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Afinal, a quem serve a proposta de criação
da ALCA? De imediato, o senso comum indica
que todas as investidas da maior potência
mundial, os EUA, sempre prejudicaram os
povos das nações dependentes. Ou seja: boa
coisa não é! Esta impressão é confirmada
pelos documentos que vazaram das
negociações em curso e também pela
experiência do Nafta, que já dura oito
anos e envolve EUA, Canadá e México. A
ALCA serve unicamente aos interesses do
imperialismo ianque como expressão maior
das corporações empresariais. Do ponto de
vista da população de todos os países do
continente, ela representa um violento
ataque à soberania nacional, um atentado à
democracia e uma brutal regressão dos
direitos sociais.
No caso do Nafta, nem sequer os
trabalhadores norte-americanos, que
aparentemente seriam beneficiados pelo
crescimento da economia local, têm o que
comemorar. Desde sua vigência, este
tratado já eliminou 766 mil empregos nos
EUA. Com o deslocamento das multinacionais
para o México em busca de mão-de-obra
barata, cresceu a chaga do trabalho
precário e os salários perderam quase 30%
do seu valor real. Já no Canadá, há tempos
entre as nações do mundo com melhor Índice
de Desenvolvimento Humano, 276 mil
trabalhadores perderam os seus empregos.
Segundo Maude Barlow, da ONG Council of
Canadians, desde a implantação do Nafta
“passamos a ter pessoas dormindo nas ruas
e crianças passando fome”.
Quanto ao México, que serve mais de
referência para se prognosticar os
estragos causados pela ALCA, os efeitos de
um tratado de “livre comércio” são
assustadoras. Nos últimos oito anos, esta
nação regrediu a condição de colônia de
última categoria dos EUA. As
multinacionais tomaram de assalto o país –
não é para menos que o atual presidente
mexicano, Vicente Fox, foi gerente da
Coca-Cola. Hoje o México depende
totalmente dos EUA. De lá provêem 74% das
importações e para lá se dirigem 89% das
suas exportações. A desnacionalização da
economia atingiu as raias do absurdo com a
“entrega” da poderosa estatal do petróleo,
a Pemex, que atualmente serve de mera
fiadora da dívida externa.
Já a situação dos trabalhadores
mexicanos se deteriorou de vez. Segundo as
estatísticas oficiais, antes do Nafta
existiam 11 milhões de pobres no país,
cerca de 16% da população. Em 2001, já
eram 51 milhões (58% dos mexicanos). Mais
de 50% dos assalariados recebem, em termos
reais, menos da metade do que recebiam há
10 anos atrás. Neste período, o número de
mexicanos que ganham menos de um salário
mínimo aumentou em um milhão e 8 milhões
de pessoas submergiram na pobreza,
despencando do patamar de “classe média”.
Relatório recente da Unicef confirma que
mais de um milhão de crianças começam a
trabalhar aos seis anos de idade e têm
jornadas diárias de até 12 horas.
Na agricultura, cerca de 6 milhões de
lavradores perderam suas terras e suas
ocupações devido à invasão dos produtos
agrícolas norte-americanos. Já no campo
industrial, o país foi devastado pela
praga das “maquiladoras” – multinacionais
que se instalam na fronteira para explorar
a mão-de-obra barata. Já são mais de 4 mil
empresas deste tipo no país, que pagam
salários 10 vezes inferiores aos pagos nos
EUA. Nelas são comuns os casos de violação
da frágil legislação trabalhista, de
repressão ou simples proibição dos
sindicatos, de horas extras forçadas e de
maus tratos. Como 60% da mão-de-obra nas
maquiladoras é formada por mulheres, são
freqüentes as denúncias de abuso sexual e
do trabalho penoso e insalubre.
A experiência do Nafta demonstra que a
imposição das regras do “livre comércio”,
com a eliminação das medidas de proteção
às economias nacionais, visa permitir que
as megacorporações dos EUA engulam de vez
os mercados do continente. A tendência
natural é a destruição do que resta do
parque produtivo destes países. Indústria,
agricultura, comércio e serviço ficariam
totalmente vulneráveis diante do poderio
norte-americano. Com a quebradeira das
empresas nacionais, haveria aumento do
desemprego e queda dos rendimentos dos
trabalhadores. Isto explica porque a ALCA
só faz sentido com a servil adesão do
Brasil.
Como afirma o sociólogo Luis Fernando
Garzon, “os dotes nacionais são inúmeros e
invejáveis: a) um mercado interno que
apesar de elitizado conta com mais de 30
milhões de consumidores; b) abundantes e
valiosos recursos naturais, como a
biodiversidade, petróleo, minérios
metálicos; c) conjunto de empresas
altamente competitivas ainda sob controle
interno, como a Petrobrás, Furnas,
Votorantim, Bradesco, Embraer, etc.; d)
mão-de-obra relativamente qualificada e
absolutamente mal paga; e) grande extensão
de áreas de plantação, fornecedoras de
matérias-primas agrícolas; f) um conjunto
precioso de filiais de multinacionais com
grande capacidade de reexportação”. A gula
das multinacionais é insaciável e, por
isso, o Tio Sam aponta o seu dedo para
este quintal com tanto interesse.
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