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Brasil, sexta-feira, 10 de outubro de 2008

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alca
A quem serve a ALCA?


Afinal, a quem serve a proposta de criação da ALCA? De imediato, o senso comum indica que todas as investidas da maior potência mundial, os EUA, sempre prejudicaram os povos das nações dependentes. Ou seja: boa coisa não é! Esta impressão é confirmada pelos documentos que vazaram das negociações em curso e também pela experiência do Nafta, que já dura oito anos e envolve EUA, Canadá e México. A ALCA serve unicamente aos interesses do imperialismo ianque como expressão maior das corporações empresariais. Do ponto de vista da população de todos os países do continente, ela representa um violento ataque à soberania nacional, um atentado à democracia e uma brutal regressão dos direitos sociais.

No caso do Nafta, nem sequer os trabalhadores norte-americanos, que aparentemente seriam beneficiados pelo crescimento da economia local, têm o que comemorar. Desde sua vigência, este tratado já eliminou 766 mil empregos nos EUA. Com o deslocamento das multinacionais para o México em busca de mão-de-obra barata, cresceu a chaga do trabalho precário e os salários perderam quase 30% do seu valor real. Já no Canadá, há tempos entre as nações do mundo com melhor Índice de Desenvolvimento Humano, 276 mil trabalhadores perderam os seus empregos. Segundo Maude Barlow, da ONG Council of Canadians, desde a implantação do Nafta “passamos a ter pessoas dormindo nas ruas e crianças passando fome”.

Quanto ao México, que serve mais de referência para se prognosticar os estragos causados pela ALCA, os efeitos de um tratado de “livre comércio” são assustadoras. Nos últimos oito anos, esta nação regrediu a condição de colônia de última categoria dos EUA. As multinacionais tomaram de assalto o país – não é para menos que o atual presidente mexicano, Vicente Fox, foi gerente da Coca-Cola. Hoje o México depende totalmente dos EUA. De lá provêem 74% das importações e para lá se dirigem 89% das suas exportações. A desnacionalização da economia atingiu as raias do absurdo com a “entrega” da poderosa estatal do petróleo, a Pemex, que atualmente serve de mera fiadora da dívida externa.

Já a situação dos trabalhadores mexicanos se deteriorou de vez. Segundo as estatísticas oficiais, antes do Nafta existiam 11 milhões de pobres no país, cerca de 16% da população. Em 2001, já eram 51 milhões (58% dos mexicanos). Mais de 50% dos assalariados recebem, em termos reais, menos da metade do que recebiam há 10 anos atrás. Neste período, o número de mexicanos que ganham menos de um salário mínimo aumentou em um milhão e 8 milhões de pessoas submergiram na pobreza, despencando do patamar de “classe média”. Relatório recente da Unicef confirma que mais de um milhão de crianças começam a trabalhar aos seis anos de idade e têm jornadas diárias de até 12 horas.

Na agricultura, cerca de 6 milhões de lavradores perderam suas terras e suas ocupações devido à invasão dos produtos agrícolas norte-americanos. Já no campo industrial, o país foi devastado pela praga das “maquiladoras” – multinacionais que se instalam na fronteira para explorar a mão-de-obra barata. Já são mais de 4 mil empresas deste tipo no país, que pagam salários 10 vezes inferiores aos pagos nos EUA. Nelas são comuns os casos de violação da frágil legislação trabalhista, de repressão ou simples proibição dos sindicatos, de horas extras forçadas e de maus tratos. Como 60% da mão-de-obra nas maquiladoras é formada por mulheres, são freqüentes as denúncias de abuso sexual e do trabalho penoso e insalubre.

A experiência do Nafta demonstra que a imposição das regras do “livre comércio”, com a eliminação das medidas de proteção às economias nacionais, visa permitir que as megacorporações dos EUA engulam de vez os mercados do continente. A tendência natural é a destruição do que resta do parque produtivo destes países. Indústria, agricultura, comércio e serviço ficariam totalmente vulneráveis diante do poderio norte-americano. Com a quebradeira das empresas nacionais, haveria aumento do desemprego e queda dos rendimentos dos trabalhadores. Isto explica porque a ALCA só faz sentido com a servil adesão do Brasil.

Como afirma o sociólogo Luis Fernando Garzon, “os dotes nacionais são inúmeros e invejáveis: a) um mercado interno que apesar de elitizado conta com mais de 30 milhões de consumidores; b) abundantes e valiosos recursos naturais, como a biodiversidade, petróleo, minérios metálicos; c) conjunto de empresas altamente competitivas ainda sob controle interno, como a Petrobrás, Furnas, Votorantim, Bradesco, Embraer, etc.; d) mão-de-obra relativamente qualificada e absolutamente mal paga; e) grande extensão de áreas de plantação, fornecedoras de matérias-primas agrícolas; f) um conjunto precioso de filiais de multinacionais com grande capacidade de reexportação”. A gula das multinacionais é insaciável e, por isso, o Tio Sam aponta o seu dedo para este quintal com tanto interesse.

 
ALCA
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