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Brasil, quinta-feira, 28 de agosto de 2008

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alca
Uma estrutura perversa 


A pretensão hegemonista dos EUA fica patente ao se analisar a estrutura de negociação da Alca. Ela é totalmente impermeável à sociedade civil. Somente os representantes dos governos e das multinacionais participam das negociatas. Os próprios parlamentos nacionais estão excluídos, cabendo apenas o papel decorativo de ratificação do acordo na sua fase final. Através do Fórum Empresarial das Américas, as corporações têm acesso seguro a todos os documentos em discussão. Só nos EUA, existem mais de 500 lobbys patronais que dão consultoria ao governo nas reuniões da Alca. Enquanto os EUA indicam nove integrantes para cada instância negociadora, os outros países só têm direito de nomear um assessor.

A estrutura de negociações segue o seguinte organograma:

  • Presidência das Negociações. Obedece a um rodízio de 18 em 18 meses. Exatamente no seu período mais decisivo, da assinatura do tratado, será encabeçada pelos governos dos EUA e do Brasil – numa jogada indecorosa do presidente Bush para conseguir o apoio incondicional do Brasil à Alca.

  • Comissão de Negociações Comerciais. Composta pelos ministros ou vice-ministros do comércio dos 34 países da região, é responsável pela supervisão das negociações.

  • Grupos de Negociação. São nove grupos, com rodízio na presidência a cada 18 meses. Segundo vários estudos, é nesta instância, com acentuada presença das multinacionais, que se define o futuro da Alca:

1- Grupo de Negociação em Serviços. Objetivo: “Estabelecer matérias para liberalizar progressivamente o comércio de serviços”. Sua meta é restringir as ações dos governos por meio de inúmeras limitações legais obrigatórias, reforçadas por sanções comerciais da OMC. Visa coibir o “monopólio” do Estado na distribuição de serviços e facilitar o acesso das multinacionais aos contratos públicos em diversos setores.

2- Grupo de Negociação em Investimentos. Objetivo: “Incentivar o investimento por meio da criação de um ambiente estável e previsível que proteja o investidor, seu investimento e movimentos afins, sem criar obstáculos aos investimentos provenientes do exterior”. Visa conceder à empresa o direito de mover ação para compensação de “prejuízos” decorrentes de leis trabalhistas, ambientais e outras de cada país.

3- Grupo de Negociação de Contratos Públicos. Objetivo: “Aumentar o acesso ao mercado de contratos públicos nos países da Alca”. Visa impedir que os governos fomentem o desenvolvimento econômico doméstico na compra mercadorias, o que resultaria em enormes prejuízos às empresas nacionais.

4- Grupo de Negociação sobre Acesso aos Mercados. Objetivo: “Apresentar metodologia para eliminar os obstáculos tarifários e não tarifários e fixar o ritmo da redução das barreiras”. A liberalização atingiria mercadorias, serviços e capital e todas as leis de proteção à economia nacional seriam analisadas por este grupo.

5- Grupo de Negociação para a Agricultura. Objetivo: “Eliminar os subsídios agrícolas que afetem o comércio no hemisfério”. Estabeleceria regras sobre o comércio de alimentos e limitaria as políticas nacionais, restringido o apoio aos agricultores, a manutenção de estoques de emergência de produtos alimentícios e as medidas de segurança alimentar que garantam a sobrevivência das populações carentes.

6- Grupo de Negociação sobre Direitos de Propriedade Intelectual. Objetivo: “Estabelecer normas globais, de execução obrigatória, sobre patentes, direitos autorais e marcas registradas”. Visa privilegiar os direitos das empresas em detrimento dos direitos das comunidades locais. Impediria os governos, por exemplo, de fornecerem medicamentos genéricos mais baratos e coquetéis aos aidéticos.

7- Grupo de Negociação sobre Subsídio, Antidumping e Direitos de Compensação. Meta: “Ampliar as leis de recurso, visando não criar obstáculos injustificados ao comércio do hemisfério”.

8- Grupo de Negociação sobre a Política de Competição. Objetivo: “Garantir que os benefícios do processo de liberalização da Alca não sejam prejudicados por práticas comerciais anticompetitivas”. O grupo visa desenvolver mecanismos que facilitem e fomentem a política de competição e garantam a execução obrigatória de regulamentos sobre livre concorrência entre e dentro dos países do hemisfério.

9- Grupo de Negociação sobre Resolução de Disputas. Objetivo: “Fomentar a utilização de arbitragem e de outros mecanismos alternativos de solução de disputas para resolver controvérsias particulares”. Um país penalizado por este “tribunal” teria três opções: alterar sua lei para se ajustar às normas da Alca, pagar uma indenização permanente em dinheiro, ou enfrentar sanções severas do país vencedor.

Além destes grupos, que se reúnem periodicamente e gozam de excessivo poder, também funcionam três grupos “consultivos”, com pouca influência nos rumos da Alca. O comitê sobre as economias menores, que até agora sequer reconheceu as disparidades entre as nações da região; o comitê sobre a sociedade civil, que só aceita sugestões por escrito e já foi batizado de “caixa postal”; e o comitê conjunto de peritos em comércio eletrônico, que tende a ganhar importância devido à emergência da Internet no mercado, tanto que já foi totalmente tomado pelas corporações norte-americanas, como a Microsoft e a AT&T.

 
ALCA
notícias

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5/11/2005

Cerca de 60 mil latino-americanos marcham contra Bush e a Alca

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