Brasil

13 de agosto de 2017 - 7h52

José Carlos Ruy: Capistrano de Abreu, historiador caboclo 


   
Seu lado era o povo, como disse em uma carta ao historiador português João Lúcio de Azevedo, em 16 de julho de 1920: "a mim me preocupa o povo, durante três séculos capado e recapado, sangrado e ressangrado" (1). Ele demarcava dessa forma sua posição ante o historiador áulico, puxa saco de D. Pedro II e da Casa de Bragança, Francisco Varnhagen, e que desprezava o ponto de vista brasileiro e popular - o “caboclismo”, como chamava para desqualificar o ponto de vista nacional.

Sem esnobismo e com uma escrita simples e direta, esta opção transparece em todos os escritos de Capistrano de Abreu – que estudou, por exemplo, línguas indígenas para melhor entender o Brasil.

Embora crítico, ele valorizou a a obra de Varnhagen. Com perspicácia crítica escreveu, no necrológio daquele historiador que, para ele, a Independência sem D. Pedro teria sido "ilegal, ilegítima, subversiva, digna da forca ou do fuzil" (2).

Capistrano de Abreu fez parte da geração que, nas décadas de 1870 e 1880, lutou contra a a escravidão e pela República. Geração que assumiu o desafio de atualizar a compreensão do país e seu povo. Faziam parte dela, além de Capistrano de Abreu, homens como Silvio Romero, João Ribeiro, Euclides da Cunha, Manoel Bomfim, entre outros (3). Não eram perfeitos e pagavam ainda um pesado tributo às matrizes européias do pensamento social e seus fortes preconceitos (raciais, principalmente).

Embora a obra mais marcante daquela época tenha sido Os sertões (1902), de Euclides da Cunha, o principal historiador daquela geração foi, não há dúvida, Capistrano de Abreu. Ele foi um continuador crítico da obra de Varnhagen, que anotou minuciosamente, restabeleceu fontes e supriu lacunas – muitas delas fruto da vaidade intelectual do historiador da Casa de Bragança, que muitas vezes escondia suas fontes.

Fiel ao espírito de seu tempo, a história para Capistrano de Abreu era simultaneamente um gênero literário e uma ciência cujas linhas gerais buscava no positivismo, no evolucionismo, determinismo geográfico e na sociologia. E, como a maior parte dos autores de então, pensava que as sociedades se desenvolviam como os organismos vivos.

A partir de um arsenal teórico com base nessas ideias, Capistrano de Abreu trouxe a pesquisa empírica para o primeiro plano, disse a historiadora Alice P. Canabrava. Interessou-se pelo "povo propriamente dito, os segmentos populacionais que trabalham a terra, os que labutam nas tarefas artesanais ou nos afazeres do comércio". Dessa maneira a "reconstrução histórica deixa de se prender exclusivamente à ação dos expoentes da estrutura político-administrativa" e se refere pioneiramente ao que ele chamava de “povo comum”. Seu pensamento trouxe "uma nova visão do seu próprio mundo, a do Brasil republicano". Ele viveu "os anos de ruptura da unidade inteiriça do Império, refletida na História Geral de Varnhagen" e coube a ele delinear "um Brasil novo, que observava com a sensibilidade aguçada pelos instrumentos intelectuais”, tentando “recriar o passado, à luz dessa dupla experiência" (4)

A compreensão da trajetória deste povo pelo qual tinha tanta simpatia aparece nos temas que dominaram sua obra - o contraste entre o litoral e o sertão, a importância do estudo do povoamento e a valorização da mestiçagem étnica e cultural, o estudo da formação territorial do país, importância de estudar as populações que aqui habitavam, que ressalta ao estudar línguas indígenas para melhor compreender a geografia do país.

Entre suas contribuições está o minucioso exame e resgate de documentos e mesmo a descoberta da autoria de inúmeros deles como, por exemplo, a de livros fundamentais como os Diálogos das Grandezas do Brasil, escrito no início do século XVII e atribuído a Ambrósio Fernandes Brandão, ou Cultura e Opulência do Brasil, de um século adiante, escrito por André João Antonil, pseudônimo do jesuíta João Antônio Andreoni. Fez também publicar outros livros essenciais, entre eles a História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador, que dormiu por dois séculos nos arquivos portugueses até ser encontrado no século XIX.

É vasto o conjunto de ensaios, prefácios, resenhas, estudos críticos, cartas, deixado por Capistrano de Abreu, que foram publicados esparsamente. E também três livros fundamentais: Caminhos antigos e povoamento do Brasil (1899), onde investigou o esforço de conquista do território e seu povoamento; O descobrimento do Brasil (1883) com o qual concorreu à vaga de professor de História do Brasil no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, no qual discute as pretensões estrangeiras sobre o território nacional e expôs seus temas preferidos cujo estudo aprofundou nos anos seguintes (o litoral, o sertão, o povoamento, a população etc.). Aquele livro foi uma espécie de roteiro seguido finalmente em Capítulos da História Colonial (1907), que Nelson Werneck Sodré considerou como "trabalho de consulta obrigatória", constituindo "a ossatura cronológica a ser preenchida pelas pesquisas de outra escala e, principalmente, de outro método" (5).

Capistrano de Abreu enfrentou a tarefa de reconciliar a arte de escrever a história do Brasil com o povo e com a nação.

Foi o verdadeiro historiador caboclo cuja obra, que continua essencial, deixou marcas profundas no estudo da trajetória humana neste pedaço do mundo formado pelo Brasil, com continuadores célebres, entre eles estudiosos do porte de Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro.


*José Carlos Ruy é jornalista e escritor.



Notas
(1) Abreu, João Capistrano de. Correspondência, v. 2, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977
(2) Abreu, João Capistrano de. "Necrológio de Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de Porto Seguro, in Ensaios e Estudos, 1ª Série, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975
(3) Ventura, Roberto. Estilo tropical - história, cultura e polêmicas literárias no Brasil, São Paulo, Cia das Letras, 1991
(4) Canabrava, Alice Pfeifer. "Varnhagen, Martius e Capistrano de Abreu", in Separata do III Colóquio de Estudos Teuto-brasileiros, Porto Alegre, UFRS, 1980
(5) Sodré, Nelson Werneck. O que se deve ler para conhecer o Brasil, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1973



  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

Últimas Mais