nossa historiografia. Para ele, o valor permanente de Capistrano reside na interpretação. “Ele foi um intérprete, porque foi um grande humanista. (...) como historiador, se preparou para conhecer tudo o que a espécie e o destino humanos podem realizar no mundo, neste mundo que é o Brasil.” (RODRIGUES: 1977a, LV)

A obra do mestre Capistrano, solidamente edificada, continua de pé, referência para todos os que queiram compreender a formação do nosso país. Essa, sem dúvida, a sua grande contribuição.




*Joan Edesson de Oliveira é educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.




Bibliografia:

ABREU, Capistrano de. Correspondência. Vol. 1. 2 ed. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1977a.
ABREU, Capistrano de. Correspondência. Vol. 2. 2 ed. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1977b.
ABREU, Capistrano de. Capítulos de história colonial. Belo Horizonte/São Paulo. Itatiaia/Publifolha, 2000.
GONTIJO, Rebeca. O “cruzado da inteligência”: Capistrano de Abreu, memória e biografia. Anos 90, Porto Alegre, v. 14, n. 26, p. 41-76, dez. 2007.
RODRIGUES, José Honório. Capistrano de Abreu e a historiografia brasileira. In: ABREU, Capistrano de. Correspondência. Vol. 1. 2 ed. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1977b.
RODRIGUES, José Honório. Explicação. In: ABREU, Capistrano de. Capítulos de história colonial. Belo Horizonte/São Paulo. Itatiaia/Publifolha, 2000.
VIANNA, Helio. Ensaio biobibliográfico. In: ABREU, Capistrano de. O descobrimento do Brasil. São Paulo. Martins Fontes, 1999.







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