Brasil

5 de outubro de 2011 - 10h03

Uma história da complexidade energética


O novo livro, Drilling Down, não é simplesmente a história da fuga de petróleo no Golfo [do México] (embora conte esta história bastante bem). Tainter e Patzek usam a história da fuga no Golfo [1] como pano de fundo para discutir a espiral de complexidade da energia e o seu relacionamento com este acidente.

A espiral de complexidade ocorre porque a disponibilidade de energia abundante e barata permite a complexidade acrescida. A complexidade tem a vantagem de permitir à sociedade resolver mais problemas, mas tem a desvantagem de ser mais custosa – o que significa exigir mais energia para a sua criação. A necessidade de mais energia (e o fato de que o rácio Energia Retornada sobre Energia Investida (EROEI) está a declinar) leva à necessidade de mais complexidade para obter esta energia adicional, assegurando que o ciclo continua. Com complexidade crescente, há um risco acrescido de acidentes que se pode esperar devido à natureza complexa do sistema, mas os quais são difíceis de prever pelos participantes.

Tainter e Patzek acrescentam novas perspectivas ao que foi relatado em outros lugares, tais como em The Oil Drum . Joe Tainter é um antropólogo e historiador que ensina no Departamento de Ambiente e Sociedade da Universidade Estadual de Utah. O seu trabalho mais conhecido é The Collapse of Complex Societies . Tad Patzek tem um Ph.D. em Engenharia Química e ensina na Univesidade do Texas, Departamento de Petróleo e Engenharia de Geosistemas. Ele testemunhou em audiências no Congresso sobre a fuga de petróleo.

O livro tem nove capítulos:
- Introdução
- A importância do petróleo no Golfo do México
- A Energia que move o mundo
- Perfuração e produção offshore: Uma breve história
- A espiral da complexidade energética
- Os benefícios e custos da complexidade
- O que aconteceu no Furo Macondo
- Porque o desastre do Golfo aconteceu
- A nossa energia e o dilema da complexidade: Perspectivas para o futuro

Nós já extraímos muito do petróleo fácil de extrair. Como caminhamos para petróleos mais difíceis de extrair, descobrimos que é necessário utilizar tecnologias mais complexas, custosas e arriscadas, guiadas pelo EROEI em queda, numa espiral de complexidade da energia. Esta espiral na produção de petróleo espelha a espiral maior de complexidade da energia na sociedade como um todo. A introdução descreve o objetivo do livro como duplo:

... primeiro explicar o desastre do Golfo, a espiral de complexidade da energia, e como elas estão necessariamente conectadas; em segundo lugar encorajar todos os consumidores de energia a considerar se esta espiral é ou não sustentável e o que significará para nós.

Os dois autores contribuem com as suas perspectivas para a situação. Patzek conta a história técnica da extração de petróleo, porque precisamos do petróleo do Golfo do México e como o óleo ali é encontrado em reservatórios cada vez mais pequenos e cada vez mais profundos. Ele também conta alguns dos pormenores acerca da complexidade da extração quando mais pessoas e empresas são envolvidas no processo e quando mais complexo equipamento de extração é necessário.

Tainter dá a visão geral de como funciona a espiral da complexidade em energia. Ele também mostra como civilizações anteriores manejaram a complexidade crescente e a dificuldade de manter uma oferta adequada de energia quando os retornos marginais declinam. Em conjunto, eles contam a história específica do acidente do Deepwater Horizon, assim como a história mais geral da nossa busca por maiores abastecimentos de energia e os problemas envolvidos.

O livro descreve o Deepwater Horizon como um "acidente normal":

Perrow utiliza a expressão "acidentes normais" parcialmente como sinônimo de acidentes "inevitáveis", acidentes cuja probabilidade é inerente num sistema tecnológico complexo. Numa peça de tecnologia com muitas partes e altamente complexa, acontecem acidentes de interações imprevisíveis entre algumas das partes. A complexidade torna falhas praticamente inevitáveis. Os engenheiros tentam evitar a falha acrescentando mais complexidade, a qual torna a operação de sistemas tecnológicos difícil para o entendimento de operadores humanos.

Acidentes normais surgem como se fossem Cisnes Negros [2] , algo que não pode acontecer. De fato, a própria natureza de tecnologias complexas torna os acidentes prováveis. Eles são um subproduto normal da operação de sistemas cuja complexidade está para além do entendimento humano.
 
A razão porque acidentes tendem a acontecer é em parte porque várias tarefas são divididas entre várias companhias, cada uma delas tentando obter um lucro. Dentro de cada companhia as tarefas são mais uma vez divididas entre muitos trabalhadores.

Pode-se esperar que a probabilidade de "acidentes normais" aumente quando a furação é principiada em lugares cada vez mais arriscados, tais como a costa da Groenlândia e o Norte do Círculo Ártico.

Drilling Down cobre muitos tópicos interessantes, desde pormenores acerca de como é feita a extração, a pormenores acerca do que aconteceu no momento do acidente, vistas gerais de como várias civilizações trataram da ascensão da complexidade e de fluxos de energia reduzidos. Tainter levanta a questão do declínio do retorno marginal no investimento em complexidade – e de como isto parece ser demonstrado, por exemplo, por menos patentes novas, mesmo em sectores da energia. O livro também menciona que soluções mais complexas – desde carros híbridos gás-elétricos até aviões militares aprimorados – tendem a ser mais caras por unidade construída e estes custos mais altos limitam quantos são realmente vendidos.

O livro considera o modo como escravos energéticos na forma de combustíveis fósseis são um meio de pagar pela complexidade acrescida, pelo menos até que eles comecem a escassear. A obra também menciona coisas que deveriam ser óbvias – como a nossa dependência dos combustíveis fósseis – são mascaradas pelo fato de serem uma parte tão grande da nossa vida diária e de durante muitos anos isso não ter sido um problema. Ao explicar isto, mostra-se que um peixe não saberia que o seu nariz está úmido – a água tão parte do seu ambiente diária que passa desapercebida.

Não se trata de um livro que dê uma fórmula para resolver nossos problemas de energia. O que se segue é parte das observações finais do livro (o texto pode variar – o manuscrito que estou a ver não é o final).

É elegante pensar que seremos capazes de produzir energias renováveis com tecnologias mais suaves, com máquinas mais simples que produzem menos dano à terra, à atmosfera e às pessoas. Todos desejamos isso, mas devemos abordar tais tecnologias com uma dose de realismo e uma perspectiva a longo prazo. Um projeto geotérmico na Basileia, Suíça, começou em Dezembro de 2006, esteve em andamento só uns poucos dias quando houve um pequeno tremor de terra de magnitude 3,4, assustando pessoas e danificando edifícios. Mas de 100 réplicas continuaram em 2007 e o projeto foi abandonado porque o povo estava demasiado assustado.

A energia solar e eólica, numa escala suficientemente grande para ser significativa, consumiria grandes quantidades de terra... Energia renovável que desse a mesma potência per capita que desfrutamos hoje não seria livre de danos ambientais... Na verdade, nas grandes áreas de terra que exigiria, a energia renovável poderia causar mais danos ambientais do que aqueles causados pela nossa utilização de combustíveis fósseis. Sabemos que isto não é uma observação agradável, mas ao longo de todo o livro enfatizamos a necessidade de realismo.

É sempre importante manter em mente os processos a longo prazo, bem como as regularidades do comportamento humano. Tal como com os combustíveis fósseis, primeiro exploraremos fontes de energia renovável com os gradientes de energia mais pronunciados, os mais altos EROEI. Uma vez que estas já não satisfaçam as nossas necessidades, faremos o que estamos a fazer agora com o petróleo. Produziremos energia renovável em lugares que são cada vez mais desfavoráveis e para isto desenvolveremos tecnologias que são complexas, custas e arriscadas.

Talvez no fim as consequências não venham a ser tão grandes como a fuga no Golfo, embora não ousemos imaginar como as pessoas podem ponderar os custos econômicos e emocionais de tremor de terra com os de uma fuga de petróleo, ou a diferença entre abrir o Refúgio Nacional Ártico de Vida Selvagem à prospecção de petróleo e ocupar um vasto ecossistema deserto para capturar sua energia solar. Esperamos que a energia renovável será mais ambientalmente benigna do que tem sido os combustíveis fósseis, mas só saberemos isso quando nos expandirmos para fontes de energia renovável que rendam retornos marginais declinantes.

O que são as alternativas? As crises fiscais experimentadas atualmente por muitos governos dão-nos uma antevisão do que provavelmente estaria à nossa espera caso as nossas fontes de energia se demonstrassem inadequadas... Professores estão a ser despedidos, programas cancelados e anos de escola abreviados. A Grã-Bretanha eliminou todas as agências de governo e planejamento a fim de implementar a mais drástica redução de serviços públicos desde a II Guerra Mundial. Tudo isto está a acontecer num tempo em que a energia ainda é abundante e relativamente barata.

Nossas sociedades não podem adiar uma discussão pública acerca da energia futura. Como dissemos antes, isto deve ser uma discussão adulta, uma discussão que seja honesta, séria e realista. Ela não pode ser baseada em sabichões ideologicamente orientados (punditry), ou teoria econômica baseada na fé, ou otimismo tecnológico ilimitado... Podemos antecipar e planear o nosso futuro ou podemos simplesmente permitir que o futuro acontecer. Esta é a nossa opção.

A era de abundância petrolífera acabará algum dia, esperançosamente sem quaisquer acidentes mais da magnitude da explosão do Deepwater Horizon. Não sabemos quando isto acontecerá, nem qualquer outra pessoa. Certamente acontecerá mais cedo do que desejamos. Mas temos alguma capacidade para entender como o futuro se desdobrará. Podemos projetar o futuro com base na nossa experiência passada, pois não somos os primeiro a encontrar os desafios da energia. Na nossa discussão é sempre valioso manter em mente a redefinição da Lei de Stein: Uma tendência que não pode continuar, não continuará.
 
Drilling Down está disponível para pré-encomenda. Disseram-me que o livro estará pronto na primeira semana de Outubro. O livro vale bem o seu modesto preço de US$13,23, na minha opinião. Com um autor orientado para o pormenor e outro para o "grande quadro", o livro contém algo para toda a gente. Não é exigido conhecimento prévio da terminologia do petróleo; a obra dispõe de um glossário.

Notas:
[1] O desastre do rig da BP no Golfo do México, verificado em 20/Abril/2010, custou a vida de 11 operários e provocou a fuga de milhões de barris de petróleo ao longo de vários meses. É possível que a fuga ainda continue neste momento, mesmo depois de estar oficialmente controlada, devido à fracturação do subsolo marinho.

[2] Referência ao livro Black Swans, de N. Taleb, acerca dos acontecimentos aleatórios



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